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16/10/2016: “Inútil oração”

Comentário ao Evangelho do 29º Domingo do Tempo Comum: Lc 18, 1-8

 

Na comunidade, enterravam o meninozinho. Mal completara 11 anos de idade e tivera a vida interrompida por um câncer, descoberto quando já era irreversível. “Quinze dias – contava a avó – desde a primeira queixa de dor de cabeça. Internação, exames, diagnóstico, piora e morte. Tudo em apenas quinze dias. A gente não teve nem tempo de entender”. E enxugava as lágrimas. Passou o enterro, as visitas foram embora e a mãe ficou sozinha. Nunca vou esquecer aquele olhar. “Deus é pior do que nós” – ela começou. “Qualquer um, se pudesse, teria feito tudo para salvar o pequeno. Teria dado a própria vida, se fosse preciso. Mas não estava nas nossas mãos. Só Deus poderia ter feito alguma coisa. Ele podia. E não fez. Ele é pior do que nós”. E concordemos: um Deus que se digna, por decisão ou por omissão, arrancar lágrimas do coração de uma mãe não pode ser amado nem adorado, mas somente desprezado e odiado, quando não temido e abominado. Sequer é digno de ser chamado “deus”, tamanha sua maldade e sua mesquinhez.

Mas seria mesmo isso o que Jesus ensina hoje no Evangelho de Lucas? Que bastaria recorrer a Deus com o coração sincero, insistindo tanto quanto necessário, para conseguir dele os benefícios que, em seu poder, ele pode realizar em nosso favor? Que o mundo seria, no fundo, o cenário de uma grande farsa, disponível ao arbítrio inconsequente de Deus, que se ri das misérias humanas, à espera de que nos submetamos a ele? Nos termos da parábola, que Deus seria como um juiz injusto, desrespeitador de todos, que nos faz o bem apenas por cansaço de nossas insistências? Ora, se isso fosse verdade e se percebemos que os injustos seguem bem sucedidos, a doença e a morte continuam a nos dilacerar o coração e os pobres permanecem abandonados à sua desgraça, não bastando todas as nossas orações, aquela mãe só poderia ter razão: Deus seria mesmo pior do que nós. E odiá-lo seria tudo o que, em são juízo, nós poderíamos fazer.

Entretanto, convém não nos esquecermos de quem é o contador dessa parábola: Jesus. O mesmo Jesus que dedicou a vida inteira, por palavras e gestos, ao anúncio do amor de Deus – um amor tão escandalosamente aberto e grande, que despertou a ira mais ressentida no coração de muitos que se acreditavam privilegiados. Mas também o mesmo Jesus que chorou a dor do abandono e da humilhação; e que bebeu até o último gole no cálice do sofrimento e da morte. Olhando para a vida de Jesus, é impossível crer que Deus seja como o juiz da parábola: por um lado, alheio ao sofrimento humano, distante das lágrimas e dos clamores por justiça; por outro lado, pronto a dirimir com milagres as fragilidades de nossa vida ou a resolver com poder as ciladas armadas pela maldade dos homens. A partir de Jesus, podemos dizer com certeza que Deus não é nem uma coisa, nem outra. Nem o sádico infame, nem o milagreiro todo-poderoso; nem cínico perverso, nem palhaço espetacular – no fundo, faces complementares do juiz da parábola, mas nunca de Deus.

Então, como compreender a necessidade de orar sempre, que Lucas já nos disse ser o objetivo da parábola? De fato, a oração nunca será um instrumento de barganha, mas pode muito bem nos manter em permanente diálogo com o Mistério que nos origina e nos sustenta. A oração também nunca servirá para convencer Deus a se dobrar às nossas necessidades, mas pode nos convencer a nós mesmos de que ele nunca nos abandona, nem mesmo nos momentos mais incertos de nossa vida. Do mesmo modo, a oração não tornará mais fáceis ou menos sofridos os dramas que, sem que ninguém escolha, se põem diante de nós (a fragilidade da vida, a pequenez de nosso saber, a certeza da morte…), mas pode com certeza nos ajudar a olhar para além de todos eles, mantendo vivas a esperança e a confiança que nos sustentam de pé. E, por fim, a oração não vai colocar pão na mesa dos que têm fome, nem justiça nos tribunais injustos, mas pode nos animar e nos unir na busca da fraternidade e da paz, nos convencendo de que tudo isso é Deus mesmo quem nos pede.

Não, Deus nunca será como o juiz da parábola. Por isso, rezamos não porque conseguiremos o que queremos agora ou porque Deus nos dará o que precisaremos amanhã. Deus não precisa nos acudir numa necessidade específica, porque ele já nos sustenta desde sempre e em todo o tempo. E está permanentemente ao nosso lado, derramando conosco as lágrimas que a vida nos arranca, sorrindo conosco nas alegrias que também nos vêm e amando em nós, cada vez que não perdemos a fé no amor.

Que a oração nos sustente a fé. E que o Filho do Homem, vindo ao nosso encontro em cada novo dia, nos encontre firmes na esperança e no amor. E estejamos certos de que podemos até não possuir de tudo o que gostaríamos ou tudo de que precisaríamos, mas nenhuma penúria pode nos arrancar do amor de Deus – para isso, sim, servem a fé e a oração.

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Por, Frei João Júnior, ofmcap

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