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08/03/2015: "Loucura e Escândalo apreciáveis…"

Comentário ao Evangelho do 3º Domingo da Quaresma: Jo 2, 13-25

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Não é raro encontrar quem tenha construído o “templo de sua fé” sobre algum milagre, ou quem tenha erguido sua vida sobre o chão firme de uma vasta sabedoria. Nem, tampouco, é raro encontrar quem se agarre aos ‘fortes’ deste mundo, em busca de falsas seguranças. Ou a instituições e suas promessas vagas de salvação. Nosso encantamento quase sempre é dirigido ao aparentemente perfeito, ao atraentemente intelectual, à força e à seguridade da constância. O fraco, em nós e nos outros, é escândalo, loucura que nós precisamos trancafiar longe de nós, ou nas camadas mais subterrâneas de nós mesmos, para não termos de encará-la.

Pois, enquanto pretendemos loucamente parecer fortes a todo custo, perfeitos a qualquer preço, sob vaidades e orgulhos, acabamos por ser esmagados por nosso próprio peso. Mostrar fragilidades, ou melhor, acolhê-las, é repudiável; ouvimos isso de nossos pais desde cedo: “não chore!”; “seja homem!”; ou ainda: “deixe de frescura!”, “você é menina, tem que saber isso!”… E não foi justamente o que Deus abraçou em nós: também as nossas fraquezas, ele que desde sempre as amou primeiro? Quando somos mais fracos, senão quando amamos? Amar é expor-se a riscos, talvez, irremediáveis, como a cruz.

Eis a fraqueza de Deus: amar. Loucura e fraqueza apenas aparentes, diga-se logo, juntamente com Paulo (2ª leitura), pois só o amor pode evitar que o saber degringole em perversidade e poder; bem como, só ele pode parar as cirandas da violência e da indiferença. Clichê antigo, replicariam; sentimentalismo barato, amargariam outros, mas não é apenas quando tomados de amor, que somos capazes de descobrir o que essa vida foi feita para ser? Não será esse o caminho possível para liberar toda a potência de bondade que possui o ser humano?

Há mesmo os que sustentam sua vida sobre milagres; então, que entendamos logo que o milagre do amor é onde está a superabundância da vida. Há os que se firmam sobre muitas sabedorias; que não percamos a verdade entre nossas buscas. E aos que se prendem às instituições e às suas seguridades, lembremo-nos de que Deus, que desde sempre preferiu os fracos, não nos quer oprimidos, mas livres. Para isso, libertou o povo do Egito e lhes deu mandamentos (1ª leitura); para libertar a liberdade do povo e não para fazer funcionar uma religião que impõe pesos desmedidos e esmagadores.

Por isso, Jesus no Evangelho, expulsa os comerciantes e os cambistas e indica seu corpo como verdadeiro templo. Pois a glória de Deus e o verdadeiro louvor a ele, não estão numa religião sufocante e opressora, nem em sacrifícios de animais, nem em hieratismos, nem nas seguridades institucionais, nem na liturgia desconectada da vida, tampouco, nas pedras de uma construção – ainda que bela. A glória de Deus não está muito menos numa religião que comercializa a fé e a espiritualidade, ou vende o paraíso, ou o oferece a preço de valorosos dízimos. O verdadeiro louvor a Deus é prestado com a vida. A glória de Deus é o homem vivo! (Santo Irineu).

Simplesmente vivo? Vivo de que vida? Ora, o homem só está realmente vivo quando sua vida for um escândalo e aos olhos dos outros, for considerada uma loucura… Quando, portanto, for capaz de amar. E se ao amar, tornarmo-nos vítimas, que seja para que nossa vida se transforme também em dom. Pois, lá onde a morte e as trevas tiverem urdido sua vitória contra o amor, ele terá vencido por ser simplesmente o que é.

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Por, Pe. Eduardo César Rodrigues Calil

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