Diocese de Uberlândia Em Destaque Reflexões Dominicais

07/06/2015: "Obedientes ao Espírito"

Comentário ao Evangelho do X Domingo Comum: Mc 10, 20-35

unção-espirito2

No fundo, gostaríamos que tudo fosse sempre do nosso jeito. Nenhuma contradição, nenhuma decepção, nenhuma inquietação, nenhuma desinstalação… nada que perturbasse a ordem “sagrada” que estabelecemos para o mundo, a partir de nosso olhar sempre estreito. No fundo, parece que nos agradaria que nada tivesse história, nem vislumbrasse futuro, mas se reduzisse à faceta do presente que alcançamos com nossas convicções e abarcamos com nossas certezas. Que nossas pretensiosas aferições sobre os outros fossem definitivas e nossas sentenças sobre o bem o mal fossem eternas – parece ser esse o desejo de nossa arrogância.

Um engano grave, adverte- nos o Evangelho de hoje. Pois entre mim e o outro haverá sempre um véu de mistério a encobrir a totalidade de nosso coração, de nossas intenções e de nossas esperanças. O coração do outro será sempre terreno movediço, ao qual se adentra com pés descalços e sagada reverência. Por mais possivelmente óbvias que pareçam, suas razões últimas serão sempre “últimas”, nunca acessíveis ao primeiro olhar e às deduções apressadas. E, por mais frustrante que pareça, as pessoas, as coisas e o mundo estarão sempre sujeitos ao inacabamento da história, de modo que nosso olhar penetra apenas uma pequenina porção de seu presente, deixando escapar o passado de sua construção e o futuro de seu destino.

Assim, querer julgar apenas pelos limites de nosso olhar resulta, quase sempre, em terríveis violências e imperdoáveis injustiças. Porque não é raro que, exatamente nas curvas de nossas incertezas, nos deparemos com as sementes do Reino de Deus. No Evangelho, a família de Jesus quer prendê-lo, pois julga que ele está louco. Sequer sua mãe e seus irmãos o compreendem. As autoridades o condenam, porque sentenciam que o bem que ele faz procede não de Deus, mas dos demônios. Ou seja, sua liberdade e bondade teriam uma origem perversa no mal e no engano… Acontece, porém, que nem sua mãe, nem seus irmãos, nem as autoridades se dão conta de que, contrariando nossas expectativas, frustrando nossas pretensões, abalando nossas certezas, assim mesmo floresce o Reino. De modo que aquilo que julgamos mais sagrado e digno de crédito pode resultar numa traição do Espírito. Ao passo que aquilo julgado diabólico e irreverente pode se revelar ação de Deus em nós.

Talvez nisto consista o pecado contra o Espírito, do qual fala Jesus: na arrogância que se arvora juízos absolutos que só cabem a Deus; nas tentativas de conter o Espírito com justificativas falsamente sagradas ou na perversidade de sacralizar os mecanismos mais patentes de opressão e de silenciamento da voz do outro; na tirania de sacrificar liberdades para salvaguardar poderes instituídos; na pressa de conceituar o mistério do outro tendo como critério a estreiteza de nossas impressões; no perigo de nunca se permitir ser questionado no exercício da autoridade ou no ilusório senhorio que se exerce sobre a vida. Um pecado tristemente próximo, pois nele podem incorrer tanto os mais próximos, dos quais se esperaria amor e compreensão (irmãos, mãe), como os mais bem formados, dos quais se esperaria largo entendimento do ser humano e seus dilemas (mestres da Lei, vindos de Jerusalém).

Que aprendamos, portanto, a humildade de saber esperar e a certeza de que nossos juízos sempre partilharão da mesma provisoriedade que marca nossa vida e nosso conhecimento. Que o Espírito nos ajude a crer que bem e mal, nos limites de nossa história, nunca serão potências totalmente separadas e delimitadas, mas realidades que nos habitam ao mesmo tempo e que nenhuma ação humana estará isenta de uma e de outra. Enfim, que cuidemos de não pecar contra o Espírito, apressando-nos em sentenciar a origem última das intenções que brotam do coração humano; pelo contrário, abramo-nos à verdadeira obediência ao Espírito, que não é outra coisa senão a abertura e a serenidade que se deixam surpreender pela novidade desconcertante do Reino.

________________
Por, Frei João Júnior ofmcap

Assine a nossa newsletter

Junte-se à nossa lista de correspondência para receber as últimas notícias e atualizações de nossa equipe.

You have Successfully Subscribed!