Destaque Palavra do Bispo

Homilia da Quinta-feira Santa por Dom Paulo Francisco Machado

Ocorreu na manhã desta quinta-feira (29), na Catedral Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face, a Missa da Unidade. Dom Paulo Francisco Machado, bispo diocesano, que presidiu a Solenidade, divulga através do Portal ELODAFE a sua homilia dirigida ao Clero e a todos os presentes. Confira na íntegra: 


Dom Paulo Francisco Machado 
Bispo Diocesano de Uberlândia 

Conta-se, que por ocasião de uma visita “ad limina”, quando o Papa São João Paulo II governava a Igreja, perguntou a um bispo diocesano se havia algum grave problema na sua diocese.

– Sim, Santidade, a santificação do seu bispo.

– Ao que o Papa, balançando a cabeça, disse: “este é também o mais grave problema desta diocese de Roma”.

Santidade, termo esquecido nos nossos dias, mas a necessidade maior de nossa vida, o nosso grande desafio. Todos somos chamados à santidade: seja o cristão, o diácono, o padre, o bispo. E, com mais razão, nós que somos os guias dos irmãos ensinando-lhes o Caminho, o próprio Jesus. É vivendo de acordo com nossa vocação/missão que deixamos espaço para a ação santificadora do Espírito Santo em nós.

Os termos como somos chamados indicam nossa identidade, recordam-nos continuamente a nossa tarefa de crescer no amor a Cristo e aos irmãos. Tais palavras, tais termos não são um “flatus vocis”. Não somos nominalistas. Os nomes com que somos denominados são frutos de uma experiência, de um sentir profundo de nossa realidade, de nossa vocação/missão, pois como sabemos, estas escondem conteúdo altamente significativo, uma vez que tudo que se encontra no intelecto passa pelos sentidos, por vivências.

Como então, a Teologia, o Povo de Deus, a Igreja nos chamam?

PADRE – Entre nós, é a forma mais comum com que somos conhecidos. Não constituímos família, não temos filhos segundo a carne, mas mediante a pregação do Evangelho e pelo Batismo o padre é instrumento de Deus na doação da Vida Nova. Além disso, é ele que alimenta o Povo Santo de Deus com o Pão da Vida. Dá-se, pois um laço afetivo de paternidade entre ele e os fiéis.

PRESBÍTERO – A palavra tem suas raízes fincadas no AT, após o Exílio Babilonense. Os anciãos eram homens estimados pelo povo por sua sabedoria e prudência. Eles guardavam a memória das ações de Deus em seu favor e, ao mesmo tempo, recordavam os compromissos das tribos de Israel assumidos na Aliança. Este é um termo que melhor exprime o serviço prestado pelos padres, enquanto inclui os três múnus (governar, ensinar e santificar), pois, a dimensão sacerdotal é uma das dimensões – não a única – do serviço do padre.

A ancianidade do sacerdote não é cronológica, mas qualitativa. Ele é o varão experimentado nas coisas de Deus e, chamado assim a conduzir o rebanho de Cristo nos caminhos da santificação, da autêntica liberdade.

HOMEM DE DEUS – Não raramente acontece de o padre ser chamado assim. O povo desta forma exprime uma realidade tocante de nossa vida, percebendo que no seu serviço dá-se numa consagração integral ao Senhor e à sua Igreja. Quantas vezes os fiéis se aproximam de nós com um santo respeito para nos pedir preces numa dada intenção afirmando: “O senhor que é um homem de Deus”. Nossa gente tem uma intuição de que estamos mais próximos de Deus pela celebração dos sacramentos, pela oração e pela vida.

PASTOR – É Cristo o pastor de nossas almas. Nas catacumbas primitivas da Igreja, inúmeras vezes Jesus era representado como Pastor a trazer sobre seus ombros a ovelha tresmalhada. Sim, o padre é pastor enquanto continua a obra de Jesus, sendo instrumento de misericórdia, de recondução ao aprisco do Senhor, das ovelhas desejosas de perdão. O atual Papa tanto tem insistido nessa imagem do pastor. O seu ícone recorda-nos da tão grande necessidade da misericórdia, fazendo-nos conscientes, pastor e ovelhas, de que não passamos de “mendigos de Deus” (Santo Agostinho). O Papa Francisco desde o início de seu ministério da unidade chama a nossa atenção ao afirmar que o padre deve ter “o cheiro das ovelhas”.

SERVO – A nossa dignidade maior é a de imitar Aquele que, após lavar os pés dos seus discípulos, deu-nos a chave da verdadeira alegria e felicidade, convidando-nos a perpetuar no tempo o seu gesto de amor que culminará com sua entrega na cruz. A cada dia, revestidos do Cristo, tomamos em nossas mãos o pão dizendo “Isto é o meu corpo, que é dado por vós”. Ser servo é, pois, entregar a vida. Lembremo-nos: somos servos, não somos senhores. Somos servos em profunda união com Aquele que não veio para ser servido, mas para servir e dar a própria vida em resgate de muitos (Mc 10,45). A nossa participação na autoridade de Cristo Senhor e cabeça da Igreja decorre de nossa disponibilidade em servir numa entrega amorosa e humilde à Igreja (Pastores dabo vobis, 21).

PROFETA- Sabemos muito bem que o profeta é que anuncia com palavras e com a vida o Reino de Deus, o senhorio de Cristo. Por isso, “oportuna ou inoportunamente” somos testemunhas da Palavra, arautos entusiasmados pelo projeto de Jesus para a vida do mundo. Um escritor brasileiro, que não me apraz nomear, disse de certa feita que “só os profetas enxergam o óbvio”. Aplico tal frase no sentido: enxergar o óbvio é dar Deus aos irmãos, anunciar-lhes o amor infinito de Deus por nós. Enfim, mais do que nunca, nestes tempos niilistas anunciamos Deus, esperança do mundo.

HOMEM DE ORAÇÃO – Toda a vida do presbítero é regada continuamente pelo contato vivo com o Senhor. O Povo de Deus, esta Igreja itinerante, tem sempre em conta isto: o padre é mestre de oração, ele sabe rezar, ‘começando e terminando o seu dia em Deus’ (Romano Guardini). Mais ainda, a eficácia de seu ministério assenta-se sobre a sua capacidade de permanecer no deserto, à maneira de um “novo Moisés” que conduz o seu povo para a terra da libertação (Edith Stein). A alma de seu apostolado autêntico depende deste recostar a cabeça no peito de Jesus. Confiar ao coração do Senhor nossas angústias e esperanças, nossos sucessos e fracassos, nossos projetos de evangelização.

SACERDOTE –  No A T, o sacerdote era o varão apto física e hereditariamente a oferecer sacrifício a Deus. Cristo, não sendo de família sacerdotal, deu nova dimensão ao sacerdócio, do qual somos partícipes, ao tornar-se Ele mesmo vítima a derramar seu sangue por nós. Ele se fez oblação amorosa ao Pai. Jesus é sacerdote, enquanto Cordeiro  entregou sua vida livremente no altar da cruz para nossa Redenção.

Acercando-nos diariamente do altar, vamos entendendo a cada dia, como afirmava Santo Agostinho que “o verdadeiro sacrifício é tudo o que fazemos de bem por Deus e pelo próximo durante nossa vida” e, ainda “o verdadeiro sacrifício nos torna feliz”. A missa diária nos ensina a amar e nos torna felizes para servir ao povo que nos foi confiado.

Não renunciemos, eu conclamo aos meus padres, ao altar – Cristo é nosso altar – com verdadeiro espirito de amor e piedade, vamos honrá-Lo respeitando as normas litúrgicas, tecidas tão doce e longamente pelas hábeis mãos do Espírito Santo. Aprendamos do cálice a lição de que o sofrimento dilata a alma, criando nela uma abertura para acolher o grande dom da Alegria. Só os que amam conhecem e se abrem à alegria, o fruto por excelência do Espírito (Gl,5)

A todos: fiéis, padres, diáconos, consagrados e consagradas, seminaristas, desejo UMA SANTA PÁSCOA.

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