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04 de Agosto: dia do padre

No dia em que se celebra o dia do padre, na memória litúrgica de São João Maria Vianney, patrono dos sacerdotes, o CCD – Centro de Comunicação Diocesano -, oferece a todos aquilo que a todo padre é muito peculiar: a homilia.

Desejamos aos senhores presbíteros da Diocese de Uberlândia um profícuo ministério na seara do Senhor, da qual sois dignos ministros.

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Não tenhais medo; sou eu!”

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O trecho do evangelho (Mateus 14,22-36) desta terça-feira, 04, começa com uma afirmação intrigante: “Jesus obrigou seus discípulos a entrarem na barca e a passarem para o outro lado do mar…”. Ele, porém, não seguiu com eles. Ficou para despedir a multidão. E, depois, foi ter-se sozinho em oração na montanha.

Esta espécie de introdução, ou preâmbulo, do trecho é altamente rica de significados.

Primeiramente, Jesus obriga seus discípulos a irem para a outra margem do rio para descansarem um pouco. Há muito que eles vinham de uma missão exaustiva. Os discípulos tinham acabado de vivenciar a multiplicação dos pães para a multidão faminta, e tinham vivido, antes, o doloroso episódio da morte trágica de João Batista, que fora decapitado a mando de Herodes.

Indo para a outra margem do rio, os discípulos poderiam descansar um pouco, refazer as forças gastas na missão. Afinal, toda missão consome aquele que se embrenha decididamente nela. A multidão não fora alimentada apenas de pão material, mas também da presença e do serviço daqueles homens, reunidos em torno de Jesus. Eles também deram de si mesmos na missão empreendida. Estavam desgastados. Era justo e necessário que descansassem um pouco. Por isso, Jesus os obriga a seguirem sem ele. Assim, ele mesmo poderia dissipar a multidão reunida e fazer o que lhe era mais caro, ainda mais depois de ter atendido tantas pessoas: encontrar-se com o Pai em oração na montanha.

A imagem da montanha evoca esta presença misteriosa e de ascese que a oração provoca no coração humano: a de encontrar-se com um Deus que se revela próximo e amigo do ser humano. Além do mais, o evangelista – Mateus – tem predileção pelas tradições judaicas e, nelas, a imagem do monte é prefiguração desta revelação divina que, no Sinai, deu-se a conhecer a Moises e a todo o povo a sua Lei.

Após este encontro reparador com o Pai, Jesus vai ao encontro dos seus discípulos que, a essa altura, encontram-se em uma situação de risco e de desconforto existencial: as ondas do mar, revoltas pela tempestade, ameaçam a pequena barca e, com ela, a vida dos discípulos. Jesus parecia atrasar-se. Certamente seus discípulos em meio à turbulência se perguntavam por Ele. Por que se delongava tanto; não sabia que eles necessitavam de sua presença, de seu poder? Interessante notar aqui um paralelo com a tempestade acalmada (8, 25-26), e o fato do evangelista usar uma expressão dramática para dizer daquela ameaça da natureza: “os ventos eram contrários”.

De fato, quando os ventos sopram na direção oposta, a embarcação se vê violentamente assolado pelas fortes correntes das ondas, e a travessia se torna quase impossível, pondo, inclusive, a vida de todos aqueles que estão dentro dela em perigo. Os discípulos corriam riscos reais de vida. Jesus, no entanto, demorava.

O fato de o evangelista evocar esta simbólica dos “ventos contrários” nos faz descer um pouco mais ao texto.

O evangelho de Mateus fora concluído por volta do ano 80 d.C, num tempo em que a comunidade cristã estava sendo ameaçada pelas perseguições dos judeus e dos romanos. Por um lado, aderir ao novo estilo de vida religiosa proposto por aquele judeu morto numa cruz tempos atrás era visto como uma blasfêmia, e, por outro, causava em muitos governantes avessos às insurreições e motins, profunda repulsa àquele estilo peculiar de viver a fé e a religião tão diferentes do modo judaico ou romano.

“Os ventos contrários”, aludidos pelo autor sagrado, podem ser, portanto, tudo aquilo que se opunha à vivência cristã da comunidade: os inimigos declarados e o modo de viver pagão.

Jesus, no entanto, parece ignorar tudo isso e vem caminhando sobre as águas. Outra referência simbólica. O mar prefigurava o desconhecido, o lugar do mal, onde habitavam forças estranhas e misteriosas. Portanto, caminhar sobre as águas era dominá-las, bem como tudo o que se opunha à vida. No mar, havia esse duelo: vida e morte. Os pescadores viviam da pesca e, não obstante, nele podiam perder a vida.

O mestre, no entanto, contrariando as forças da física, caminha placidamente sobre as águas revoltas do mar bravio. Ao longe, seus discípulos o veem e pensam ser um fantasma. Homem nenhum, afinal, ousara desafiar assim as leis da natureza. Isso já era demais. Alimentar uma multidão talvez fosse até compreensível, mas um homem adulto caminhando sobre o mar, isso já era demais, até mesmo para pescadores.

Diante do temor dos discípulos que, a essa altura já temiam infinitamente mais aquela visão do que a braveza dos ventos, exigiu de Jesus uma resposta: “coragem, sou eu, não tenhais medo!”.

Quantas vezes esta expressão serviu para acalentar os corações, fortificar os joelhos cansados e o caminhar trôpego da comunidade cristã ao longo dos séculos. Não temer; antes, ter coragem. Afinal, a coragem é inimiga do medo. Ela afasta o pavor diante do desconhecido e, diante do que se vê e se apresenta mortal, ela nos dá a ousadia, sua irmã gêmea, de seguir adiante. Sim, porque ter coragem é uma coisa; ter ousadia é bem outra. A ousadia é a coragem petulante, um não sei o quê de desbravador, de irrupção.

Talvez tenha sido bem isso o que fez Pedro, ao propor a Jesus que, se fosse Ele mesmo, que o mandasse também ir caminhando sobre as águas. E Jesus ordenou: “Vem”.

Num contexto de época de perseguições, nada era mais necessário do que isso à comunidade discipular: a voz do verdadeiro pastor que, encorajando-a, ordenava-lhe a continuar. Caminhar sobre as águas, como fez o mestre, era o mesmo que dizer-lhes: não se entreguem aos problemas e às dificuldades que se lhes apresentam. Pois, assim como o Senhor, também os discípulos de ontem e de hoje são convidados a caminharem com desenvoltura e confiança pelos mares da vida. E não são poucos.

Ser cristão, aos moldes do Cristo, põe-nos em rota de colisão com os chamados “ventos contrários”. Hoje, como ontem, a comunidade dos discípulos de Jesus enfrentam dissabores e revezes por optarem pelos valores do Reino de Deus. Afinal, não se pode admitir uma vida e um seguimento que não coadunem com a prática evangélica proposta por Ele. Diante de tantos desmandos dos poderosos, de tantas fomes de pão, de justiça, de vida digna, de segurança e de paz, o cristão precisa ousar caminhar com fé e esperança sobre os maremotos provocados pela instabilidade das relações sociais, políticas e religiosas.

Mas, não diferente de Pedro, o líder da comunidade primitiva, ainda hoje nos vemos muitas vezes amedrontados pelas instabilidades que a vida presente gera em todos nós. São crises por todos os lados e em todos os espaços da vida humana. Os contravalores ganham destaques nas mídias e são apresentados com uma normalidade que nos colocam diametralmente como se opostos à chamada emancipação do homem e do progresso. Não poucas vezes o Evangelho e sua “Lei” são tidos como entrave ao deslanchar da evolução do homem e das técnicas empreendidas por ele.

Numa sociedade em que se aprendeu a cortejar com o crime, a violência, a impunidade, o desrespeito, a mentira e a chamada cultura de morte, o anúncio do evangelho é como aquela barca que enfrenta muitos ventos contrários vindos de todas as partes.

Os homens e as mulheres dentro da barca, os cristãos, portanto, não poucas vezes, se sentem inseguros e abandonados à própria sorte. O desespero pode tomar o coração de muitos desses discípulos. Alguns, quando veem aumentar as ondas não têm dúvidas: abandonam o barco. Pulam fora. Deixam-no entregue à própria aparente ruína.

Todavia, é preciso que se conte essa história até o fim. Ainda que nos contentemos com o drama e sintamos paixão pelo trágico e pelo mortífero. Ainda que cultuemos o horror, o bizarro, a exploração da dor alheia e tenhamos necessidade de certa catarse para darmos conta da realidade que nos assalta e nos implode, é justo que se diga até o fim, até a última letra.

Jesus, desafiando o barulho e a estupidez das ondas, disse com voz forte e compreensível: “coragem, sou eu, não tenhais medo!”. Saber que era Jesus fez toda a diferença para aqueles homens. Encheu seus corações atribulados de esperança; animou os abatidos e restituiu-lhes o gosto pela travessia. A margem, antes ignorada e impensável, agora se torna como numa metáfora viva.

Diante da fraqueza e da impossibilidade de Pedro de manter a palavra dala, e a fé professada, Jesus lhe estende as mãos e o alcança e o soergue. Não o deixa afundar. Pedro se esquecera de que era pescador. E, embora não tivesse que saber nadar, necessariamente, o mar não lhe podia imputar tanto temor assim. Mas, diante do medo e assolado por ele, não a consciência que mantenha incólume a sua razão. Instaurado o medo e o pavor, o coração já não reza, não confia, não espera e tampouco contempla.

“Homem de pouca fé, por que duvidaste?”. É preciso redimir Pedro. Também o homem de hoje, chamado de pós-contemporâneo, ainda duvida e tem uma fé ínfima, quando não parca, ou, no mínimo, uma fé duvidosa.

É que a fé não nos dá certezas. Ela nos dá convicções, coisa estranha de se explicar. A fé não nos salva dos vendavais e dos malefícios dos homens perversos e dos crimes hediondos. Ela não nos protege das perseguições e, muitas vezes, nos coloca, ao contrário, em sua rota de colisão. A fé não nos torna superpoderosos e, por vezes, não é capaz de sustentar os nossos passos cambaleantes. A fé, no entanto, pode pouco ao mesmo tempo em que pode muito.

Pode pouco quando a tornamos numa mera superstição e achamos que nutridos por ela nada de mal irá nos acontecer ou que, então, seremos preservados da dor, da tristeza, da indiferença, do mal e da morte. Perversa é a fé que contrapõe o homem e Deus e os colocam concorrentes um do outro. Triste é quando a fé não nos torna melhores; mais sensíveis, mais justos, mais éticos e mais santos. A fé pode muito pouco quando o homem não se reconhece pecador, limitado e falho, e não ousa dizer ao único capaz de lhe revelar sua verdadeira medida: “Senhor, salva-me…”.

Todavia, bem outra é a realidade da fé que nos coloca em nosso verdadeiro lugar. Que nos dá a capacidade de experimentar o socorro de Deus mesmo em meio às adversidades do tempo e do espaço e, graças à sua voz, tão distinta das demais outras, nos aconselha a não desistir, mas a continuar com coragem e firmeza ao longo da travessia da vida.

Pois, a fé é uma experiência de doação mútua, mas gratuita. Deus tem fé em nós e, por isso, fiéis depositamos nele a nossa confiança ao mesmo tempo em que nos enchemos de sincera coragem para continuar acreditando no homem e na sua capacidade de se humanizar todos os dias.

O cristão não é um ingênuo, pura e simplesmente. Seríamos uns tolos se nos deixássemos levar pelas ondas impiedosas dos mares atuais. Caminhar sobre elas é fruto de uma convicção ainda mais profunda do que qualquer outra coisa que se possa angariar como certa e irrefutável. Aquele que nos ordenou que caminhássemos para a outra margem do lago, continua vindo em nossa direção; para estar conosco e para sossegar após a sua chegada toda braveza exterior que nos ameaça a vida. E é preciso que se diga: ou confiamos decididamente no Senhor e no seu poder sobre tudo, ou seremos arrastados para fora do barco e consumidos pelas ondas. Mas, se ousarmos abrir bem os olhos e fita-Lo demoradamente, logo O veremos dissipar também as dificuldades e incertezas dos tempos presentes. Sua presença reconfortará o nosso coração e nos dará forças para continuar firmes e decididos no caminho que Ele mesmo abriu para nós.

A comunidade mateana – de Mateus – descobriu esta verdade: é Cristo quem salva a sua Igreja, pois a acompanha até o fim, ainda que seja o da cruz. E nós, hoje, tamanha ousadia de fé nos acompanha?

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Por, Pe. Claudemar Silva

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