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08/05/2016: “No quadragésimo dia”

Comentário ao Evangelho da Ascensão do Senhor: Lc 24, 46-53

A vida humana assemelha-se a uma travessia: o desafio de construir-se, de seguir adiante, de permanentemente sair de onde já se chegou, em direção ao que ainda pode ser. Mas não só. A vida, ela mesma uma peregrinação, um per-curso, se constrói de pequenas e grandes travessias todos os dias. Pois tudo que é legitimamente grande na vida se faz a partir de um caminho, às vezes longo, de construção. Um sonho, por exemplo, não se realiza da noite para o dia. Exige esperança e determinação, às vezes por anos a fio, para sustentar um ideal que, um dia, pode se tornar realidade. Do mesmo modo, uma festa não se prepara de um instante para o outro. Seria demasiado fugaz, nem digna de ser festejada. Quando se trata de uma festa verdadeiramente importante, ela é planejada com antecedência, pensada em seus detalhes, vivida já por antecipação a cada preparo. Também um amor não se conquista no primeiro olhar. Será preciso cultivar, com paciência, as sementes da paixão para que elas germinem em fidelidade e doação, em perseverança e convicção, em leveza e gratuidade… Até que frutifiquem em verdadeiro amor, cujos frutos serão sementes de amor renovado. Enfim, perseguir uma meta, formar-se como pessoa, superar as feridas nas relações com os outros, construir um lar, tudo isso se faz ao modo de travessia, de peregrinação nos caminhos da vida. E não é raro que o fim de um caminho se revele, em seguida, como começo de outro, pois a vida não pode parar. E é próprio da vida, sobretudo da vida segundo o amor, manter-se inquieta em busca de algo mais.

Nesse sentido, pode-se compreender por que o Evangelho de Lucas propõe, após a Páscoa, um novo itinerário de quarenta dias, quase como uma nova quaresma: Jesus que, após sua morte/ressurreição, aparece aos seus discípulos – aqueles que comeram e beberam com ele e que agora serão suas testemunhas – durante quarenta dias. Com isso, Lucas insinua aquilo que, no fundo, sabemos: que a presença do Ressuscitado não é óbvia, nem se esgota no primeiro olhar, mas precisa ser amadurecida por seus discípulos, compreendida com a vagareza do amor, decantada lentamente no tesouro do coração, interpretada longamente em todo o seu sentido. A ressurreição de Jesus não é apenas uma informação entre tantas outras, é o anúncio da melhor das boas notícias; e não exige apenas palavras acertadas, mas testemunho convincente daqueles que tiveram sua vida tocada desde dentro e agora oferecem essa possibilidade aos irmãos. Afinal, a Páscoa, para aqueles que amam e creem em Jesus, pertence àqueles acontecimentos que mudam a vida, que interferem diretamente dentro de nós, que são capazes de nos arrancar sorrisos e lágrimas – como o amor. Celebrar a ressurreição de Jesus enche nossa vida de alegria e de esperança: alegria porque se Jesus está vivo entre nós, não estamos sozinhos; e esperança porque aprendemos que o Pai do Céu não se esquece de nós, nem mesmo na morte, mas nos recolhe para sempre em seu coração. Acolher esse dom, concebê-lo dentro do coração, transformar a partir dele nosso olhar e nossos gestos… Isso leva o tempo de uma vida. Nisso consiste a travessia da fé em Jesus. E erguer os olhos do túmulo para a vida é apenas o primeiro passo desse delicado itinerário.

Assim, segundo Lucas, ao longo de quarenta dias, Jesus acompanhou os seus, ensinando-os agora a viver alimentados por uma presença que não está diante dos olhos, mas que sustenta desde dentro. Mas, no fim desse caminho literário do Evangelho, no quadragésimo pascal, nos aguarda ainda uma dupla lição do Ressuscitado. A primeira delas é que ele não nos pertence, que não pode ser aprisionado nem mesmo por nossa fé e por nossa adoração. O Filho pertence ao Pai e partilha do mesmo mistério do Pai. Ou, no dizer do texto, “está nos céus com o Pai”. Sempre haverá entre ele e nós um mistério que nos instiga e nos convida a nos lançarmos, um segredo de amor que impede que nos apossemos dele, um silêncio que só se penetra com a intimidade. A segunda lição é que não devemos procurá-lo nas alturas do céu, entre as nuvens. Pois seus olhos, a partir da ascensão, habitam todos os olhares humanos e sua vida divina pulsa no coração do mundo. O “céu” de Jesus não é um lugar, mas Deus mesmo, que com seu Espírito fecunda e sustém a nossa vida. Assim, encontrar o Senhor implica se dedicar com amor àqueles a quem ele mesmo se dedicaria, cultivar a fraternidade e justiça como ele mesmo faria, amar com a mesma gratuidade com que ele mesmo amaria. Simultaneamente acolhido no mistério de Deus e escondido nas nervuras do mundo – eis o Ressuscitado, que hoje celebramos.

Que a Páscoa seja para nós o caminho que se estende ao longo de toda uma vida. Que ela continue a nos inquietar e a nos despertar do sono da indiferença. Que a fé em Jesus não nos seja um convite a olhar apenas para cima, mas um apelo a acudirmos as necessidades das pessoas. Pois, entretidos com suas urgências, medicando suas feridas, alimentando suas fomes, pode ser que nos deparemos, espantados, com os olhos do Ressuscitado e nos sorrir gostosamente.

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Por, Frei João Júnior ofmcap

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