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12/06/2016: “Desmedida do amor”

Comentário ao Evangelho do XI Domingo do Tempo Comum: Lc 7, 36-8,3

Perdoar é difícil… – é o refrão que se ouve quase sempre, após as reflexões sobre a misericórdia de Deus expressa em Jesus. Talvez, essa dificuldade tenha pelo menos duas razões. A primeira é que, sinceramente, não gostaríamos de necessitar de perdão. No fundo, carregamos uma pretensão de ser sempre irrepreensíveis e perfeitos, absolutos em todas as palavras e ações, de modo a nunca precisarmos nos desculpar. Reconhecer os equívocos, retomar os enganos, consertar os desacertos são tarefas demasiado humilhantes para nossa arrogância – não raro vestida de santidade e devoção. O pecado parece sujo demais para ser reconhecido, vil demais para ser admitido, baixo demais se comparado aos nossos desejos de elevação. O segundo motivo é que, se dependesse de nós, pagaríamos nós mesmos, com dinheiro ou favores, as ofensas causadas. Ressarciríamos as mentiras, compraríamos as mágoas, indenizaríamos aqueles a quem prejudicamos… Afinal, confiar-se à gratuidade de alguém, colocar-se sob o juízo de sua benevolência e à disposição de seu perdão parece criar em nós uma dívida, um compromisso embaraçoso com alguém que conheceu o que há de pior em nós, aquilo que tanto tentamos esconder. É novamente o orgulho de nossas pretensões infantilizadas à onipotência e ao mascaramento de nossos limites. Assim, seja por medo de errar e precisar pedir desculpas, seja por medo de se encontrar na constrangedora situação de conceder ou não o perdão a alguém que o pede, o resultado muitas vezes é optar por um “caminho médio”: relações brandas e superficiais, polidas e melindradas, em que ninguém erra (o que não quer dizer que acerte), em que ninguém fere (o que não quer dizer que acalente), em que ninguém faz chorar (mas tampouco se comprometa a fazer rir) e em que ninguém ofende (o que não quer dizer que respeite e ame). Nesse “caminho do meio”, quase não há pecados graves, o que não significa que haja necessariamente entrega e doação. Não é à toa que esse caminho pode se transformar na mesquinhez da autopreservação, em que alguém, por exemplo, por medo de perder um precioso perfume, se o encarcera bem trancado no fundo de um frasco. O perfume não se perderá, mas tampouco perfumará.

Não é essa a situação de Simão, o fariseu do evangelho deste fim de semana? Um homem irrepreensível, imaculado, perfeito o bastante para se arvorar juiz da mulher “pecadora” que adentra sua casa sem convite (como?) e do próprio Jesus, seu convidado e “mestre” (Lc 7,40). Um autêntico representante do “caminho médio”, às vezes consagrado como “caminho da virtude”: correto, em paz com a própria alma, sem dúvidas, ajustado perfeitamente aos limites da Lei de Moisés. A seu favor depõe a própria vida indefectível que leva. Não tem do que se envergonhar, não tem do que pedir perdão. Exceto por uma coisa, que Jesus põe às claras: sua perfeição lhe fechou o coração, amesquinhou sua generosidade, fez com que se esquecesse daquela ternura que nos arranca para fora de nós mesmos e faz com que nos desmanchemos em cuidados com o outro. Somente essa dinamicidade, própria daqueles cientes que ainda estão a caminho, permite olhar para além das aparências e compadecer-se daqueles que também não estão ainda prontos, às vezes perdidos nas travessias da vida. Os errantes e os peregrinos se reconhecem mutuamente, se solidarizam nas dores da mesma jornada, acolhem os cansaços uns dos outros, remendam reciprocamente as feridas do caminho. Apenas aquele que pensa já ter chegado ao pódio pode se esquecer da dureza do caminhar e crer-se superior àqueles que se aproximam caminheiros, cobertos de suor e de pó da estrada.

Mas aquele que transpôs as barreiras do orgulho e necessitou alguma vez pedir perdão, após uma ofensa muito grave, sem ter nenhuma garantia a oferecer a não ser as lágrimas de verdadeiro arrependimento, sabe muito bem o milagre que li se realiza. E está apto para compreender a mulher deste evangelho. O texto não diz o que Jesus fez por ela, quando a encontrou, se é que esteve com ela ou se ela apenas o ouviu na sinagoga ou nas praças. Mas ela vem, mesmo diante dos olhares reprovadores e escandalizados dos virtuosos, derramar sua gratidão aos pés de Jesus. Nada nela fala do “caminho do meio”: ela foi extravagante nos pecados (assim dizem os cidadãos) e agora se mostra extravagante no amor (assim diz Jesus). Como acontece frequentemente conosco, essa mulher deve ter errado na tentativa de acertar, se perdido na busca de se encontrar. E pecou com abundância – assim dizem seus convivas. Mas, uma vez tendo fitado os olhos de Jesus, lança-se com a mesma desmedida no amor, experimenta o perdão como refrigério aos passos cansados da jornada da vida, só pode agora espalhar amor e gratidão por onde passar – assim diz Jesus. Sim, a fé salvou essa mulher de seus pecados, mas sobretudo salvou-a do pecado de uma observância estrita da Lei, do pecado de contentar-se apenas com o não errar (mesmo que isso não signifique acertar), do pecado de se gloriar do mínimo exigido. Pena que Simão, o fariseu, não tenha se deixado salvar pela mesma fé.

Que a fé em Jesus afaste para longe nossos medos, sobretudo aquele medo de errar que nos prende à segurança do mínimo necessário e castra nossa generosidade. Que, pelo contrário, a fé nos lance corajosamente no amor, ainda que nos equivoquemos aqui e ali e precisemos de perdão. Pois, segundo o profeta Jesus, é melhor que nos aproximemos dele trazendo as feridas de nossas buscas e de nosso amor do que as glórias de nossas pretensas virtudes e de nossa mesquinhez.

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Por, Frei João Júnior ofmcap

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