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09/03/2014: "ir ao deserto"

Comentário ao Evangelho da I Semana da Quaresma: Mt 4,1-11

Na bíblia, deserto não é simplesmente uma região geográfica que recebe pouca precipitação pluviométrica; um lugar cujo solo é composto principalmente por areia, com frequente formação de dunas. Muito mais do que uma simples região, ele indica um percurso no qual há sempre um encontro: com o Totalmente Outro (Deus) e conosco mesmos. Assim: enquanto trilhamos o nosso caminho exterior, a nossa história, acompanhados por muitas pessoas, vivemos tanto momentos férteis, quanto momentos de aridez. Do mesmo modo, quando fazemos um itinerário com outros, há em nós um espaço de solidão que deveríamos percorrer, pois é lá que nos encontramos com o que há de mais íntimo e secreto – o nosso deserto interior (não porque seja árido, mas porque lá enfrentamos nossos desejos, nossos “demônios”).

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Nesse ‘espaço-de-relação’ o povo de Deus foi provado (Js 5,6), mas também o próprio Deus, mostrando-se não só libertador, mas capaz de suster seu povo, confirmando assim sua promessa (Ex 6, 7). Descrito muitas vezes como um lugar inóspito, habitado por criaturas ferozes (Dt 8,15), é também um lugar aonde o Senhor conduz seus eleitos, para aí, falar-lhes ao coração (Os 2,16). Entretanto, não é o espaço de uma relação tranquila, mas o lugar de uma luta; do homem consigo, do homem com o Mistério de sua vida.

Jesus vai para esse espaço, conduzido pelo Espírito. E, aí, encontrar-se-á com os apelos que todo ser humano acaba ouvindo, vindos de dentro, de alguém, da cultura onde está imerso, dos tempos em que vive. Apelos quase sempre disfarçados de benefícios, mas que se atendidos podem arruinar a própria vida, pois conduzem a um simples vazio. Convites que não podem ser ignorados, mas que não podemos atender ou cultivar por muito tempo, porque sinuosamente vão tomando conta de nós. Por isso, também Jesus rebate as tentações tão rapidamente. Como no conto de ‘O Pequeno Príncipe’, há sementes terríveis; as sementes de baobá. E se demoramos a descobri-las e deixamo-las crescerem, elas se convertem em árvores tão grandes e destruidoras, que fica impossível arrancá-las.

As tentações de Jesus são as de todo ser humano. Materialmente, o texto quer nos mostrar o que Jesus não fará e o que a sua ação de cura não será. Essa passagem do texto é o segredo de interpretação da prática de Jesus que recusa milagres dos quais poderia tirar proveito, bem como os gestos de poder e os reinos que o levariam a ajoelhar-se diante de outros senhores. Mas, simbolicamente, o texto aponta para os anseios que nos assolam. Em primeiro lugar: pôr Deus a serviço de nossos próprios interesses, forçar Sua mão a assegurar só o nosso pão, só as nossas próprias necessidades, esquecendo a Palavra de Deus e a sua Justiça. É o risco de pensar só no próprio umbigo, de cuidar apenas do próprio estômago. Em segundo lugar: colocar o poder a serviço do próprio ego, criando espetáculos; voltando-o para a autossatisfação. E essa tentação se esconde nas estruturas e instituições que, querendo se manter, não conseguem imaginar nada mais do que a própria manutenção; mas também ocorre nas relações mais comuns; quando valendo-nos do poder, queremos manipular, subjugar, oprimir, para satisfazer-nos. Em terceiro lugar: curvar-se a outros senhores. Num mundo cada vez mais sem referenciais é mais fácil render-se a essa sedição. No fundo ela equivale a esquecer-se do Único Absoluto e ajoelhar-se diante de ‘ídolos’, que sempre serão – mesmo que isso jamais venha à tona – adversários (Satanás), pois nenhum ‘ídolo’ (ex.: dinheiro, pessoa, instituição), nos deixará livres, de fato. Só Deus é o Único Absoluto que não nos esmaga, mas nos devolve a nós mesmos, ao que podemos ser de melhor. E é para isso que Cristo quer nos conduzir; para nossa liberdade (Gl 5,1).

Por fim, vale lembrar que embora o relato dê a impressão de que Jesus passou por essas tentações num momento bastante pontual, não é exatamente isso que acontece. O relato nos mostra que o Reino dos Céus (ou de Deus), que Jesus encarna, chega derrotando o poderio do mal. No entanto, a tentação se dá em toda a vida de Jesus. Não por acaso o texto diz que Jesus ficou quarenta dias e quarenta noites no deserto; não só para fazer referência ao tempo em que o povo caminhou por lá, nem só para ressaltar que Jesus é representante do povo que agora diz sim a Deus (diferente daquele que endureceu sua cerviz), mas porque esse número simboliza uma vida, uma jornada, uma geração. E são três as seduções, porque esse número representa, na Bíblia, o homem, em sua inteireza. E se ele as ouve, o resultado só pode ser a perda dessa mesma inteireza: ele se divide.

Portanto, a proposta de ir ao deserto é a de que sejamos inteiros, afastando o que nos aquinhoa, abraçando o que nos unifica, pois o que ‘não estiver integrado, não será salvo’. É a proposta de, em meio à aridez e ao inóspito, florescer. Afinal, “o que embeleza o deserto, diz o Pequeno Príncipe, é que ele esconde poços em algum lugar”.

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Por, diácono Eduardo César

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