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03/08/2014: "Um quase nada"

Comentário ao Evangelho da 18ª Semana do Tempo Comum: Mt 14, 13-21

maos21

Seria possível saciar os outros, estando vazias as próprias mãos? Ou preencher de sustento e fartura a falta de outros, mesmo a partir do nada ter? Acaso existe o milagre de alimentar a partir da própria fome, de curar a partir das próprias dores, de confortar a partir dos próprios temores e distribuir esperança, mesmo a partir das próprias incertezas?

Pode parecer absurdo. Porque a lógica deste mundo já nos ensinou: somente os instruídos podem instruir aqueles que, por sua vez, são ignorantes; somente os que gozam da abundância dos bens podem se responsabilizar pela distribuição da riqueza e a administração da justiça; somente os abundantemente amados podem ser capazes de amar com generosidade; somente aqueles bem resolvidos e bem integrados nos dilemas de sua vida podem ajudar outros a se resolverem e se encontrarem nos confusos caminhos de sua existência. Em poucas palavras: somente os saciados podem distribuir de sua fartura.

A Boa Notícia de Jesus, porém, parece contrariar essa lógica do “ter para oferecer”, tão própria de nossos tempos, quando até a caridade se encontra quase sempre sustentada por pretensas seguranças. Diante da morte de João Batista, Jesus poderia ter se amedrontado, duvidado da eficácia do Evangelho, desistido de um Reino de Deus assim tão exigente e perigoso. Segundo Mateus, ele quis ao menos se recolher num lugar deserto, talvez para refazer as próprias esperanças… mas a visão de uma multidão errante muda seu desejo. E Jesus encontra consolo de sua dor não na solidão do deserto, mas na cura dos sofrimentos daqueles que vêm ansiosos por encontrá-lo e aprender dele.

E, justamente aí, no terapêutico encontro de dores que se curam, aprendemos o grande milagre: existe, sim, uma “torrente que brota do deserto” (cf. Nm 20), um rio que nasce da secura e fecunda suas margens áridas (cf. Ez 47; Sl 45); há uma fartura que nasce das fomes postas em comum e uma sabedoria que brota do encontro de buscas sinceras e apalpadelas incertas do Mistério. Há um alimento farto, dom do quase nada ter; e, exatamente porque nascido do quase nada, ofertado por humildade e consciência da própria pobreza, é capaz de saciar as fomes mais profundas e sanar as sedes mais secretas. Talvez, assim se compreenda o convite desconcertante de Jesus: “dai-lhes vós mesmos de comer” (Mt 14,16). Ninguém precisa “ir embora”, cuidar sozinho das próprias carências e suprir ocultamente suas necessidades. Pois as necessidades divididas podem se tornar saciedade mútua e as angústias carregadas entre irmãos podem lapidar esperanças recíprocas. E, quem sabe, da comunhão e da presença, da fraternidade e da confiança, surjam os caminhos que, muito mais que multiplicar o pouco que temos, abre-nos à pródiga bondade de Deus. Pois não se trata de abrir as sacolas e repartir as merendas, mas de reconhecer que cada um traz dentro de si, ainda que como gérmen, o pão da Palavra, confiado a todos os corações pelo Criador, capaz de saciar não só a própria fome, mas a fome de outros. Não há indigência que nada tenha a oferecer.

Enfim, aprendemos: somente com as mãos vazias seremos capazes de saciar; pois o pão que distribuiremos, como discípulos fieis, não virá de nós e nossa competência, mas será dom do Mestre. Nisso, ministros e fieis leigos estão juntos, pois todos comem do mesmo pão distribuído pelo Senhor, se saciam da mesma palavra, acorrem ao mesmo ensino, acolhem o mesmo Reino. E não importa que o número de comensais ultrapasse em mil vezes o de pães. O pão que Jesus distribui será sempre farto e suficiente, pois é sua própria vida entregue à vida do mundo; um convite à oferta de nós mesmos, que não alimenta a partir de nós, mas de Deus.

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Por, Frei João Júnior ofmcap

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