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06/04/2014: "crês nisto?"

Comentário ao Evangelho da V Semana da Quaresma; João 7, 40-53

God invites me

Contam os budistas que Sidarta Gautama era um príncipe, encastelado e servido por muitos súditos. Depois de desapontar-se com sua vida de riquezas e descobrir sua profunda irrealização, ele, certa feita, decidiu sair de seu castelo. Mas, em sua primeira saída deparou-se com um enfermo e viu a aflição dos que o acompanhavam. Naquele dia ficou muito deprimido e sentiu que sua vida de riquezas era inapropriada. Não se contentando com aquela visão resolveu sair no segundo dia, mas foi surpreendido por uma cena também chocante: ele viu um idoso, com as dificuldades inerentes à idade e condoeu-se. Contudo, não conseguiu fazer outra coisa senão voltar para seu cômodo palácio. Cada vez mais se sentindo inadequado em relação à própria vida, Sidarta quis sair mais uma vez. Sua terceira visão, porém, foi a pior de todas: uma família iria lançar o corpo de um de seus mortos no rio. Enquanto todos choravam enlutados e arrasados, Gautama sentiu-se desapontado como se também tivesse incorporado aqueles sofrimentos. Procurou um monge, para que esse o ensinasse um caminho de libertação, a fim de que ele se livrasse daqueles espectros de dor e sobrevida que ocupavam sua mente. O monge lhe ensinou tudo, mas ele não conseguiu libertar-se. Depois de constantes frustrações, sentou-se sob uma árvore e, sem desejar absolutamente nada, encontrou-se com quatro verdades: 1. A vida é uma doença implacável para a qual não há remédio (é o mistério da dor). 2. A vida é um processo de destruição contra o qual não adianta lutar (é a experiência da velhice). 3. Ocultar a morte é uma ilusão (é o mistério da morte). 4. É preciso libertar-se do desejo, inclusive de não desejar, por um caminho pessoal e não estruturado. Só assim, sem ceder a um ascetismo rigoroso, mas buscando o ponto médio é que Sidarta chegou à iluminação (budha: iluminado, o desperto, aquele que sabe).

Estamos longe ainda de traçar todos os pontos comuns entre a história de Jesus e a de Buda, mas guardadas as devidas distâncias, também Jesus teve seus encontros, os quais nós meditamos no 3º, 4º e 5º domingo da quaresma, desse ano litúrgico A. Em primeiro lugar, ele se encontra com a samaritana sedenta (Jo 4), fazendo-a descobrir sua sede mais radical e, que essa sede, é a sua própria fonte de água viva, a qual ela só encontrará se escavar dentro em si. Em segundo lugar, Jesus se encontra com o cego; fazendo-o responsável por sua própria vida (“vai e lava-te”- Jo 9), libertando-o não só da cegueira ‘material’, mas também da submissão (“agora vejo!”). E, nesse quinto domingo, meditamos o evangelho da ressurreição de Lázaro, quando Jesus, encontra-se com Marta e Maria e se comove com a dor delas e também, porque, aquele que ele amava –afetiva e efetivamente – está morto. Estes três encontros são quase cifras de um contexto batismal da comunidade joanina. Tais relatos representam o percurso que todo cristão deve fazer de descobrir o Cristo e enamorar-se dele, para aderir a seu projeto e comunidade, pelo batismo: é o caminho da iluminação. Ora, todo cristão batizado é um iluminado (“photismós”).

Pois bem, é quando Jesus se encaminha para a própria morte em Jerusalém, que ele realizará um sinal de doação de vida, em Betânia. Lembremo-nos da nota geográfica de João: Betânia ficava a três quilômetros de Jerusalém indicando que Jesus não vai para lá somente prantear seu amigo, mas para começar seu enfrentamento ao poder da morte, que se concluirá com a sua entrega total na cruz.

Jesus vai despertar seu amigo, mesmo a despeito das condições em que se encontra (“já cheira mal”), ou mesmo contra toda esperança (“já fazem quatro dias”), indo muito além da piedade judaica de linha farisaica (“sei que ele ressuscitará no quarto dia”), porque ele é a Ressurreição e a Vida. O leitor deverá se lembrar de Jo 5, 28-29: “Vem a hora em que todos os que estão nos túmulos ouvirão sua voz” pois, gritando, Jesus chamará Lázaro para fora do túmulo.” Jesus é, portanto, caminho de vida; ressurreição para a vida e, mesmo que alguém morra, crendo nele, ressurgirá não para outra coisa, senão para a vida junto de Deus.

Note-se, todavia, que antes de realizar o sinal da ressurreição de Lázaro, Jesus falava que ele dormia. Na bíblia, as palavras “dormir” e “sono” são usadas para falar da morte. Do mesmo modo, “levantar”, “despertar”, “reerguer” são termos para falar de ressurreição. Também o batismo tem esse significado de despertar para uma vida nova, levantar-se da vida morta. Não é só Lázaro, portanto, que desperta nesse evangelho, mas também Maria, que chamada por Marta, levanta-se e corre ao encontro do Mestre. Ora, sabemos que Maria não estava morta, mas, afinal, quantos tipos de morte conhecemos? Não será a tristeza, uma delas? Há, certamente, muitos modos de estar morto, mas o Evangelho de João se preocupa em nos apresentar o verdadeiro caminho da Vida: Jesus.

À comunidade cristã, restará a missão de desamarrar Lázaro, bem como cabe às comunidades de hoje livrar os Lázaros atuais, pessoas que conheceram diferentes formas de morrer (depressão, drogas, violência, opressão, miséria), de toda insígnia de morte; não só faixas e lenços, mas tudo o que os prende ainda, dentro dos túmulos modernos.

Enfim: os três encontros de Jesus, desses três domingos da quaresma nos mostram também quatro verdades, como na história de Buda. 1. A vida não é estar à beira de um poço e morrer de sede, nem anular os desejos, mas encontrar o nosso desejo mais fundamental, radicado no poço mais íntimo em nós. 2. A vida não é apenas dor e sofrimento: um viver na escuridão ou nas trevas, mas é também luz e alegria se assumida com responsabilidade. 3. A vida não é um fiapo diante da morte, mas é um voo de inigualável beleza, que a ditadura do tempo não pode abater. 4. Encontrar a iluminação não é um esforço somente pessoal, um mérito próprio, resultado de uma luta, mas é o que se pode esperar depois de um encontro com aquele que derrama sobre nossos terrenos áridos, a água viva de sua bondade; com aquele que lança sobre nossas trevas a luz de sua misericórdia; com aquele que, sendo a Ressurreição e a Vida, rompe definitivamente os grilhões da morte. “Crês nisto?”

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Por, Diácono Eduardo César

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