Diocese de Uberlândia Reflexões Dominicais

10/04/2016: “De novo, segue-me”

Comentário ao Evangelho do III Domingo da Páscoa: Jo 21, 1-19

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Quem, alguma vez na vida, já se encontrou absolutamente sem rumo e sem esperança, sabe bem o valor daquele que, por um gesto ou uma palavra, nos ajuda a crer de novo. Quem já se surpreendeu perdido e sem sentido para viver reconhece quão importantes são os que nos conduzem de novo à luz e à alegria. E quem já esteve à beira do abismo do desespero, totalmente roubado de si mesmo, com certeza sabe o tamanho da gratidão e do amor que fica em nós por aquele que nos devolveu o nosso próprio coração. Talvez, seja isto que significou para os discípulos o encontro com Jesus de Nazaré: uma luz que brilhou na escuridão de uma vida perdida e desimportante; a possibilidade de que a existência não fosse apenas esse amontoado de dores e de sofrimentos que nos afligem da manhã à noite; a esperança de que ao menos o Pai do céu não se esqueceu de nós, mas nos acompanha nas noites de preocupação, nas madrugadas de ansiedade, nas encruzilhadas de nossos dilemas, sempre nos cercando com seu carinho. Sim, a coragem de erguer de novo os olhos, de endireitar os passos errados, de reencontrar a alegria perdida, de amar… numa festa de comunhão e de partilha da vida – assim viveram aqueles homens e mulheres durante o tempo em que acompanharam o Profeta de Nazaré. A ponto de proclamarem: esse homem é Aquele que, por toda a vida, nós esperamos que viesse!

Não há ternura, porém, que seja sagrada demais para a maldade dos homens, quando cegados pelo ódio. Ou ainda: pisados em nossas pretensões de poder, somos capazes até de furar nossos olhos para não vermos a luz que convida a um caminho diferente. E foi assim, no amanhecer de uma sexta-feira, que os discípulos do Nazareno assistiram, atônitos, ao início do fim de suas mais belas esperanças. Aniquilado no alto da cruz, num meio-dia que se tornou a mais tenebrosa das noites, Jesus levava consigo, sob os véus da morte, a vida de tantos que tinham posto nele sua razão e sua força. Acabou! Restava voltar à vida medíocre de antes e tratar de esquecer logo aquela ilusão de liberdade e aquela embriaguez de alegria.

Entretanto, será possível repercorrer os mesmos caminhos da vida, uma vez que fomos tocados pelo amor? Será realmente possível voltar ao cárcere pelo mesmo caminho que um dia conduziu à liberdade? Os olhos podem se adaptar e se alegrar de novo com a escuridão, depois de ter contemplado a luz? Os discípulos descobriram que não. Pois, não importava onde fossem ou o quanto tentassem esquecer, a presença de Jesus os acompanharia para sempre. E, aqui ou ali, seria possível reconhecê-lo, uma vez mais.

No texto de hoje, um grupo desses homens está voltando ao ofício que sempre executou, aprendido dos pais e dos pais de seus pais, até o dia em que Jesus os encontrara: a pesca. Depois do espetáculo de violência e vergonha experimentado em Jerusalém, querem apenas a dignidade de voltar à vida de sempre – e só. À margem do Lago de Tiberíades, acreditam que poderão de novo contemplar o vento crispando as águas, as madrugadas de espera paciente, as areias da praia sob o sol do meio-dia, ou mesmo deitar redes no mar, sem mais se lembrar de Jesus, o amor de suas vidas, e do caminho de júbilo que trilharam atrás dele, os melhores dias de sua existência. O texto segue muito de perto o chamado desses mesmos homens narrado por Lucas: uma noite de trabalho desmedido, uma manhã de frustração por não ter o que levar para casa. Naquele dia longínquo, vivo apenas numa memória distante, a palavra de um ilustre desconhecido, insistindo que lançassem de novo as redes, mudara suas vidas. E agora?

O dia amanhece. E, novamente, a palavra de um desconhecido. Não mais um pedido, mas uma pergunta que toca o centro de sua dor: “Tendes alguma coisa para comer?”. “Não” – respondem. Não têm alimento, não têm sustento, não têm sustância, não têm sentido. Ainda que o sol já tenha raiado, anunciando o fim do tempo da pesca, a treva daquela sexta-feira ainda envolve o olhar e o coração desses homens. A ponto de não reconhecerem Aquele que lhes fala. O Estranho insiste: “jogai a rede e achareis”. Sem discussão, como quem arranca do desespero as últimas forças ou não faz caso de mais um fracasso, a rede desce de novo às mesmas águas. E volta trazendo a abundância de outros tempos. Impossível vê-la assim tão cheia e não recordar a fartura de vida que experimentaram ao lado de Jesus, a prodigalidade de Deus pregada por ele, a generosidade de sua entrega nas mãos dos homens. Diante da rede abarrotada, como num relâmpago, tudo se ilumina e faz sentido. Os olhos de novo brilham, o sorriso salta, o coração palpita… “É o Senhor!”.

Na praia, nenhuma pergunta, nenhuma explicação, nenhuma dúvida: apenas a comunhão com Aquele que já preparou tudo para nós, mas ainda assim conta conosco, quer de nós, mistura-se com nossa vida – “trazei alguns dos peixes que pescastes”. Comer juntos, nutrir de novo a vida, alimentar os sonhos, fortalecer o vigor cansado, iluminar de novo os olhos, sepultar a dor e contemplar a vida. Isto os discípulos experimentaram: depois de Jesus, suas vidas não podem mais ser as mesmas. Pois ninguém que foi tocado pelo amor continua a viver do mesmo jeito. Depois de amar, tudo se converte em pretexto de se doar, em oportunidade de celebrar, em apelo a encontrar os olhos daquele que nos amou primeiro. Ressurreição: o testemunho de que o amor transpõe os umbrais da morte e enche a vida com aquilo que a torna eterna.

Uma experiência, no entanto, que impõe grandes responsabilidades. “Tu me amas? Então, cuida dos teus irmãos”. Sabermo-nos amados implica amar também; descobrirmo-nos delicadamente cuidados nos lança imperativamente ao cuidado dos outros; sentirmo-nos perdoados nos torna ministros e embaixadores do perdão. Dessa experiência nasce todo o labor cristão: a descoberta do amor que quer amar e fecundar, desde dentro, o coração do mundo; que quer sorver a aflição das lágrimas humanas e devolvê-las em forma de consolo; que quer tomar as feridas do coração e sará-las com seu cuidado.

Como resistir? Assim como aos primeiros, também a nós importa reconhecer o Ressuscitado, não raro no fundo de nossas decepções, no amanhecer de nossos fracassos. E, com os olhos iluminados por esse reencontro, partir de novo, atendendo ao reiterado convite que um dia nos mudou a vida: “Segue-me”.

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Por, Frei João Júnior ofmcap

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