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05/06/2016: “Não chores!”

Comentário ao Evangelho do X Domingo do Tempo Comum: Lucas 7,11-17

“Não chores!”. Como isso seria possível a alguém que viu partir o amor de sua vida? Ou a alguém que viu a existência se despedaçar em desilusões e, ainda vivo, já desceu à cova? Como insistir que não chorem os que não veem mais razões para rir, sem perspectivas, sem esperança, esvaziados de todo sentido e confiança em si, nos outros, na Vida? Não seria cinismo pedir-lhes que enxuguem as lágrimas? Não seria a última das crueldades impedir-lhes a dor? E não é esse o modo com que lidamos muitas vezes com o sofrimento alheio; tentando tamponá-lo, suturando feridas pressurosamente sem antes drenar sua infecção, só para não termos de encarar que há angústia e que somos inevitavelmente traspassados, hora ou outra, por ela? “Não chores!” É sério isso, Jesus? Por que não podemos protestar contra a finitude? Acaso nos está indicando um caminho de falsa insensibilidade diante da vida e seus dissabores cruéis?

Seria cinismo, crueldade, alienação ou insensibilidade dizer “não chore!” a alguém que sofre sem verdadeira compaixão: aquela que não é apenas um sentir ‘de fora’, mas de ‘de dentro’, ‘junto’ com aquele que sofre. E Jesus se compadece daquela mulher viúva, sem filho, no auge de sua indignidade já que não tem ninguém por si, desde suas entranhas. Não no lugar dela, mas com ela.  Aqui, algo a notar: não é possível impedir algumas dores nem é possível vivê-las em lugar de outrem, ou tampouco é possível arrancá-las como num passe de mágica, da vida das pessoas. Pudéssemos e o faríamos, certamente… Mas não podemos. Parece até que, entre as palavras empobrecedoras, conseguimos apenas entender o sofrimento de modo subtendido. No entanto, só entre a sensibilidade e o afeto; entre o amor e o cuidado, se dá aquela compaixão que é acompanhar, estar ao lado, ajudar a carregar, a dor do outro.

O evangelho, porém, fala de um Cristo que não acompanha simplesmente a dor de uma mãe, mas toca o caixão e interrompe o cortejo. Mais ainda: interrompe a procissão da morte. Sua Palavra é fonte de vida. Quiséramos nós também ter esse poder. Porque há procissões da morte perpetradas até hoje por instituições, fundamentalismos religiosos, injustiças, ferezas, pela banalização da vida… Consternados, olhamos para o que Jesus faz e, de novo, o de sempre: era possível para Jesus, não para nós… Contudo, tivéssemos confiança na Palavra de Vida de Jesus e então seríamos nós, nossas famílias, nossas comunidades, a Igreja, capaz de pôr a mão nos esquifes e levantar mortos, mitigando a dor. Não como num passe de mágica, mas com a força do profetismo interromper as seduções da morte e suas estruturas como a violência, a barbárie, a irresponsabilidade, a corrupção, a fome. Ou ainda: com a misericórdia curar, com a Palavra reanimar e levantar os caídos. Isso nós podemos.

Ninguém pode impedir a morte, é verdade. Mas podemos cuidar da vida. Podemos evitar que muitos morram antes da hora. Ou que muitos morram, ainda que vivos. Ou acompanhar aqueles cujas vidas foram marcadas pela morte de alguém, e aqueles cuja vida já se parece mais com a morte. Levantá-los, ainda que vagarosamente do féretro e devolvê-los à Vida, que é mãe de todos.

Era isso o que queria Jesus. Que entre nós, diante da inevitável dor, houvesse igualmente um inevitável empenho para enxugar lágrimas, consolar os que sofrem, ressuscitar os que já se entregaram ao desespero… Enfim, que soubéssemos cuidar uns dos outros, até que um dia nos levantemos de uma vez por todas, depois de todos os nossos dias, para aquele que desde já, trilha conosco o árduo caminho de ser…

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Por, Pe. Eduardo César

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