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13/04/2014: Realizados na frustração

Comentário ao Evangelho do Domingo de Ramos:

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Por mais estranho que pareça, é preciso admitir que seguir Jesus pode ser muito decepcionante. Nesse longo caminho que se estende desde os primeiros discípulos até nós, não foram poucos os que abandonaram a eira do seguimento por se virem profundamente frustrados em suas expectativas em relação ao Mestre. Durante sua vida, Jesus desapontou os que esperavam o uso da força, a reação violenta, a instalação ostensiva do Reino, a sobrepujança, o recurso ao poder e àquela opressão supostamente necessária às grandes reformas. Mas o risco dessa frustração não se deve somente aos diversos messianismos esperados em Israel. Pois também entre nós e ao longo de nossa história como Igreja, Jesus continuou a desapontar a todos quantos pretenderam fazer dele o patrono da rigidez legalista que sufoca a vida ou das “guerras justas” que semeiam morte sob hipócrita aparência religiosa; da segregação entre irmãos por critérios de pureza moral ou da extensão de um poder dito religioso sobre a vida civil; da invasão das subjetividades e do constrangimento da liberdade de consciência. Ainda hoje, há quem se descubra repentinamente desiludido ao se deparar com um Jesus incongruente às manipulações ideológicas, ao imperativo do lucro ou à necessidade artificial de uma felicidade igualmente artificial, que se resume ao bem-estar próprio e à ausência de perturbação e sofrimento.

Sim, muitos ao longo de nossa história – e quem sabe nós mesmos, ao longo de nossa vida – podemos ter nos enganado radicalmente sobre quem é Jesus e sobre o que esperar dele. Afinal, em que consiste a salvação que ele nos traz? O que constitui a vida que ele nos propõe? Em que se mostra a escolha que fazemos por ele, ou ainda, em que essa escolha se mostra distinta de outras tantas, disponíveis ao longo do caminho? Em resumo, que tipo de Cristo é o Jesus que seguimos? Essas perguntas não são importantes porque sugerem respostas longas e convincentes pela erudição teológica, mas porque nos mantêm de olhos abertos e fitos naquele a quem seguimos. Do contrário, talvez estejamos dedicando a vida a uma ilusão, a uma simples fantasia religiosa, a um fantasma construído a partir de nossos desejos infantis – uma ficção que, desfeita em sua irrealidade, nos mostre que caminhamos seguindo apenas a errância de nossa cegueira.

Entretanto, não há engano que resista à contemplação da cruz. Ali, em face da crueza das misérias humanas, da traição, da violência e da maldade estendidas às últimas consequências, o compreendemos de modo inequívoco Pois a espiral de injustiça que se move no mundo não pode ser vencida com outra injustiça ainda maior, mas pela suprema misericórdia. Assim como a força e a maldade não são vencidas por uma força ou uma vingança ainda maiores, mas pela serenidade, a mansidão e o perdão. Do mesmo modo como a bestialidade mais vil não se vence com atos igualmente bestiais, mas pelo amor e a largueza do coração. Por fim, que a condenação e a submissão compulsória não requerem uma reação de igual natureza em sentido contrário, que só perpetuariam o jogo da maldade, mas exigem uma atitude de suprema entrega e doação. Com Jesus, aprendemos: somente a generosidade desvencilha do egoísmo, somente a gratuidade desmascara a ambição e apenas o amor pode lançar fora o medo. Talvez por isso a liturgia deste Domingo de Ramos, abrindo esta santa semana, nos traga dois textos evangélicos tão distintos: o triunfo da entrada em Jerusalém, em que se evidencia a messianidade de Jesus, e a aparente derrota da paixão no Calvário, na qual transparece em que consiste o seu ser Messias – a vitória do Ressuscitado.

Que nos lembremos, portanto, de quem é Jesus, a quem seguimos e o qual chamamos Cristo. E que, chamando-o nosso “Senhor” e nosso “Mestre”, nos recordemos das implicações de seu sincero seguimento.

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Por, Frei João Júnior ofmcap

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