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15/06/2014: "O mistério da Trindade"

Comentário ao Evangelho do Domingo, Solenidade da Santíssima Trindade: Jo 3, 16-18

santrindade

Se for verdade que não falamos dos segredos de Deus sem confessar os segredos do nosso próprio coração… Se, afinal, fazer teologia, ou seja, fazer o discurso sobre Deus for uma maneira de falar e pensar a vida… Se, enfim, crermos que Deus não é um ser “em-si”, como alguém fechado e impassível…  Se crermos, ao contrário, que Ele é por nós, totalmente voltado para nós, revelando-se na história que quer fazer conosco… Se tudo isso for verdade, teremos de assumir, então, que a festa que celebramos – a festa da Santíssima Trindade – não é a festa de um conceito, tampouco a festa de um milagre matemático, em que a soma de três pessoas resulta em uma só. Antes de tudo, o mistério que celebramos é a festa de uma Relação, de uma comunhão perfeita que nos cobre, nos interpela e nos inspira.

Deus é Pai. Poderíamos dizer também: é Mãe. É aquele que ama e que por isso não abandona. Ele escuta o clamor de seu povo, ouve suas queixas (Ex 2, 24), ‘desce para libertá-lo’(Ex 3,8). A experiência fundante do povo de Israel foi esta: Deus é libertador e caminha conosco, vive em nosso meio, perdoa nossos pecados e nos acolhe (Ex 34, 9). Mantém-se fiel diante de nossas infidelidades, persistindo em sua Aliança (Os 11, 8s). Mostra-se como primeiro fundamento de tudo; pois tudo é obra de suas mãos. Um Noivo fiel (Os 3, 1), uma Mãe que nos coloca em seu regaço (Is 66, 12s), um Pai que nos acolhe em seu abraço (Lc 15,20), o Criador que deixa em todas as suas obras, seus traços, como um pintor que se expressa em seus quadros.  Deus Pai, portanto, se revela como mistério da proximidade e do cuidado, do amor exigente, que trabalha sempre, criando e recriando o que é belo, bom e verdadeiro.

Deus é Filho. É a graça derramada sobre nós, como a chuva que orvalha a terra seca (Is 55, 10s). Sua missão é salvar; foi para isso que o Pai o enviou (Jo 3,17). O primordial dessa salvação, entretanto, não é livrar-nos do pecado, mas inserir-nos na relação com o Pai. Cristo nos filia Nele, a fim de que a nossa vida, pessoal e comunitária, seja um habitáculo do amor e da paz; um jardim (Jo 14, 23), outrora perdido, mas que pode ser reencontrado se O deixarmos conduzir-nos qual Pastor conduz seu rebanho por verdes pastagens, bem como o sustenta e protege nos vales sombrios, dando a vida por ele (Sl 22; Jo 10, 15). E, porque o pecado nos impede de dar esse salto de confiança, ou impede de nos envolvermos inteiramente na relação com Deus, Jesus o derrota na cruz. Deus Filho, portanto, se revela como mistério da proximidade definitiva, da compaixão como exigência do amor; do amor salvador (Lc 10,33; Lc15, 20; Mc 6,34).

Deus é Espírito Santo. Espírito de Cristo (Rm 8,9), Espírito de Deus (1 Cor2, 11), Espírito de adoção (Rm 8,15). Espírito de sabedoria, de inteligência, de conselho, de força, de ciência, de piedade, de temor de Deus (Is 11, 2). Ele enche o mundo (Sb 1, 7); é bom (Sl 142[141]), guia (Sl 50), santifica (1Cor 6,11). Esse Espírito é recebido por herança (Ef 1, 13-14). Jesus no-lo dá como o outro Consolador (Jo 14, 16), aquele que vai continuar em nós Sua obra, que nos vai tornar matéria-viva de cristologia; é a inspiração que faz falar a Palavra que somos, em continuidade à Palavra do Pai, que foi Jesus Cristo. O Espírito, para isso, ensina (Jo 14,26), sopra onde quer e como quer (Jo 3,8), suscita carismas (1 Cor 12, 11), faz apóstolos, profetas, evangelistas, doutores (Ef 4,11), envia (At 13, 4), ilumina (Jo 14, 26), porque quer fazer de nós templos (1 Cor 3, 16; 6,19). O Espírito Santo nos diviniza (1 Cor 3,16), nos faz perfeitos (Jo 16, 13), operando o que Deus opera (1 Cor 12, 4-6. 11). Afinal, que outra coisa querem o Pai e o Filho, senão que inspirados pelo mesmo Espírito que os move, participemos da comunhão íntima da Trindade? Deus Espírito Santo que dá a vida, portanto, revela-se como o mistério da proximidade íntima, mais íntima a nós do que nós mesmos; é o amor santificador.

Não há Pai, se não houver Filho. Não há o Amado, se não houver Quem ame. Não há o Ungido se não houver Quem O assinale com a unção. Assim também, não pode haver relação entre o Pai e o Filho, se não houver entre eles um espaço de diferença, que possibilite chamar ao Pai de Pai e ao Filho de Filho. Espaço de diferença, mas ao mesmo tempo, laço de amor. Desse modo, não há Amado, nem Amante se não houver o Amor entre eles. Não há o Ungido, nem Quem o marque com a Unção, se não houver a própria Unção. O Espírito é, portanto, diferenciação, laço, amor, unção.

Não há Criador, sem Palavra (Cristo). Não há Palavra que possa ser dita, sem respiração, sem ar (Espírito). Não há Palavra encarnada, sem ação do Espírito, sem a vontade do Pai. Nem Salvação haveria, se o Espírito de Deus – espírito de justiça e misericórdia – não operasse em Jesus, se o Pai não autorizasse seu Cristo e, antes, não o tivesse enviado. Não nos seria dado o Espírito, se ele antes não tivesse sido dado ao Filho e nele agido durante sua vida; se o próprio Filho não tivesse sido ressuscitado pela força do Espírito. Não haveria o segundo Consolador (o Espírito Santo), se não houvesse o primeiro (o Cristo). Não haveria obra santificadora que continuar, se ela não houvesse sido engendrada desde o primeiro “faça-se” de Deus, na criação.

 A história da Trindade – se é que podemos dizê-lo – é a história de nossa salvação. É a história em que Deus põe-se ao nosso lado. É a graça de uma proximidade contínua, às vezes despercebida, silenciosa, sentida como presença ou como ausência, como alegria ou como ‘noite-escura’, experimentada no “alto das montanhas” ou nas “profundezas dos abismos”. Proximidade que forja em nós a grandeza que nós somos chamados a realizar: nossa humanidade.

À distância, diante de nós, dentro em nós, Deus é aquele que nos circunda, abraça e impulsiona. A festa dessa Relação, entretanto, jamais estará completa, enquanto todo homem e toda mulher não se sentir convidado a ela. Não porque a Relação da Trindade não seja perfeita; mas porque Deus abriu à mesa de sua Comunidade um lugar para nós, junto ao seu Filho, dando-nos um Espírito que nos leva a chamá-lo de Abbá.

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Por, Diácono Eduardo César

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