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02/03/2014: "Louvor da indigência"

 Reflexão ao Evangelho da VIII Semana do Tempo Comum; Mt 6, 24-34

Oraçao de entrega total a Deus

Louvor da Indigência[1]

Somos profundamente arrogantes. Foi exatamente assim, por uma tentação à arrogância, que a antiga Serpente seduziu nossos pais, no primeiro Jardim: “Sereis como Deus…” (Gn 3,5). Eles acreditaram nela e essa soberba original pôs em movimento uma cadeia de maldade que atravessou os séculos e alcançou a todos, desde então – assim relata nossa fé. É, sem dúvida, uma grandiosa narrativa de alto valor simbólico e teológico que, no fundo, procura descrever a tentação primária que habita constantemente cada coração humano: a suprema arrogância e a prepotência fundamental de crer-se deus, senhor absoluto de si mesmo, proprietário das pessoas e usuário sem limites dos dons da criação, reduzidos a recursos para nosso desfrute. Uma irreverência quase original para com o mistério da vida, esquecido de sua gratuidade e bondade originais.

No alto de nossa arrogância, distraídos da frágil gratuidade que nos constitui, cremo-nos controladores dos rumos de nosso destino, governadores pujantes de nossa pequena sociedade, responsáveis definitivos pelas condições de nossa própria vida. Uma pena, entretanto. Pois, felizmente, o mistério da vida não tarda em nos reconduzir a nosso verdadeiro lugar, submetendo a tirania de nossa arrogância a uma frustração inevitável: a penúria, a doença, a angústia, a incerteza, o sofrimento, a morte. Realidades diante das quais não importam os recursos disponíveis ou nossos delírios de superioridade e senhorio. Pôr neles a esperança apenas adia e torna ainda mais dolorosa a necessária consciência da nossa fundamental indigência.

Uma dor? Não necessariamente. No evangelho de hoje, Jesus convida exatamente a olhar em volta e darmo-nos conta dessa realidade, que não é só nossa, mas que dividimos com todo o mundo criado. Pássaros do céu, lírios do campo… imagens de uma gratuidade delicada, de uma beleza passageira? Talvez. Mas, sobretudo, da provisoriedade de tudo o que vive, da efemeridade que convida a assumir a vida com mais humildade e leveza, menos insolências e preocupações inúteis. Sobretudo num tempo como o nosso, em que nossas “ocupações e preocupações” se encontram tão dilatadas pelo apregoamento sem fim do consumo desmedido, as palavras de Jesus parecem ganhar ainda mais sentido.

A sanidade, porém, possibilita escolher com acerto a qual “senhor” servir (Mt 6,24). Pois é possível passarmos pela vida ocupados de mil coisas, gastando as melhores energias e incontáveis madrugadas insones em preocupações exageradas, perpetrações irrealizáveis ou ostentações inúteis. Ou, quiçá, podemos cuidar daquilo a vida realmente nos exija, sonhar e nos realizarmos plenamente, bem sabendo que muito maior que nós e nossas pequenas realizações é o Mistério que nos gerou, nos habita e nos conduz.

Assumida dessa maneira, a nossa condição de indigência não é uma desgraça, mas um bálsamo aos pés cansados. Por ela, sabemos que, no fim de nossas preocupações, para além de nossos esforços, terminadas nossas jornadas e reclinadas nossas canseiras, estamos todos e inteiramente nas mãos de Deus. E somente daquilo que somos diante dele (e de mais nada) depende o caráter último de nossa vida; aquela nossa realidade que, n’Ele, dura para sempre.

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Por, Frei João Júnior, ofmcap

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Louvor da Indigência

Ildeu Moreira, Prudente Nery, Lúcio Eustáquio Alves

Se, Senhor, vestes os lírios campais,
Não te esqueças de mim, o menor dos teus!
Se, Senhor, dás alimento às aves,
Não te esqueças de mim, o menor, meu Deus!
Como que ao campo um pastor / leva o cordeiro,
Tu nos sustentas, Senhor / o passo inteiro.
Como o sol, que às coisas todas / toda luz envia,
Tu nos conduzes adentro / do teu dia.
Se em ti, Senhor, é perfeita a alegria / só em ti se faz
Todo o meu canto, Senhor / dia a dia.

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[1] Inspirados por esta passagem do Evangelho, Frei Ildeu Moreira, Frei Prudente Nery e Frei Lúcio Eustáquio Alves compuseram a música “Louvor da Indigência”, disponível no CD “Cântico Menor”, dos Frades Capuchinhos de Minas Gerais.

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