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07/12/2014: "Consolação no deserto"

Comentário ao Evangelho do 2º Domingo do Advento: Mc 1,1-8

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Uma palavra de consolo e encorajamento. Não seria exatamente esta a intenção do Evangelho: oferecer àqueles que caminham em meio à aridez das incertezas da vida um repouso aconchegante e um descanso seguro? Ou a oportunidade de refazer as forças para as lidas cotidianas, as mais desafiadoras, por terem de ser reiteradas a cada dia?  Ou um remédio para os males de uma vida por vezes mal vivida e doentia, por deszelo ou descuido, ferida pela maldade ou pelo abandono? Não seria justamente esse o profundo sentido da palavra evangelho (notícia boa), capaz de alegrar os tristes e consolar os angustiados? Pois é assim mesmo que Isaías apresenta, hoje, a Palavra que lhe foi dirigida: o fim de todas as intermináveis esperas, o tempo já cumprido; o aterramento dos vales e o abaixamento das colinas; o endireitamento de tudo o que é torto e o alisamento de todas as asperezas (Is 40,1-5.9-11). Sem mais contradições, sem mais ambiguidades, sem mais esperas ainda incompletas. Apenas realização, somente plenitude, enfim felicidade, para sempre inteireza…

Difícil passar surdo pelas palavras do profeta. Porque, no fundo, elas anunciam o cumprimento dos sonhos que habitam todo coração. Em todos nós habita um advento, uma espera, um desejo ardente de realização ainda por vir. Talvez porque sejamos sempre incompletos e faltantes; ou porque nos sintamos sempre despreparados e inseguros para aquilo que a vida nos exige; ou porque sempre reste em nós algo por ainda integrar e amar… Ou, talvez, porque a graça nos tenha feito peregrinos da eternidade, errantes do absoluto, sonhadores desejosos de Deus mesmo…

Guiados pela fé, os primeiros cristãos não hesitaram em ver cumpridas em Jesus de Nazaré as esperanças do profeta. Nele, não só o ser humano, mas o mundo inteiro parece ter alcançado a suprema nobreza de seu mais alto destino: testificar a bondade e o amor d’Aquele que os fez nascer do nada. Em Jesus, as buscas e as errâncias humanas ganharam nome e direção; e as doenças que aprisionam os corações e privam os espíritos de tudo quanto podem ser e amar foram curadas para sempre. Não sem razão, o Evangelho de Marcos, que hoje iniciamos, principia com esta confissão: “Início da boa notícia de Jesus, o Cristo, o Filho de Deus” (Mc 1,1).

Mas por que, mesmo depois de Jesus, a vida parece conservar imutáveis seus tantos sofrimentos? Por que ainda é tão difícil viver com justeza e conciliar potências tão potencialmente destruidoras que habitam em nós? Haveria ainda algo a esperar? Marcos assevera que não: “o tempo se esgotou e o Reino de Deus chegou”. Mas aconselha: “convertam-se para acreditar nessa boa notícia” (Mc 1,15). Converter-se, consolar-se, arrepender-se – essa é a condição para encontrar no próprio coração o eco da melhor de todas as boas notícias. Talvez por isso, João Batista nos seja sempre de novo apresentado à beira do Jordão, vestido como um desertor do mundo dos homens, entre gritos ofegantes de conversão. Ou talvez seja por isso que Isaías tenha advertido com tanta clareza: “Preparai no deserto o caminho do Senhor, aplainai na solidão a estrada de nosso Deus” (Is 40,3). E talvez seja também por isso que, às vésperas do Natal de Jesus, quando o mundo se prepara para receber em sua carne a luz de Deus, nos seja concedido celebrar um advento: uma expectativa que não se vive para fora, mas para dentro; uma completude que não fecha, mas que abre ao novo que vem; um jubileu que retorna tudo ao seu lugar de origem e descanso; um sábado (shabat) de contemplação e quietude ante a visão do Deus que se põe a caminho, em nossa direção.

Sim, é preciso voltar ao deserto e à solidão, afastar-se do turbilhão e do vozerio da cidade, achegar-se ao Jordão de João Batista e deixar-se banhar, descer à profundeza do próprio coração. Só assim, nesse esforço legítimo de reconciliação, seremos capazes de distinguir o Deus que reconcilia em si mesmo, na existência de uma criança, a milenar inimizade entre a dureza provisória da terra e a leveza eterna do céu.

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Por, Frei João Júnior ofmcap

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