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12/07/2015: "Uma leveza possível"

Comentário ao Evangelho do XV Domingo do Tempo Comum: Mc 6, 7-13

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Há dentre os muitos mitos modernos um, no qual a maioria de nós crê: o mito da leveza. Nas relações e na vida cotidiana, seria possível levar uma vida soft, sem responsabilidade pelos que cativamos, sem compromisso com a palavra, enquanto promessa. A leveza, nesses termos, é confundida com superficialidade, com negligência, ainda mais quando se trata de manter o próprio bem estar. Se o outro tornar-se um incômodo, devo descartá-lo. Busca-se uma alegria descomprometida, prazeres fugazes e repetidos, empenha-se por sustentar uma imagem cool, descolada, longe das questões radicais e provocantes da vida, mascarando as incertezas que “mascam” nossa alma.

Heidegger estava certo, ao menos quando dizia; leva-se tempo para forjar o espírito (geist) em sua fibra, autenticidade e profundidade. E, talvez por isso, entre tristezas, tenhamos que reconhecer que, cada vez mais, conviveremos com pessoas torneadas fisicamente, mas frágeis na musculatura interna. E essa oposição nem careceria de existir, já que o exterior deve ser a visibilidade de nosso mistério.

E, se há algo que o evangelho que narra o envio dos doze (Mc 6, 7-13) nos pode ensinar, é que instalados em nós mesmos, fixados nessa espécie de “sedentarismo do bem estar” em que vivemos, não forjaremos espírito algum.

Depois da proposta do evangelho marcano, a de que os discípulos permanecessem com o mestre e, em seguida fossem enviados (cap.3), finalmente Jesus envia os seus dois a dois. A itinerância dos discípulos não revela apenas o caráter missionário dos seguidores de Jesus, nem simplesmente o caráter missionário da Igreja pós-pascal, mas também dá a conhecer a realidade humana; desinstalada em si mesma; em percurso contínuo de amadurecimento; crescendo à companhia de outros, aprendendo de encontro em encontro; experimentando a acolhida e a rejeição.

O mandato de Jesus implica também dominar os espíritos impuros, com autoridade. Seria possível fazê-lo, sem reconhecer as próprias sombras? De modo algum. Reconhecer as próprias dinâmicas demoníacas é condição para identificá-las à nossa volta, no outro e lançar luz sobre elas. Nesse mesmo sentido, o mandato de não levar nada pelo caminho a não ser o cajado e as sandálias, também parece ser um indicativo para livrar-se dos pesos desnecessários, do dispensável que nos atrela e que nos impede a liberdade do anúncio.

A comunidade de fé não será missionária se estiver prendida a alianças espúrias, só para manter-se; apegada a esquemas ou pesos antigos; arrastando verdades irrevogáveis, assim como os discípulos não o seriam, caso não fossem capazes de exercer o cuidado do Pastor (cajado), com a liberdade de filhos (sandálias). Se nem pão, ou mochila, ou calçados, ou túnicas devem ser preocupações fundamentais, quase como se, assim, Jesus nos dissesse que a imprevisibilidade da vida guarda em seu bojo o essencial, tanto menos teriam importância ideias, alianças ou verdades, ou ajuntar ressentimentos quando não somos amados. Todo esse peso deve ser deixado para trás, bem como a poeira dos nossos pés.

Ajudar os corações perdidos a se encontrarem (penitência), ajudar as pessoas a se integrarem (expulsar demônios), enxugar as lágrimas e ajudar com que elas recuperem a verdadeira dignidade (ungir os enfermos); esse é o ministério da Igreja missionária.

Talvez a leveza, ou a grandeza do espírito, se encontre aqui: na densidade da vida. Na saída de nós mesmos (a maior das missões); no convívio saudável e na partilha da vida (dois a dois); no reconhecimento das próprias desagregações (expulsar espíritos imundos); na hospitalidade e no encontro autêntico com as pessoas (ir às casas), no amor dado, ainda que possa ser recusado (saí dali); na acolhida – às vezes doída – da imprevisibilidade da vida e não no apego às coisas (não levai duas túnicas) e na solidariedade definitiva ao próximo e ao necessitado. Outras levezas, por mais belas e interessantes que sejam, são insustentáveis…

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Por, Pe. Eduardo César

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