Diocese de Uberlândia Em Destaque Reflexões Dominicais

12/04/2015: "Com outros olhos"

Comentário ao Evangelho do II Domingo do Tempo Pascal: Jo 20,19-31

wall_03b

Não existem testemunhas oculares da ressurreição de Jesus. Na memória teológica dos evangelhos, as mulheres e os outros discípulos vão ao túmulo de manhã bem cedo, quando ainda está escuro. E, mesmo que seja ainda madrugada, já não encontram mais o seu Senhor. Na surpresa dos encontros com o Ressuscitado, esses seus amados sempre se dão conta da presença de Jesus vivo, mas sem que ninguém tenha visto o que aconteceu com ele. Por que esse recato dos autores? Que objetivo teria esse mistério sobre o evento mesmo da ressurreição? Por que os evangelistas deitam sobre ele o véu do silêncio e da escuridão de uma madrugada erma? Seria expressão de um sagrado respeito pela ação de Deus? Seria simplesmente uma confissão velada de que ninguém saberia descrever a ressurreição? Ou seria, muito mais, a convicção de que não se pode buscar com os olhos do corpo Aquele que já vive no espírito, tampouco buscar fora de nós Aquele que nos surpreende e toma desde dentro?

As narrativas do Ressuscitado, em sua riqueza de detalhes, possuem muitas semelhanças. Quase sempre, os discípulos não reconhecem o Senhor e, quando finalmente o reconhecem, Ele lhes escapa. Maria Madalena o confunde com um jardineiro; e, quando Ele a chama pelo nome e ela finalmente o reconhece, Ele a adverte de que não pode ser retido (Jo 20,17). Os discípulos de Emaús também caminham com Ele, como com um forasteiro desavisado; e quando seus olhos se abrem diante do pão aberto, as Escrituras também se lhes abrem, seu coração se abre, sua compreensão se abre… mas Jesus ‘des-aparece’ a seus olhos (Lc 24,31). Também hoje, os discípulos estão às voltas com esse “problema de olhos”, com essa “deficiência do olhar”. No meio deles, mesmo fechadas as portas por causa do medo que os aprisiona, Jesus se faz reconhecer, mostrando as mãos e o lado. E Tomé, que não estava com eles, reclama o mais legítimo de todos os desejos: para além das palavras de outros, quer ele mesmo ver Jesus.

Mas será possível vê-lo? Ou melhor, será possível encontrar o Ressuscitado enquanto ainda se procura o crucificado? Os mesmos olhos que procuram Jesus de Nazaré poderão ainda encontrá-lo Ressurgido? Maria Madalena era só pranto, “inclinada para o túmulo”, fazendo conta das faixas e dos lenços enrolados… Foi preciso que ela “se voltasse” (para fora?) para ver o suposto jardineiro. E de novo “se voltasse” para reconhecer por trás da voz que a chamava pelo nome o amor de sua vida. Na estrada de Emaús, ocorre quase o mesmo. Enquanto, chorosos e lamentosos pelo caminho, os discípulos mantiveram os olhos abertos, lembrando-se com detalhe da tragédia de Jesus, não foram capazes de reconhecer seu Mestre. Foi preciso que, em casa, na intimidade de comensais, o pão aberto lhes abrisse o que os olhos abertos não lhes deixavam ver. E, vendo já sem ver, correram de volta a Jerusalém.

Talvez, precisássemos levar mais a sério a advertência do jovem vestido de branco, no evangelho da Vigília Pascal: “vós procurais Jesus de Nazaré, que foi crucificado? Ressuscitou. Não está aqui” (Mc 16,6). “Não está aqui” – ao menos, não do mesmo modo como antes estava, com o rosto disponível a nossos olhos e os braços abertos a nossos abraços. É possível que tanto Tomé quanto nós ainda estejamos presos ao mesmo equívoco: procuramos uma prova da ressurreição; queremos por as mãos nele, tocar suas chagas, quase como quem toca um cadáver; queremos buscá-lo, como Maria Madalena, retê-lo para nós, afagá-lo do mesmo modo como se abraçam os lençóis que o envolviam… Mas nada disso nos é possível. E, enquanto ainda buscarmos Jesus entre os mortos, procurando-o como quem procura um morto, não seremos capazes de reconhecê-lo vivo.

Sim, a ressurreição não teve testemunhas oculares, por uma razão simples: não é possível ver com esses olhos Aquele que já transpôs os limites de nossa história e agora está vivo, em todo lugar. Cabisbaixos e à procura de suas pegadas, veremos, no máximo, os vestígios deixados aqui e ali – meras recordações daquele que um dia amamos. Mas somente quando renunciarmos a essa busca minuciosa de retalhos mortuários, poderemos vê-lo de fato, vivo para sempre.

___________

Por, Frei João Júnior ofmcap

Assine a nossa newsletter

Junte-se à nossa lista de correspondência para receber as últimas notícias e atualizações de nossa equipe.

You have Successfully Subscribed!