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15/03/2015: "Nos avessos da fé"

Comentário ao Evangelho do IV Domingo da Quaresma: Jo 3, 14-21

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Muitas características tornaram o povo de Israel completamente singular, entre tantos povos da antiguidade. A maior delas, talvez, seja o modo como esse povo tomou consciência da própria história e interpretou à luz da fé o seu peregrinar através dos tempos, nas conquistas e derrotas de sua gente. Todo o Antigo Testamento, de algum modo, dá testemunho dessa “consciência histórica da fé”, em que os acontecimentos da vida são acolhidos e vividos como possibilidade de uma teofania, de uma manifestação de Deus. Israel aprendeu a ler e reler sua história na intimidade do mistério de Deus.

A intimidade pode revelar muitas coisas ocultas. Não por mágica ou esoterismo, mas pela proximidade que possibilita ver por dentro, que ensina a escutar e desvendar silêncios, que ajuda a compreender sonhos, que alfabetiza na difícil tarefa de ler os avessos. Porque todo “direito” tem um “avesso” e toda palavra que explica, naquilo que efetivamente diz, termina por também encobrir um sentido, naquilo que necessariamente não diz. Penetrar a intimidade de alguém permite o delicado acesso aos recônditos mais secretos de sua alma e exige a delicada tarefa de reverenciar esses segredos. Do mesmo modo, adentrar a intimidade do mistério de Deus, pela fé, pode abrir um mundo totalmente novo, revelar sentidos aparentemente absurdos e convidar a compreender a vida e o mundo a partir do sonho de seu autor. Não seria exatamente este o convite da quaresma: apurar olhos, ouvidos e coração para contemplar, de perto e com toda a sua surpreendente novidade, o mistério da páscoa de Jesus?

O evangelho de hoje nos coloca diante desse dilema. Jesus será “levantado”. Mas que isso significa? Para os que acompanham de fora, Jesus será levantado no madeiro da cruz. No lenho da condenação, estará exposta a completa vergonha de um fracassado, a desoladora solidão de um abandonado, a terrível frustração de um inconsequente, o trágico fim de um amaldiçoado, o merecido castigo de um alucinado – a incurável ferida de um criminoso que ousou desafiar uma imutável ordem sagrada. Mas a ambiguidade do “levantar” convida a adentar o “avesso” da fé. Pois, a partir da intimidade do mistério, nos surpreendemos: lá onde todos acreditavam levantar, com a força da própria tirania, a cruz do suplício, lá mesmo o Pai erguia seu Filho como sinal vitorioso do amor cuja incondicionalidade chega às últimas consequências. Levantado uma vez para a morte, Jesus foi levantado de uma vez por todas de entre os mortos. Nele, o Pai pronunciou seu juízo sobre o mundo: a defesa do injustiçado. Como luz na escuridão, assim Jesus foi levantado dos mortos na morte, para dar esperança aos os que andam na escuridão e anseiam iluminar-se; e para desmascarar os que escondem nas trevas sua perfídia.

Que adentremos a intimidade do mistério da páscoa de Jesus, com todas as suas consequências. Que aprendamos a ler nossa própria vida como relato sagrado em que Deus mesmo nos acolhe e nos salva, mesmo nos avessos e nos reveses da fé. E que a cruz de Jesus, vista a partir da intimidade da páscoa, nos ajude a discernir entre as trevas e as luzes que, nas ambiguidades de nossa vida, permanentemente se confundem.

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Por, Frei João Júnior ofmcap

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