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02/02/2014: "Como luz na escuridão"

Os anseios mais profundos do coração humano são sempre difíceis de descrever. Qualquer de nós poderia citar com facilidade seus desejos mais imediatos, suas realizações por cumprir, suas metas a alcançar, seus planos do que fazer, suas mais urgentes necessidades. Mas nada disso esgotaria aquilo que de mais profundo, precioso e sincero ansiamos e buscamos. Pois, para além de tudo isso, parece haver em nós uma abertura fundamental, sempre incompleta, sempre faltante, sempre pendente. Algo como uma espera inquieta, uma expectativa desacomodada. Algo que, não sem razão, aprendemos a chamar de esperança: um anseio para além de todos os anseios, um desejo que extrapola todos os desejos, uma espera que capitula e realiza todas as expectativas, um encontro definitivo que plenifica todas as presenças. Um fundamento raramente visível, mas forte o bastante para suster sobre si todos os esforços de nossas buscas incessantes.

E, exatamente porque fugidia às descrições, aprendemos a simbolizar a esperança: um pavio que ainda fumega (cf. Is 42,3), um monte que se eleva (cf. Is 2,2), uma casa que resiste à tempestade (cf. Mt 7,25), um pai que espera a volta do filho (cf. Lc 15,20). Ou, nas palavras de Simeão, “uma luz que brilha na escuridão e ilumina a todas as nações” (cf. Lc 2,32).

luz e trevas

A festa deste domingo remete ao Templo de Jerusalém (cf. Ml 3,1; Hb 2,17). Memória viva da Aliança que um dia Deus mesmo firmara com os seus, o Templo era também sinal da realização definitiva dessa Aliança: o dia supremo em que não haveria mais céu e terra, mas uma só pátria em que Deus reunisse em torno de si todos os seus filhos e filhas, de todos os tempos e lugares, para sempre. Simultaneamente memória e esperança, atualização e antecipação – assim o sentido da liturgia que nos templos se celebram ainda hoje. E é exatamente no Templo que Lucas situa, conforme a Lei de Israel, a Apresentação do Senhor. Além de seus pais, o texto apresenta Jesus ladeado por um homem e uma mulher que trazem dentro de si um Templo de esperança e fazem da própria vida uma grande liturgia: Simeão e Ana.

E, “porque se fez em tudo semelhante a nós”, “irmão nosso” e “dedicado a nós” (cf. Hb 2,14-18), a apresentação de Jesus se veste de especial importância. Nele, que assume nossa vida, nós também somos apresentados e consagrados ao Pai. De modo que não só o Templo, mas sobretudo nós todos, como Simeão e Ana, em nossa vida e nossa história, somos memória viva da Aliança de Deus com o mundo e expectativa pendente de sua plena realização. Tocados por dentro de nossa humanidade pelo Deus que nos vem ao encontro, tocamos reverentes o mistério daquele que é autor de todo mistério. E daí reluz nossa mais bela esperança: a de que, em Jesus, nada daquilo que somos se perca, mas alcance plena realização. Nele, nossas esperanças se cumprem, pois, assumindo em tudo nossa humanidade, ele nos convida a assumir em nós sua vida divina e a fazer brotar de cada gesto generoso de amor uma gota da eternidade.

Assim, já não há mais medo, nem angústia, nem tristeza, nem dor, nem morte (cf. Hb 2,15). Porque, exatamente nos caminhos mais incertos desta vida e em suas veredas mais escuras, a chama viva dessa esperança reluz e ilumina. Não foi à toa, portanto, que a sabedoria de nosso povo descobriu que a festa de hoje poderia ser chamada “festa das luzes”, sob a proteção da Senhora das Candeias.

O Senhor se fez um de nós e, fazendo-o, nos fez inteiros dele. Que essa esperança cintile em nós, como luz que brilha na escuridão.

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Por, Frei João Júnior, ofmcap

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