Diocese de Uberlândia Em Destaque Reflexões Dominicais

02/11/2014: "Para além da morte"

É impossível voltar o conta-giros de nosso tempo. Quando tomamos consciência de que a vida é um dom que exige atenção, já é muito tarde. E, cair em conta de que somos finitos, como a planta que de manhã viceja e à tarde seca (Sl 90), não é coisa das mais fáceis. Desperta em nós, então, aquele anseio de que a vida dure sempre mais; queremos atrasar os ponteiros, renovamos a esperança de que há outro lugar, onde, finalmente, seremos plenos, pois é isso que desejamos durante a vida e, quase nunca, conseguimos. A morte dos mais próximos faz doer em nós esse clamor de que a vida continue, de que haja um encontro depois de todos os encontros, um abraço depois de todos os abraços. De que a memória, o carinho, o amor e a amizade não sejam ceifados para sempre e, que depois de todos os instantes, tudo isso seja eterno.

Quem colocou esse anseio em nós, perguntam os religiosos e místicos de todos os tempos. Os mais céticos diriam que não passa de um desejo ancestral, esse, o de se perpetuar. Alguns filósofos arriscam dizer que foi para isso que os homens criaram a religião: para enfrentar a dureza da morte. Os teólogos diriam que foi o próprio Deus, que não coloca nenhum desejo autêntico e profundo em nosso coração, que Ele mesmo não possa realizar.

São abundantes as maneiras de enfrentar a morte: banalizando-a e, consequentemente, banalizando a vida; ignorando-a e gastando cada momento tensionado pela ansiedade de viver intensamente; esperançosos de que o depois-do-tempo seja mais interessante do que a vida tediosa e esmagadora; angustiados, crendo que a vida é essa inconstância que não encontra suas respostas mais profundas; radicalmente empenhados em sermos lembrados, enfim… O fato é que sentimos a morte em nosso encalço, mesmo que queiramos esquecer que ela está aí; arrancando lágrimas e provocando saudade, impedindo aquela última reconciliação, proibindo aquele olhar terno, ao qual nos furtamos. Queremos enfrentá-la, essa é a verdade, mas nossas forças são frágeis demais contra o bramido de sua foice.

Talvez, entretanto, não percebamos que a morte pode, ela mesma, conhecer a morte. É um dos grandes segredos do cristianismo. Jesus parece não ter entendido sua morte de maneira esmagadora, é do que nos fala o evangelho de João. Ele a entendia cheia de sentido, assim como alguém que preenchia o nada de plenitude, para que o nada fosse, para sempre, o nosso tudo. Jesus entendeu a sua vida como um dar a vida em favor dos outros; no amor que afasta o medo, negou a própria morte, dando vida. Assim como o trigo triturado, esmagado; como a massa batida e aquecida, torna-se pão que alimenta e dá força; assim Jesus entendia a sua existência. Cheia de alegrias, sim; vivida intensa e autenticamente, sim; amando em cada instante, sim. Mas, também recebendo as tristezas e as cruzes, curando as feridas e ultrapassando as dores, até que no derradeiro momento, pendurado sobre a cruz, prestes a expirar, sozinho e acompanhado, Ele mesmo triturado e macerado, fez da sua vida alimento de esperança e coragem para todos. Um ensinamento de morte e ressureição: o mistério de ser pão.

Quase uma lição sapiencial: descobrir que a vida é um moinho, que vai triturar nossos sonhos tão mesquinhos e vai reduzir as ilusões a pó (Cartola), e que somos muitas vezes derrubados. Mas, talvez muito mais do que uma encantação ou fantasia, uma esperança que já nos coloca em posse do que cremos, uma fé: como a noite vira dia, como o fruto podre aduba a terra, como a tempestade cessa, como as muitas mortes – nossas derrotas e tombos – também passam, como o trigo se transmuta em pão, nossa vida não poderá ser tudo isso, para depois caber nas estreitezas de uma cova. Nem nossos sonhos, terão sido tudo isso, para depois restar apenas uma lápide, coroando nossos projetos e irrealizações e constrangendo tudo que buscamos ser. Nós também seremos transformados; nossa vida será ela mesma transubstanciada e encontrará seu fim; não a morte, mas o Deus da Vida.

Talvez seja essa a única prova da vida eterna: a dúvida, o não saber se ela existe ou não, a possibilidade. Mas teremos de viver assombrados pelo terror do fim? Afinal: que poderá nos ensinar a morte, que a solidão e o silêncio já não nos tenham ensinado? (Jean-Yves Leloup). Merecemos viver em inimizade com a morte, que pode, enfim, tornar-se nossa irmã, se tratarmos de aprender que o caminho da vida, seja, seriamente, o de abraçar e respeitar a nossa finitude, amar e cuidar da nossa fragilidade, dar a vida em favor dos outros e esperar o que já possuímos? Pois, não devemos esperar a eternidade como o depois do tempo, simplesmente, mas como quem já vive inserido nessa nova ordem. É que em Jesus, eternidade e temporalidade deram-se as mãos, para que definitivamente, nosso tempo fosse alargado pelo sentimento do eterno.

1

Nossa vida já é eterna, portanto, porque o tempo conhece, no amor que arranca de nós a lógica dos relógios, uma elasticidade irrompível. Porque é possível que, assim como a eternidade nasce de nossa experiência de finitude e temporalidade, o tempo não seja nada, senão, filho dessa mesma eternidade. Dito de outra forma: nosso ser temporal é o eco do que seremos; nosso ser eterno é, por sua vez, o som inaudito que faz vibrar as cordas desta vida.

_________________

Por, Pe. Eduardo César

Assine a nossa newsletter

Junte-se à nossa lista de correspondência para receber as últimas notícias e atualizações de nossa equipe.

You have Successfully Subscribed!