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14/06/2015: "Lógica Estranha"

Comentário ao Evangelho do XI Domingo do Tempo Comum: Mc 4, 26-34.

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Diante da barbárie, da banalização da morte e da extenuação da desumanidade, é praticamente impossível manter a confiança na vida e nas pessoas. Há quem brade, contra esse colapso, que é chegado o tempo da definitividade de nossa história; que são sinais do apocalipse. Outros, mais proativos, procuram empenhar todos os esforços a fim de construir o mundo da justiça e da paz, desalentados por perceberem sua demora, angustiados com a possibilidade dos trabalhos serem irrisórios. Ainda há aqueles que gostariam de forçar o advento dessa nova vida violentamente, extirpando o que é mau (e quem o decidiria?) e eliminando os que erram. Já percebemos, pois a história mesma nos mostrou, o quanto tais tentativas foram descuidadas e irresponsáveis.

Quando virá aquilo que nós cristãos chamamos de Reino de Deus? Já são mais de dois mil anos, desde o anúncio de sua proximidade. Embora o anúncio apostólico tenha sido competente e a Igreja o continue, inclusive enquanto Reino de Cristo já presente em mistério (LG 3). Embora haja tantos trabalhadores silenciosos na semeadura do Reino, não vimos ainda seu crescimento, como o de uma árvore frondosa, capaz até mesmo de abrigar os pássaros. E, porque o que não é visto é desacreditado, o ainda-não do Reino fica desdourado pelo seu “já”, tão desbotado.

Entretanto, diz-nos Jesus, talvez a terra não seja tão má quanto avalia nossa apressada análise, nem tão despreparada, que não possa fazer florescer em seu segredo aquilo por que ela mesma anseia, desde o seu alvorecer. A semente também, embora nossa preocupação demasiada o contradiga, tem um dinamismo próprio e, para longe de toda neurose, talvez o caso seja só este: a semente encontrar a terra. Assim seria também com o Reino de Deus; os apocalípticos não podem prever seu aparecimento futuro, os angustiados não precisam eliminar a própria vida para fazê-lo existir, nem é preciso forçar seu advento, pois ele já está acontecendo em nós, conosco e apesar de nós. Acontece aonde a Palavra chega à terra, ela mesma palavra e, deitando no fundo de nossos anseios, sonhos e medos suas raízes, sai rasgando a nossa vida com palavras-de-vida-verdadeira, capazes de transformar a nossa história.

O Reino de Deus, portanto, cresce – a seu tempo e discretamente – nas profundidades de nosso coração e de nossa história. Se ainda não vimos seu crescimento, é possível que tenhamos descuidado do que é pequeno. Armadilha cruel de nossa inteligência e emoção: ignorar o apoucado, aquilo que não é prometedor. Emboscada para todos que querem o Reino de Deus: esquecer o trivial; que entre as banalidades se esconde o indispensável e que nós só podemos trabalhar por esse Reino se atentos à vida que se esconde nos fragmentos exaustivos de nossos dias. Lógica estranha a de Deus: escolher o menor, o frágil, o esquecido, o raso, o pecador, aquele que ninguém mais escolheria ou veria, para fazer a sua obra; desencravar dos dramas de nossa história a sua glória, preferir o que o mundo julga fraco e louco para fazer acontecer o seu reinado. Enfim, fazer o seu Reino florir da pequenez da semente.

E se o problema, afinal, não for a inaparência do Reino de Deus, ou sua discrição? E se, na verdade, o Reino de Deus, em sua dinamicidade própria, for mesmo uma árvore frondosa, sob a qual poderíamos abrigar nossa vida? E se a nossa vida – nossa história pessoal e comunitária, nosso corpo – já for o Reino de Deus? Por que ainda não o vemos na transparência de sua realidade, então? Ora, não é só porque ainda aguardamos seu ‘ainda-não’, mas, sobretudo, porque nos faltam olhos para ver, ouvidos para ouvir… De outro modo, não menos verdadeiro: “não é a luz que está em falta conosco: nossos olhos é que se furtam à luz. Faz-nos falta não a Fonte, mas sede para encontrá-la; não o Amor, mas o desejo de amar” (Leloup).

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Por, Pe. Eduardo César

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