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14/08/2016: “Vim para trazer divisão”

Comentário ao Evangelho: (Lucas 12,49-53)

Religião e violência são realidades que se excluem mutuamente? A resposta mais óbvia deveria ser um redondo sim. Mas a realidade é bem outra quando consideramos os enganos, as leituras atravessadas e as más interpretações dos textos sagrados, além das (im)posturas de muitos homens religiosos. Os ateus mais proficientes não erram – a não ser por generalização – quando nos atiram à cara esta dura realidade: homens religiosos são também violentos. Com isso atestam que a ideia de Deus não produz nenhum modo de viver radicalmente diferente. Há quem, inclusive, não consiga dissociar religião e fundamentalismo, como se todo pertencimento a uma fé significasse igualmente irreflexão, agressividade ou intolerância.

Stálin foi homem profundamente devoto e, fotos recentes o mostram em oração numa capela em Moscou à qual, dizem, ele acorria diariamente. Não se sabe muito sobre a veracidade dessa “novidade histórica”, mas pode fazer sentido… O que dizer de Hitler: esse sim nutria grande apreço por Jesus Cristo e em seu livro absurdo “Minha Luta”, não esconde suas ideias religiosas distorcidas. Mussolini era católico, pasmem! E nós sabemos bem do que esses homens foram capazes, apesar da religiosidade… Disso, muitos deduzem, erroneamente é verdade, que a religião é um desserviço à vida.

Quem, entretanto, pretende viver a radicalidade da fé em Jesus Cristo ou segundo a integralidade de seu evangelho, jamais poderá levantar a mão contra seu irmão ou oprimir, extorquir, eliminar, extinguir a liberdade, desrespeitar…Os verdadeiros discípulos do Cristo constroem pontes e não muros; não dividem nem apartam nem separam, mas reúnem e integram. Parece simplista, mas os três monoteísmos sabem, à despeito das problemáticas passagens de suas respectivas escrituras, que religião é para ligar-religar a nossa vida a Deus e aos outros, construindo uma humanidade de irmãos, que vivam em paz e não em guerra.

Tudo estaria resolvido, não fosse nós mesmos nos encontrarmos com esta passagem do evangelho (cf. Lc 12, 49-53). Jesus dizendo, sem mais, que veio trazer fogo à terra; que não veio para trazer paz, mas divisão. A questão se extremiza se soubermos o que simboliza o fogo: sinal do castigo e da ira de Deus (cf. Am 1,4; 2,5/ cf. Is 30,27.30.33/ cf. Mal 3,19), da purificação dos pecados (cf. Is 9,17-18; Jer 15,14; 17,4.27), Jesus teria vindo para consumir e destruir, como o fogo destrói com suas línguas, o que lambe sem dó? E não era função do Messias esperado anunciar e promover a paz (cf. Lc 2,14.29; 7,50; 8,48; 10,5-6; 11,21; 19,38.42; 24,36)? De onde Jesus arrancou essa agora, de que veio dividir?

O fogo que Jesus quer atear não é certamente o do furor do Pai, mas o fogo perdoador de seu amor que na cruz se provará resoluto; seu batismo, portanto, é uma referência à sua morte, que será o auge de nosso perdão. O fogo que Jesus quer acender é aquele que aniquila a maldade, a injustiça, que consome o ódio e o egoísmo. Todo símbolo tem ambiguidades, porém, e é por isso que ficamos, à primeira vista, escandalizados com a palavra de Jesus. O fogo que virá sobre a Terra é o mesmo que sobrevém sobre os discípulos em Pentecostes: entusiasmo, coragem (parresía), consolo. É desse fogo que precisamos, certamente, nós que andamos desanimados, desencorajados e desconsolados.

A paz de Jesus, por sua vez, não é a paz de cemitérios. A paz fingida. Ela nasce da justiça. E há quem opte pela justiça, e quem se decida por não trilhar seus caminhos. É nesse nível que está a divisão. Diante de Jesus e seu modo de viver, há uma separação: os que optam por sua vida como horizonte de sentido e os que não o tomam por horizonte. E, não sejamos hipersensíveis afinal, pois será que deveríamos tolerar tudo, até mesmo a intolerância? A exigência para construir a paz que vem do Cristo, a paz que faz a vida em abundância aparecer, nos coloca em oposição incontornável a tudo aquilo que fere a dignidade e avilta a história humana. Será que todo conflito é ruim? Há conflitos saudáveis – os que não matam nem ferem, os que nascem de posturas distintas, mas respeitosas – que podem ajudar a evoluir…

Tomara Deus, saibamos nos abrir mais ao diálogo do que à agressividade e violência. Nossas mãos são hábeis o suficiente para promover a paz, ao invés da guerra. Que não nos falte esse fogo que incendeia o coração, que ele não nos permita permanecer na indiferença.

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Por, Pe. Eduardo César

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