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09/11/2014: "E fez morada em nós"

Comentário ao Evangelho da Festa dedicada à Basílica do Latrão: Jo 2,13-22

De todos os símbolos inscritos na alma humana, poucos são tão fortes e significativos quanto a casa. Porque a casa é a construção que nos protege da chuva e do frio, do sol e dos ventos, de tantos perigos e ameaças que nos atentam contra a vida. Basta o céu se fechar em tempestade e, quase sempre, desejamos apenas estar em casa… Mas não é só isso. A casa é também a morada de nós mesmos, o aconchego de nossos amores, o esconderijo de nossas liberdades, a reserva de nossas relações. A casa é sobretudo o lar, a seguridade de nossas incertezas e a proteção de nossas esperanças. Talvez por isso, o mundo seja também chamado de nossa “casa comum”, onde todos somos comensais de uma mesma história, convivas de um mesmo aconchego, hóspedes do mesmo mistério da vida.

Acaso Deus também teria uma casa? Seria também Ele necessitado de um lar? Porventura seria possível construir uma casa para quem é dono de tudo, princípio e origem de tudo o que existe? Habitaria Deus um lugar determinado, onde estivesse seguramente disponível àqueles que incessantemente o procuram? Foi esse o dilema que dividiu o coração do rei Davi quando, pela primeira vez, quis construir o Templo de Jerusalém (cf. 2Sm 7). E, embora ele mesmo não tenha concretizado o projeto, seu filho Salomão o concluiu com maestria. Destruído e reconstruído, é nesse lugar sagrado, “morada de Deus entre os homens”, “casa de oração para todas as nações” (Is 56,7) que encontramos Jesus, no evangelho de hoje. Não propriamente envolto no silêncio das preces, mas chicoteando cambistas e derrubando moedas.

Irreverente sua postura? Descompassada com a santidade imperturbável do lugar? O evangelista assegura que não. Jesus não admite que “a casa do Pai seja uma casa de comércio” (Jo 2,16). E não era exatamente isso o que ela tinha se tornado? Não só um “antro de ladrões” (Mc 11,17), lugar do lucrativo e desonesto comércio de oferendas ditas sagradas, mas também uma “casa de comércio”, em que se procurava mercantilizar com o próprio Deus através de intermináveis sacrifícios, como se se pudesse comprar a benevolência divina a preço de sangue e incenso? Para Jesus, não podia ser assim. Porque o Pai do céu não se vende pela imolação de vítimas e nem precisa se vender, pois está sempre ao lado dos seres humanos, seus amados. E tampouco seu culto pode ser oportunidade de enganação e exploração, porque Deus ama a justiça e seu amor se antecipa a qualquer oferenda comprada. Jesus não age com irreverência, mas zelosamente recorda o verdadeiro sentido daquele lugar santo: ser sinal da presença permanente de Deus, exatamente no chão das incertezas e na insegurança dos riscos da existência humana.

Basilica_S_Joao_Latrao

Celebramos hoje a Dedicação da Basílica de São João do Latrão. Em outras palavras, recordamos o aniversário da consagração de um lugar santo, daquela que foi a sede da Igreja no Ocidente por muitos séculos; a dedicação de um templo ornado para ser sinal de que Deus não nos abandona, mas arma entre nós sua tenda e vive conosco nossa vida. Um símbolo muito bonito, contanto que não nos esqueçamos de que, em Jesus, Deus mesmo já escolheu sua casa preferida: nossa vida, no seio do mundo. Uma igreja, por mais bela e sólida que seja, jamais será a casa de Deus, pois Ele está em toda parte, das infinitudes do céu às intimidades secretas do coração fiel. Mas uma igreja pode a casa da comunidade de fé, o lugar especial onde se reúnem os filhos de Deus, no colo do Pai, para ouvir de sua Palavra e comer de seu Pão.

Alegremo-nos, sim, com a Dedicação de São João do Latrão e agradeçamos a Deus pelo itinerário que a Igreja percorre, ao longo dos séculos. E nos recordemos que, em face da presença de Deus, toda morada é provisória e toda casa é insuficiente. Basta, apenas, o aconchego que Ele mesmo preferiu: nosso ser limitado e nosso pequenino amor.

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Por, Frei João Júnior ofmcap

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