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04/01/2014: "Ternura Manifesta"

Comentário ao Evangelho da Epifania do Senhor: Mt 2, 1-12

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Por que será que, com tanta frequência, o mais importante nos passa desapercebido? Por que é tão comum que terminemos uma conversa densa e demorada com a impressão de que o essencial ainda não foi dito? Por que quase sempre sobra um facho de não-dito na turveza dos olhares, mesmo se abundantes forem as palavras? Ou ainda, por que, no fim de trabalhosos esforços, tantas vezes nos demos conta de que muito suor teria sido poupado, se nos tivéssemos atido àquele detalhe que, na verdade, era o fundamental? E por que não é raro que nos demoremos à procura de soluções que, uma vez encontradas, revelam-se desde sempre presentes e disponíveis? Por que é tão perigoso quanto corriqueiro distrairmo-nos no mar das vanidades, esquecendo-nos daquilo ou daqueles que nos fazem viver de verdade? Parece que Exupéry, esse peregrino das trilhas abissais do coração humano, tinha mesmo razão: “o essencial”, quase sempre, “é invisível aos olhos”. E verdadeira parece ser sua severa advertência: “só se vê bem com coração”.

De algum modo, é isso que aparece neste texto de Mateus, não sem ironia. O quadro é dramático, se não risível: sábios e reis, sacerdotes e escribas, todo o povo de Jerusalém em polvorosa e medo ao ouvirem, atônitos, a novidade da estrela. Logo eles, que têm diante dos olhos, dia e noite, as palavras da Escritura, as ameaças dos profetas, as liturgias do Templo e a eleição do Deus de Israel… Por que lhes soa tão estranho o cumprimento da mais desejada de todas as antigas promessas – a chegada do Messias? Não foi exatamente essa promessa que cada habitante de Jerusalém aprendeu a balbuciar em prece, todos os dias, desde a mais tenra idade? E como essa familiar intimidade da Escritura, anunciada e desejada pelos patriarcas, os profetas e os sábios, pode agora ser comunicada por lábios tão estranhos, de magos vindos de longe, pagãos esquadrinhadores dos céus?

Celebramos a Epifania do Senhor, sua manifestação ao mundo como Senhor e Cristo. É o mesmo dia em que a Igreja anuncia as celebrações do Mistério Pascal ao longo do ano civil e conclama seus fieis à assiduidade e perseverança na fé. Nas Escrituras judaicas, aprendemos a chamar de “epifania” as majestosas manifestações de Deus no Monte: raios, trovões, ventanias, prodígios… Porém, para além da solenidade dos títulos e da ostensividade que esse linguajar poderia sugerir, celebramos um nuance muito mais sutil do mistério de Cristo: a delicadeza do Deus que pode até passar desapercebido no burburinho das cortes e no palavrório dos templos; a familiaridade do Mistério que pode até parecer estranha aos olhos perplexos daqueles que reduziram as Escrituras a curiosa formalidade acadêmica ou justificação de sua autoridade; mas, sobretudo, celebramos o Deus que se revela aos olhares cansados de peregrinos que vêm de longe, perseguindo apenas o brilho de uma esperança; o Mistério disponível àqueles que o procuram de coração sincero, atentos às preciosidades mais cotidianas. Pois é assim que o Verbo de Deus se mostra, em solene epifania: na terna simplicidade do Menino e de seus pais, em cujos olhos se refletem ao mesmo tempo a luz da estrela, dom do céu, e a mexa das lamparinas das procuras mais humanas. Celebramos Jesus, em quem se reconhecem manifestas, de modo inseparável, a realeza (ouro), a divindade (incenso) e a profunda humanidade (mirra).

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Nos “reisados” de fitas coloridas, música vivaz e comida abundante, nosso povo pintou para a festa de hoje a visita dos “Três Reis Magos”. Seriam reis? Seriam três? De onde vieram? Não importa. A piedade popular deu a cada um deles diversidade de nomes, histórias, origens e cores de pele. Como quase sempre, nosso povo intuiu o sentido profundo do que hoje celebramos. Pois venha de onde vier, quer perseguindo estrelas do céu, se informando com os sábios ou se esquivando dos tiranos desta terra, somente será capaz de reconhecer o Menino quem tiver os olhos atentos e o coração aberto à simplicidade e à ternura de Deus.

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Por, Frei João Júnior ofmcap

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