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06/03/2016: “Pai Bondoso”

Comentário ao Evangelho do IV Domingo da Quaresma: Lucas 15,1-3.11-32

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Apesar de nossa linguagem constituir um dos maiores engenhos de nossa natureza, para falar do mais essencial sempre nos faltam palavras mais consistentes. Para abordar o mistério de Deus não é diferente; só nos restam nossas palavras pobres, nosso balbucio. Difícil é constatar ainda nossa dificuldade em não nos confundirmos com aquilo de que falamos. Ao determos o nosso olhar sobre qualquer realidade, tema ou pessoa, sempre falaremos de nossa perspectiva, com nosso horizonte de sentido, projetando muito de nós. Em tudo sobre o que tecemos nossas palavras, estão em jogo também nossos fantasmas mais íntimos, nossas neuroses mais absurdas, nossos complexos e projeções mais adoecidas. Mais uma vez, não seria diferente com Deus. Ao falarmos sobre Ele, podemos ter inúmeras imagens desavisadas, que valem ser buriladas, depuradas, a fim de que se o encontre verdadeiramente.

Toda experiência de Deus é importante, entretanto. Mesmo as mais improváveis e distorcidas. Só por um motivo: porque nelas se encontra um caminho de reconhecimento daquilo que também nós somos, das incertezas e inseguranças que também nós temos e, sobretudo, porque na nossa imagem de Deus, está incrustado um modo de viver e reagir ao mundo. Mas isso não é tudo, evidentemente, porque falando assim, podemos nos esquecer que muitas experiências passam ao largo daquela que é realmente salvífica. Muitas delas oprimem e esmagam o ser humano. Nesse sentido, também nós deveríamos ser ateus de muitas imagens de Deus e deveríamos perguntar aos que assim se intitulam, com respeito, em que Deus não creem.

Em Jesus Cristo, nós cristãos, encontramos uma imagem livre de todo fantasma, absolutamente libertadora. Exigente, por outro lado, para não cair no extremo de consistir basicamente na resposta às nossas carências nem tampouco de fazermos Deus ser à medida de nossos próprios interesses. E é contra uma proposta sufocante de Deus juiz, punidor, exclusivista, legislador, neurotizante, que Jesus apresenta a comumente conhecida parábola do “filho pródigo”.

Que Deus Jesus apresenta, na parábola que deveríamos chamar de “Pai Bondoso”?

Um Pai, em primeiro lugar. Figura da autoridade numa cultura patriarcal, responsável pelo cuidado da grande organização “familiar” de então, o pai ocupa o lugar de poder. Não o Pai da história de Jesus. Aos olhos dos ouvintes, deveria ter soado um absurdo o que o filho mais novo faz com o pai da parábola: pede-lhe a herança, declarando-o, assim, morto. Mais absurdo, porém, deve ter soado a reação do pai: reparte a herança, deixa o filho ir. Não se impõe, não proíbe, não coage nem constrange o filho. Nada. Nenhuma figura de poder, mas um Pai que dá liberdade: deixa partir. Permite a experiência pessoal, a maturação individual do Filho, mesmo que ele vá longe. Indiferença? Desamor? Ou amor reconhecidamente livre que deseja a recíproca também livre? O que aquele filho buscava que ali não encontrasse? Sabe o que deseja? “Trocar o certo pelo duvidoso”? Deixar as seguranças? O Pai não se resigna a dar respostas em lugar do filho… Deixa-o encontrá-las.

Mas quando o filho volta, sabe-se lá se arrependido ou não, lá está o Pai, vendo-o de longe. Olhar que alcança… Ele é quem vai ao encontro. Ressentimentos? Mágoas? “Eu te falei que não ia dar certo!”… Nada de explicações, de muitas conversas nem atenção ao texto que o filho ensaiou antes de voltar; só abraços e beijos. A alguém que esteve com os porcos? Sem nenhuma purificação? Sem nenhuma ablução, banho; tocar quem experimentou as piores baixezas e não tinha para comer nem a lavagem? Sim… Amor que contorce as entranhas é o que dizem as escrituras. Vestes! As melhores (as do Pai, certamente). Anel! (Ele é filho!). Sandálias! (Ele é livre). Que Pai é esse? Esse filho quer apenas pão! Não ficou claro? Voltou porque lhe assolou a fome! Que seja, que seja! O Pai dá-lhe o que tem: tudo! Pão, vestes dignas, amor, se lança em seus braços. Como quer uma relação livre, Deus não chantageia o filho com o que pode dar ou com ameaças; de sua parte a sua oferta é sempre total. Ele se dá, ainda que o outro-da-relação não faça o mesmo. E para sua misericórdia, basta uma fresta…

Não só oferece banquete para o perdido, insiste com o outro filho, o ciumento, que entre para a festa também. O banquete é para todos. Ouve do filho mais velho, por sua vez, uma acusação frequente entre irmãos: “o outro é mais amado”. Enquanto fazia de tudo para chamar a atenção do Pai, para conquistar o amor dele, o filho mais velho não fez o mais importante: não amou. Tentava conquistar com as próprias forças o que e já lhe era dado de graça. O Pai não se ofende, não discute, dá suas razões apenas, humildemente. Fala de seu amor irreconhecido, sem chantagens emocionais, sem desconsiderar a queixa que ouve…

Decididamente: nessa imagem de Jesus está condensada a realidade magna de Deus, aquela que ilumina nossas imagens mais obscuras. Ele é acolhida permanente, o “substrato” mais profundo da vida e do homem. Também aí, encontramos aquilo que deve sustentar a vida humana e fraterna: a misericórdia encarnada como modo de viver, como resposta a esse Deus que só nos pode dar seu amor. E se, depois de toda experiência longínqua e errante, depois de toda decepção e tristeza, também nós formos capazes de nos interessarmos novamente por Ele e pela claridade com que Jesus no-lo apresenta, então, ele nos aguardará apenas com carinho, para a festa incessante de sua ternura resoluta.

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Por, Pe. Eduardo César

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