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04/05/2014: "um acontecimento de Presença"

Comentário ao Evangelho do 3º Domingo da Páscoa: (Lc 24, 13-35)

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No evangelho desse domingo, Jesus se aproxima dos dois discípulos que voltavam de Jerusalém, frustrados por causa de suas esperanças políticas irrealizadas, presos ao passado e à tragédia que havia sepultado suas expectativas. Por estarem presos ao passado, não puderam reconhecer Jesus na novidade do que lhe acontecera. Esse relato também nos aponta que a descoberta do novo, que se passou com Jesus, não depende de um contato sensível com Ele e, sim, de um percurso, um caminho de reconhecimento afetivo, bem como inteligível, caso se saiba ver o fio que conecta ‘todas as Escrituras’. Nesse caminho, que todo aquele que diz crer deve trilhar, o próprio Cristo se faz presente. Pois isso, Ele mesmo prometera; que, onde dois ou mais, partilhando a vida e apoiando-se nas dores que cada estrada esconde, estiverem reunidos, Ele mesmo estaria no meio deles (Mt 18,20).

Os discípulos de Emaús identificam Jesus não só pela partilha do pão, mas porque o coração de ambos ardia enquanto Ele lhes explicava as Escrituras. Reconhecem-no, porque o sinal do partir o pão compõe com o de explicar as Escrituras, uma unidade de transmissão do que fora a vida de Jesus: aquele que com palavras e obras leva todas as profecias à plenitude; aquele que passa fazendo o bem, realiza a páscoa nova, aquela que seria comida apenas quando ela se cumprisse no Reino de Deus (Lc 22, 15-16).

Entretanto, se Jesus é um estranho enquanto estava presente, em sua ausência Ele é finalmente reconhecido. Desse modo, o evangelho nos mostra que tem mais eficácia a palavra do que a vista. A revelação da ressurreição de Jesus, portanto, não partiu exatamente de uma prova empírica, ou de uma presença física insistente, mas de uma revelação dirigida ao coração, ao espírito, dada gratuitamente pelo próprio Deus que não nos obriga a seus mistérios, por evidências sensíveis, mas os expõe à fragilidade de nossa fé.

O evento da Ressurreição é uma revelação recebida de Deus, mas em um encontro com Jesus, que surge inesperadamente; Palavra Viva que fala em nós, fazendo-nos falar, retirando-nos do simples papel de ouvintes e levando-nos à missão de sermos locutores, também nós, de palavras de ressurreição. Foi assim com os discípulos de Emaús, que iam emudecidos pelo caminho, mas depois do encontro com o Mestre, ficaram grávidos da Palavra e foram dizer aos outros sobre o Mistério daquele Encontro. Para crer na ressurreição, então, não nos é pedido ver o que os discípulos da primeira hora anunciaram ter visto; nem nos bastará apenas ouvir, ainda que a fé venha da pregação (Rm 10, 17), mas será preciso também encontrar-se com o acontecimento Jesus Cristo Ressuscitado.

Convém uma advertência, contudo. A revelação da ressurreição de Jesus, embora dirigida ao coração, não é puramente interior, de modo que pudesse ser posta em dúvida como uma pura convicção psicológica. Antes, é uma revelação que se faz na história, história que se vive e se conta. Desse modo, também a experiência do Ressuscitado não é puramente interior, mas concreta.  E que se faz penosamente, apesar das resistências dos próprios sentidos, que insistem em não ver, silenciosas, as sementes de vida que Deus não se cansa de fazer brotar e rebrotar. Mas não nos podemos obrigar a essa experiência, tampouco podemos forçar seu advento, pois se trata de um acontecimento imprevisto e que só se suporta com esforço, pois ele transtorna nosso curso quando nos apegamos às potências de morte e faz irromper em nós a vida.

A ressurreição de Jesus é um acontecimento de presença que não se reduz a um fato puro, que não brota simplesmente de uma constatação empírica, mas se produz numa troca de reconhecimento entre nós e o Senhor Redivivo. Fosse apenas um fato puro e estaria preso ao passado, fosse apenas uma constatação empírica e, então, estaríamos obrigados a aceitá-la. Mas, enquanto acontecimento de presença é sempre atual, sempre provocante, interpelando-nos em todos os caminhos que trilhamos, achegando-se de nós em todas as vielas de nossa história, provocando-nos em cada esquina, nos rostos desconhecidos de tantos que se aproximam e nos marcam com sinais de vida, tomando-nos pela mão, conduzindo-nos para fora dos túmulos aos quais nos acomodamos. Enquanto acontecimento de presença, o Ressuscitado faz descobrirmos sempre em nós, sua presença viva, comunicante de uma nova linguagem, Palavra que nos quer falando e anunciando que a maldade não é soberana, Palavra que nos convida a vencer na nossa própria carne o que a carne do mundo sofre, em seu apego aos vigores da morte.

Todavia, entenda-se bem, só se atesta a Ressurreição de Jesus, confessando-o ausente. E não falamos de uma ausência infeliz, que experimentamos em desespero. Quando Jesus desaparece diante dos discípulos, eles finalmente recordam o quanto o coração ardia quando Ele lhes explicava as Escrituras – e, assim, foram lançados ao passado –; compreendem que era Jesus – e, assim, foram lançados ao futuro de comunicar a boa-nova. A ausência de Jesus é um jeito de mostrar que sua vida está escondida em Deus; sua ausência nos lança à interpretação do passado e dirige nosso olhar ao futuro, já que o destino Dele será também o nosso. Desse modo, tornamo-nos realmente presentes, acordados para a graça de viver que se passa agora.

A nós, deveria, pois, restar a clareza de que a Ressurreição de Jesus não significa que Ele tenha retomado a mesma vida de antes, embora Ele seja o mesmo de antes. A ressurreição de Jesus é uma realidade espiritual, pois se dá pela ação do Espírito de Deus, em Deus; concreta por causa de seus efeitos em nossa história; comunicacional, porque falamos do que experimentamos; intersubjetiva, porque se põe entre-nós e não só dentro de nós. É um acontecimento de presença que supera a necessidade física, pois, afinal, toda presença verdadeira ultrapassa o simples “estar sensível”, para ser sempre visível, ouvida e sentida, sempre falada, sempre amada.

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