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Reflexão: como Jacó, também nós lutamos com Deus

Setembro é o mês da Bíblia. Dentre os muitos personagens que as Sagradas Escrituras nos apresentam, os do Antigo Testamento têm uma característica peculiar: dificilmente podemos traduzi-los como seres individuais, pois, quase sempre, sinalizam a universalidade da mensagem e da experiência de fé de um povo e/ou de um clã. São figuras universais e simbólicas e que remetem para além deles mesmos. E, como símbolos, dão sempre o que pensar. É o caso de Abrão e Sarai (Abraão e Sara), Moisés, Isaac e tantos outros. Desses, uma figura desponta com um significado ainda mais interessante: Jacó, também conhecido por embusteiro, trapaceiro e sagaz.

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Jacó era filho de Isaac e Rebeca, neto de Abraão e Sara e irmão de Esaú, o primogênito. Para a cultura judaica, o verdadeiro filho era o primogênito a quem o pai concedia a benção e para quem ficava a responsabilidade de perpetuar sua memória e sua família – clã –, tornando-se o senhor de tudo e de todos, inclusive da mãe e dos demais outros irmãos. Jacó, no entanto, tendo a preferência da mãe, age de forma escusa; compra a primogenitura do irmão por um prato de comida e, quando o pai já velho e cego, faz-se passar pelo irmão Esaú – sugestão de sua mãe – e furta-lhe a benção a que o primogênito tinha direito. Após descoberto e, para evitar desfecho pior, Isaac o envia para Harã, terra de Labão, irmão de Rebeca. Ali, Jacó irá trabalhar por longos 20 anos e se casará com as duas filhas do tio; Raquel e Lia, com quem terá 12 filhos – cujos nomes serão mais tarde associados às doze tribos de Israel.

A narrativa de Jacó, a mais emblemática e cuja tessitura nos desconcerta, está no capítulo trinta e dois (32) do livro do Gênesis. Após deixar a casa do seu tio Labão, com sua família, escravos e animais, Jacó recebe a notícia de que seu irmão Esaú está vindo ao seu encalço. É o acerto de contas entre eles. Agindo com esperteza, envia mensageiros ao seu irmão comunicando-lhe tudo quanto lhe havia acontecido durante sua estadia em Harã. E com cada mensageiro, Jacó envia presentes para o seu irmão a fim de alcançar dele o perdão e a misericórdia.

Diz o texto que Jacó fez toda a sua família, bens e escravos passaram para a outra margem do rio, ficando sozinho do lado oposto. Rio que é sempre uma analogia dos chamados “ritos de passagem” e pode significar, dentre outras coisas, uma mudança radical na existência de uma pessoa. Ali, na expectativa do encontro com Esaú, Jacó terá a experiência mais transformadora de sua vida. Durante toda a noite lutou bravamente com “alguém desconhecido”. Noite que representa, simbolicamente, o enigmático, o momento mais dramático do dia – a noturnidade da existência –. Quando se tem a certeza de um dia difícil a seguir, onde realidades adversas e traumáticas nos esperam, a noite pode nos parecer longa demais; impossível até.

Jacó lutara a noite inteira com “alguém”. A luta é uma constante na vida do ser humano. Por vezes, lutamos ao limite de nossas forças. Sentimo-nos “deslocados” em nossa humanidade, tal como Jacó fora atingido na coxa por “aquele Ser”. Uma vida religiosa autêntica é, sem dúvida nenhuma, um confronto direto com o divino; em nós, contra nós, mas jamais sem nós. Assim, manquejando, temos que ir em frente, seguir na caminhada da vida, ansiosos e desejosos pelo dia que se anuncia. Tornar-se coxo, como Jacó, é tornar-se consciente de sua missão, sabedor de suas potencialidades e fraquezas. É adquirir o senso que muitas vezes nos falta: o de que somos falhos, frágeis e incompletos. De que em nós duelam forças antagônicas; de um lado o divino e do outro o contrahumano, pois divino e humano não são opostos, mas divino e contrahumano, sim. Divino e humano coexistem: se humanos, demasiadamente humanos, podemos alcançar o mais divino em nós mesmos.

Por isso, ao amanhecer daquele dia, após uma noite “tenebrosa”, Jacó não permitiu que o “anjo” o deixasse sem que antes lhe concedesse uma benção. Apesar de não dizer o nome, pois, dizer o nome é tornar-se propriedade e Deus não se deixa apropriar-se por ninguém, visto que é o inapropriado, o ab-soluto, o anjo abençoa Jacó: “Não te chamarás mais Jacó, mas Israel; pois como lutaste com Deus e com os homens, prevaleceste… e o abençoou” (Gênesis 32, 28-29). Ter o nome alterado é o mesmo que dizer que teve alterado todo o destino, a missão e a própria vida. De Jacó, Deus fez um povo – Israel – de perpetua memória e de abrangência incalculável.

De fato, também nós, na luta que travamos com Deus, saímos todos vitoriosos, pois Deus, em sua fraqueza e im-potência, só é capaz de amar. E, como sabemos ou não sabemos, o amor deixa o amante frágil e incapaz de se recusar ao amado. Daí, na luta diária da vida, no confronto intransferível de nossa existência, haverá sempre um “alguém” a lutar conosco e por nós. A luta de Jacó com o “anjo” é a luta de todos nós. Lutemos, pois…

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Por, Claudemar Silva

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