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12/10/2014: "Tudo o que Ele vos disser"

Comentário ao Evangelho da Solenidade de Nossa Senhora da Conceição Aparecida: Jo 2, 1-11

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Um casamento sem vinho, nos confins perdidos da Galileia, aos olhos de uns poucos discípulos, a convite de noivos anônimos e sob a perplexidade confusa de alguns convidados também sem nome – esse foi o cenário escolhido pelo Evangelho de João para o começo da “glória” de Jesus. Um itinerário que nos é conhecido: até o capítulo 12, o evangelista apresenta sete “sinais”, em que Jesus demonstra quem ele é, em que consiste a missão que recebeu do Pai e, o mais importante, convida a que seus discípulos creiam nele. Pois este é o objetivo do sinal: despertar a fé, fazer com que os discípulos creiam que Jesus veio do Pai e para o Pai retorna; mas, enquanto vive “na carne”, nos dilemas da existência humana, assume em si mesmo a nossa vida e a redime. Porque os sinais nos preparam exatamente para contemplar a “glória” de Cristo, pendente da cruz. Uma glória avessa às pompas passageiras do mundo e, exatamente porque despida de toda hipocrisia e fingimento fugaz, sustentada por Deus mesmo.

Mas hoje, de modo especial, nossos olhos recaem sobre a figura da “mãe de Jesus”. O Evangelho de João não a chama “Maria”, mas sempre a “mãe de Jesus”. E ela aparece apenas em dois momentos: aqui, no casamento em Caná da Galileia, e aos pés da cruz, diante do filho que morre. Ou seja, no “primeiro sinal” e no maior de todos os sinais; no começo e no fim do caminho do Filho.

São numerosas as interpretações que reconhecem neste texto de Caná uma “intercessão de Maria a Jesus”, quase como se Jesus não fosse se manifestar sem a interferência decisiva e eficaz da mãe. Certamente, não se trata disso. A imagem do casamento remonta a Aliança de Deus com seu povo. Pois era assim que o povo se sentia: desposado por Deus, coroado com diadema real, escolhido como nação santa e esposa do Senhor. Uma relação religiosa que, tal como um casamento, implicava obrigações e fidelidade por parte de ambos. De Deus, bem sabemos, só se pode esperar fidelidade. Do povo e de nós… nem sempre.

E o texto parece insinuar isso mesmo. Pois, no casamento, falta vinho. Um casamento estranho, então. Como pode faltar vinho numa festa? A explicação vem em seguida: as “seis talhas de pedra, usadas para purificação”, estão vazias. Esses potes deveriam guardar água para os rituais da purificação dos convidados que vem testemunhar a Aliança – mas estão vazios. E o fato de serem de pedra fazem lembrar a Escritura antiga, entregue a Moisés em “tábuas de pedra” – estariam também vazios os antigos mandamentos? O autor é severo: parece que sim. A Aliança foi esvaziada pela infidelidade; a Escritura esvaziada pela desobediência no espírito. Que sobra, então, desse casamento, ou seja, da Aliança que um dia Deus propôs ao seu povo? Para João, nada. Não sem razão, as talhas são seis, que representam a imperfeição que ainda espera ser plenificada…

Na festa, não se mencionam os noivos. Apenas dois nomes próprios: Jesus e Caná da Galileia. Então, começamos a compreender: Jesus é o noivo da nova Aliança. Em Jesus Cristo, Deus desposa de novo seu povo (Caná ou Canaã) e refaz o pacto de fidelidade que um dia prometera. Com Jesus, não há mais talhas vazias de água, mas talhas cheias de vinho bom, suficiente para regar a festa por muito tempo… o que equivale: em Jesus, nos é dado sustento para a fidelidade ao Pai. E o texto termina afirmando que “os discípulos creram nele”. Tomara que também nós creiamos e assumamos na vida essa fé.

E a mãe? Na festa do casamento, como até hoje, a mãe não tem a primazia, mas está sempre em função do filho, do noivo. Em Caná, também a mãe de Jesus está em função do Filho, que se oferece como Noivo da nova Aliança. Ela entrega o Filho aqui, no primeiro sinal, para entregá-lo definitivamente na cruz, o supremo sinal. Assim, mesmo sem querer, talvez João nos possa ensinar uma preciosa lição: tudo na Igreja, inclusive os sacramentos, as autoridades, os santos e as leis, tudo se refere a Cristo e está em função de Cristo – até a devoção a Maria.

Hoje, a Virgem Aparecida pode bem nos lembrar que Deus se faz presente na história dos seus amados, sempre. E como testemunha fiel que percebe os sinais dos tempos, as talhas vazias, ela nos convida a fazer o que ele disser para que a aliança com ele se renove. Se a antiga mulher, a primeira delas, disse “não” a Deus e ainda seduziu seu companheiro a fazer o mesmo, agora, a mãe de Jesus, a nova mulher, nos convida a dizer nosso sim, fazendo tudo o que Jesus nos diz. Que fique certo: em todos os tempos, em todos os lugares, mesmo nas situações de maior infortúnio e sofrimento, como num “casamento sem vinho”, o mistério de Cristo se faz presente e a fé é expressa como esperança de vida. Basta ficarmos atentos aos sinais da presença de Deus e “fazer tudo o que ele nos disser” e vinho novo e bom do evangelho não nos faltará.

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Ao celebrar a Virgem Negra, que expressa tão bem a fé e a esperança do povo brasileiro, façamos o compromisso de renovar nossa Aliança com o Deus que nos desposa por causa do seu amor. Que a Virgem Maria, qual mãe amorosa, sinal do amor de Deus, nos guarde e nos convide ao seguimento de Jesus. E que as Bodas de Caná nos soem como apelo à fidelidade àquela Aliança de amor que nos foi oferecida em Jesus, fazendo tudo o que ele nos disser.

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Por, Frei João Júnior ofmcap

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