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08/12/2013: "…antes da fundação do mundo" (Ef 1,4)

A nossa catequese nos ensinou que o leitmotiv (o motivo condutor) da encarnação de Jesus era redimir-nos do pecado de Adão, no qual todos pecaram, oferecendo-se em sacrifício a Deus para aplacar Sua fúria. Mas para Deus mostrar seu perdão, precisaria Ele ter encontrado justo o caminho da violência? Para ter desbancado o pecado que também nasce da violência – basta lembrarmo-nos do primeiro assassinato na bíblia (Gn 4) – Deus precisaria usar dessa mesma lógica: a violência de um assassinato?

De fato, o pecado causou uma grande desarmonia na obra criatural de Deus, instaurando um conflito tanto na relação vertical (entre Deus e Adão), quanto na relação horizontal (entre ele e a mulher). De Deus, o homem se esconde, porque O teme e é, precisamente aí, nesse medo, que está o conflito. A pergunta, com a qual começa a primeira leitura é “Onde estás?”, dirigida a Adão, por Deus que o procura. Entretanto, a pergunta não é pelo lugar físico em que se encontra o homem, mas é mais profunda; pergunta por onde o homem se pôs? Como se sente? Onde está seu coração? Que fez ele para se esconder? Dessa cizânia entre Criador e criatura, impõe-se uma crise na relação horizontal que é confissão, mas não completa e sim, acompanhada de acusação do outro: “comi, mas foi a mulher quem me deu…”; “comi, mas foi a serpente”. E Deus trata de por inimizade entre a mulher e a serpente; entre a descendência dela e a da serpente. Mas a descendência da mulher pisará a cabeça da serpente.

Posta a crise, Deus só poderia punir a humanidade e só seria aplacado de sua frustração, caso seu Filho morresse? Ora, parece que não é disso que fala a segunda leitura. Antes mesmo do pecado, nós já éramos predestinados para sermos filhos de Deus, em Jesus Cristo. Antes mesmo de Adão, Jesus Cristo era. E a Vinda do Salvador não está em dependência do pecado, tanto porque ele não é tão imenso quanto a misericórdia de Deus; quanto porque a graça é anterior ao pecado, já que Jesus Cristo é anterior a Adão. Contudo, se Adão criado à imagem da verdadeira Imagem, que é Cristo, peca desobedecendo; um só homem por obediência e justiça faz advir sobre nós a graça (Rm 5 17).

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A vida de Cristo, toda ela, é justiça e abertura ao Pai – não só sua morte. Mas porque uma vida assim só pode incomodar, ele é levado para a cruz. Cruz que ele “abraça” certo de que ninguém lhe tira a vida, mas de que Ele a dá por si mesmo. Não é pela morte, portanto, que temos a salvação, somente. Nem tampouco Jesus veio para morrer; a criança da manjedoura não está divinamente destinada para a morte. A Palavra de Deus quer, em verdade, mostrar na nossa carne, em suas palavras e obras – e nos seus momentos finais, na cruz – o amor de Deus que se dá a nós (isso é salvação!) tirando do caminho até mesmo o que atravanca a relação entre Ele e a humanidade: o pecado do mundo (salvação-redenção). E nós, somos escolhidos em Cristo, antes da fundação do mundo; por graça, portanto, e não por dependência de um motivo: o pecado.

Nesse advento, quando a Igreja aguarda o natal do salvador, somos juntos, iguais a Maria e ouvimos do anjo as mesmas palavras: “Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!”. A Mãe de Jesus encontrou graça diante de Deus e dará à luz um menino que vem cumprir todas as profecias (Is 7, 14; 2 Sm 7, 12-14) e ser entre nós a presença de Deus. Maria é coberta pela sombra do Altíssimo, designando que ela é a nova tenda de encontro entre Deus e o homem, no menino que vai nascer. Mas para a Igreja ser essa tenda de encontro, como Maria, que a representa, ela precisa colaborar com Deus, dizendo seu “Eis-me aqui”.

Por essa liturgia celebramos o dogma da Imaculada Conceição de Nossa Senhora. Muitos já explicaram esse dogma, chamando-a de preservada, tota pulchra, agraciada desde sempre… Gostaria de evocar a explicação de um teólogo chamado Karl Rahner, segundo o qual Maria é a perfeita redimida; ou seja, também ela foi alcançada pela redenção de Jesus Cristo – perfeitamente. E, porque a graça de Deus é anterior a todo pecado já nos predestinando; Maria já era predestinada em Cristo para, alcançada pela redenção, antes mesmo de sua concepção, poder gerar aquele que é para nós a graça de Deus, na qual já fomos também filiados, desde as origens mais remotas, antes da fundação do mundo. E mesmo nessa festa tão importante para a Igreja, nossos olhos se dirigem para o que Maria espera em seu seio, pois é a descendência dela quem pisará definitivamente, sem ser mordida no calcanhar, a cabeça da serpente que quer fazer-nos esquecer de que, sendo criados para a humanidade, não devemos querer ser como deuses (Gn 3,5).

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Por, Diácono Eduardo César

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