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11/10/2015: Gratuidade do Seguimento

Comentário ao Evangelho do 28º Domingo do Tempo Comum: Mc 10, 17-30

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Desde o início da Igreja, a experiência de fé no Ressuscitado foi compreendida e expressa como um “seguimento”. Ou seja, uma experiência de deixar-se conduzir, de caminhar atrás daquele que nos encontrou, no encontro nos chamou, e no chamado nos animou a seguir seus passos. Palmilhar as mesmas pegadas de Jesus, em santa intimidade e precioso convívio, aprendendo dos gestos e das palavras do Mestre – nisso consistiria a prática da fé cristã. Não sem razão, os primeiros chamaram essa experiência de “Caminho”: o itinerário que cada um percorre, com os olhos fixos naquele que caminha à frente e conduz o discípulo em cada nova encruzilhada. Desse modo de compreender a vida cristã todo, o Evangelho de Marcos dá amplo testemunho.

Desde muito cedo, porém, surgiram dúvidas quanto à simplicidade dessa experiência. Afinal, que fazer da herança judaica da fé, que tantos irmãos da comunidade traziam com grande zelo? Haveria lugar para o cumprimento meticuloso dos mandamentos e de tantas prescrições do judaísmo rabínico? E o tesouro das Escrituras, as numerosas tradições herdadas dos antigos, as severas exigências morais, a assepsia da pureza ritual… estaria tudo isso a perder, diante da simplicidade da proposta cristã? A fé em Jesus Ressuscitado, que reúne os seus numa comunidade de irmãos – seria apenas isso?

Não tardou para que também a fé cristã se robustecesse e constituísse um patrimônio cultural e religioso muito largo, na tentativa de dizer a fé de modo sempre mais adequado, mais compreensível, mais credível e mais amável. Um esforço muito legítimo, mas que também cometeu muitos equívocos. Entre eles, o de cercar a fé com pesadas exigências, rigorosas condições, premissas quase incompreensíveis… E foram muitos os que, ontem e hoje, admirando o vertiginoso edifício que se tornou Cristianismo, já não conseguiam distinguir em seu interior aquele “Caminho” originante, aquele chamado simples, aquele convite singelo ao seguimento de Jesus Cristo. E, entre esses peregrinos do caminho perdido, muitos se foram, em busca de novos rumos…

Talvez, tanto para esses que se foram, quanto para aqueles que ainda permanecem peregrinando sob a luz da fé cristã, este texto de Mc tenha muito a dizer. Jesus retoma o caminho – como é costumeiro em Mc. E eis que vem um homem “correndo ao seu encontro”. Ao chamar Jesus de “bom”, o Mestre logo o corrige: só Deus é ponto de chegada de nossas buscas, de nossos desejos de bondade; só Ele é Absoluto. De modo que, para os peregrinos do Caminho da fé, não há neste mundo ponto de chegada, pois nenhuma realidade pode se mostrar definitiva, completa. Caminhar na fé exige a disposição de olhar para a incompletude da existência com serenidade e esperança. Só em Deus estaremos diante de nossa plena bondade.

A pergunta desse homem é a mesma formulada em todos os corações humanos: “que devo fazer para entrar na vida?” – ou ainda: que devo fazer para me realizar plenamente? – ou mesmo: como posso construir uma felicidade e uma segurança que não sejam ilusões passageiras? É a pergunta pela verdade de si mesmo, do próprio coração, da plenitude da condição humana. À pergunta do homem, Jesus responde com um caminho já familiar, constituído por uma lista de mandamentos, aparentemente aleatórios. O fato de serem seis os item da lista já denuncia sua incompletude. Afinal, também nós sabemos que o simples cumprimento dos mandamentos pode cunhar uma conduta irrepreensível, mas nem por isso necessariamente boa. Bondade e correção moral não se incluem necessariamente. De modo que uma experiência religiosa simplesmente legalista pode até parecer completa, mas a partir do sentido e da realização pode se revelar uma bolha: colorida por fora, vazia por dentro.

O homem insiste, não sem certo orgulho, que tudo isso já pratica desde sua juventude. Essa informação torna sua pergunta inicial (“o que devo fazer?”) ainda mais grave e mais profunda. Que, além dos mandamentos, pode conduzir à verdadeira fidelidade? Jesus percebe a sinceridade da busca daquele homem, pois o texto diz que “olha para ele com amor”. E o “sétimo mandamento” que sai da boca de Jesus (aquele que leva à perfeição os outros seis) é impressionante: deixar tudo, distribuir aos pobres, e segui-lo. “Deixar tudo”: inclusive a pretensa fidelidade aos mandamentos; os méritos de praticá-los meticulosamente; a ilusão daquela perfeição e completude que consistiriam em não “dever nada a Deus”, pois tudo foi cumprido fielmente conforme a lei religiosa. “Distribuir aos pobres”: misturar-se à indigência daqueles que nada têm – nem méritos; saber-se tão necessitado da graça quanto os pequeninos que necessitam de pão; esvaziar-se da soberba religiosa dos perfeitos; renunciar a tudo quanto se interponha entre o coração e o Mistério de Deus, fornecendo-lhe falsas seguranças. “E seguir”: a única exigência e o critério supremo do discipulado de Jesus; a plenitude diante da qual tudo o mais se torna secundário; a fidelidade em cujo seio as pequenas infidelidades se corrigem; a coragem de fixar os olhos somente no Mestre, deixando-se encantar por ele, a ponto de segui-lo, como a um amado, por onde quer que ele vá.

O evangelho termina com uma desilusão e uma esperança. Desiludido, o homem vai embora, talvez desanimado por descobrir o quanto ainda falta caminhar, num caminho que ele já pensava completo. Esperançosos, os discípulos querem saber o que será deles, que se puseram a caminho com o Mestre. Longe de ser um jogo de recompensas e merecimentos (que o texto insiste em desmascarar), a resposta de Jesus revela a misteriosa lógica do Reino de Deus: aqueles que parecem ter perdido tudo, esses na verdade ganharam tudo; e aqueles que parecem ter conservado tudo, na verdade perderam-se até de si mesmos. Pois não há entrega que passe desapercebida aos olhos de Deus, nem mesmo de uma lágrima ou de um sonho. Pois assim cremos: tudo quanto somos e amamos, queremos e sonhamos, construímos e sinceramente entregamos, tudo isso Deus mesmo recolhe e guarda em seu coração, amplo o suficiente para dele nascer a beleza do mundo e a nobreza dos anseios humanos. E, na companhia dele, nem mesmo os equívocos do Caminho são errâncias incorrigíveis. Talvez, sejam apenas caminhos diferentes que conduzem ao mesmo destino.

Que aprendamos de nossos primeiros irmãos a confiança de nos deixarmos guiar por Jesus. E que, diante desse simples imperativo da fé cristã – o seguimento – possamos relativizar tudo o que é realmente secundário, pois mais santo que pareça. Pois a isto ele nos chamou: a segui-lo. Tudo o mais, faremos por acréscimo.

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Por, Frei João Júnior ofmcap

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