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07-08-2016: “Cidadãos do último dia”

Comentário ao 19º Domingo do Tempo Comum: Lc 12, 32-48

Aquele que, alguma vez na vida, já cometeu um erro irreparável, ou causou um desgosto profundo a alguém muito amado; aquele que já traiu por um gestou ou uma palavra a confiança, ou mesmo já sofreu por causa de um juízo inacertado ou uma atitude equivocada; esse já descobriu uma verdade muito grave: cada gesto e cada palavra são terrivelmente definitivos em si mesmos. Diante de uma atitude errada, é possível recorrer a outra para reparar o dano causado, mas não será possível des-fazer aquilo que foi feito. Do mesmo modo, após uma palavra mal-dita, podem-se dizer outras tantas na tentativa de corrigir o engano, ou desculpar o equívoco, ou explicar o sentido que aquela primeira queria ter ao ser dita… mas nunca será possível des-dizê-la. Existe uma definitividade inerente a todo gesto e a toda palavra, pois a brevidade do momento presente é cheio de duração. E aquilo que parece mais provisório – o presente – é pleno de permanência, pois se escreve de maneira inapagável na história de nossa vida, construindo aos poucos aquilo que nos tornamos.

Esquecermo-nos disso pode levar a enxergarmos a vida como um jogo de inconsequências, uma irreverente brincadeira, em que as palavras podem ser lançadas à revelia, ou as pessoas podem ser usadas como peças de um tabuleiro ou produtos de uma banca de ofertas. Nada é sagrado: nem os corações, nem os sonhos, nem a dignidade do outro, nem a confiança, nem a lealdade… nada. Apenas a fugacidade de cada momento, os interesses que se põem em jogo e suas respectivas conveniências. Ou ainda: vivermos a vida como quem cochila e, no torpor do sono insistente, desconhece a realidade das coisas. E age como sonâmbulo, incapaz de perceber as reais gravidades e as grandes possibilidades da existência. Até fala de amor, mas não está disposto a amar com radicalidade; até se põe ao lado, mas sem a lealdade de quem dá a vida pelo amigo; até deseja a justiça, mas não se aflige com as pequenas desumanidades de todos os dias, imerso que está no próprio sono.

Não sem razão, contra essa tentação permanente e como possibilidade de corrigir as maldades do mundo, a esperança de Israel desejava um dia de justiça, em que Deus se fartaria das atrocidades e das cruezas, das inadvertências e das apatias humanas e viria, Ele mesmo, exercer a verdade e a salvação. Nesse dia, ninguém mais apresentaria justificativas mentirosas ou se esquivaria das maldades cometidas; nenhum torpor, nenhuma sonolência, nenhuma indiferença: todos estariam despertos e nus, diante de Deus, exibindo nada mais que a verdade de si mesmos. Os esquecidos, finalmente, seriam reconhecidos; os sofredores seriam confortados e Deus mesmo enxugaria as lágrimas humanas, sarando-nos as dores e fechando-nos as feridas.

Mas quando viria esse dia? Num futuro remoto? Nos derradeiros momentos do mundo, quando a maldade chegasse ao limite do insuportável? Amanhã mesmo, como cataclisma do qual não seria possível fugir, castigo imediato e pena inadiável? A fé cristã inseriu um elemento novo nessa esperança: “o tempo já está cumprido e o Reinado de Deus chegou” (Mc 1,16). Ou ainda: “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e quem vive e crê em mim não morrerá jamais. Crês nisso?” (Jo 11,25-26). O último dia já chegou e a sentença de Deus sobre a vida humana já foi pronunciada – não desde fora, não de maneira estranha, mas na vida de Jesus de Nazaré, o Cristo. E cada vez que alguém se encontra com a o Ressuscitado e confessa “eu creio”, começa para ele o “último dia”, pois a vida já se encheu da ultimidade e da definitividade comunicada pela vida de Jesus.

Por isso, como hoje nos ensina Lucas, o cristão vive em permanente estado de vigilância. Não porque tem medo de um juízo de Deus, a ser sentenciado no futuro. Mas porque já testemunha, na ultimidade de cada dia, as centelhas do eterno; e porque percebe, na brevidade de cada gesto, a durabilidade aquilo que permanece e que torna possível viver. O dia derradeiro lhe vem ao encontro todos os dias, como possibilidade: na gravidade do amor doado, na graça do perdão pedido e concedido, no dom da fé depositada, no remédio de uma palavra de conforto e encorajamento. Nos gestos pascais da vida de cada um e da vida do mundo, no silêncio de nossos segredos ou nas reviravoltas da história, se realiza a conta-gotas o Reino que já chegou – basta que entremos nele, agora. Assim, essa saudável vigilância nasce não do medo, mas da prontidão de não deixar escapar as oportunidades de amar e de viver a vida com toda a profundidade e a disponibilidade que ela merece.

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Por, Frei João Júnior, OFMCap

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