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15/12/2013: "da Alegria do Evangelho"

15 de dezembro de 2013/ 3º Domingo do Advento

Não seria, sem dúvida, muito difícil transformar a religião numa tirania. Naturalmente, isso implicaria trair tudo o que de mais fundamental ela representa – o que não torna essa prática menos possível e nem menos recorrente. Jesus o compreendeu bem e se opôs a toda expressão religiosa que transformasse o tesouro da tradição de Israel num peso sobre as espinhas já encurvadas dos mais pobres, sofredores e excluídos da pureza legal (cf. Mt 23).

"ficai atentos, pois não sabeis a que horas o esposo virá" Mt 25,13
“ficai atentos, pois não sabeis a que horas o esposo virá” Mt 25,13

Entretanto, não obstante as advertências severas de Jesus, esse risco ainda ronda as comunidades de seus discípulos e não são poucos os que, ontem e hoje, experimentam a fé cristã como instalação tirana de um poder sagrado sobre a fraqueza das misérias humanas, crendo salvar o mundo exatamente condenando-o, à deriva do Evangelho de seu Mestre, que opôs condenação e salvação (cf. Jo 3,17). Para os condenados, para as vítimas que se deixam sacrificar, esse anúncio, mesmo que admitido, representará qualquer coisa, menos uma “boa notícia”: será tolerado, mas não aceito; consentido, mas não acolhido; ouvido, mas não aderido.

Talvez por tudo isso e para recordar o sentido legítimo da fé vivida como advento, como expectativa vigilante e esperança desejosa, a liturgia proponha um domingo do “Alegrai-vos”, recolocando a alegria como sinal característico daqueles que esperam pelo Senhor que, ao mesmo tempo, já veio e que ainda vem. É, pois, significativo que, em muitas comunidades, o penúltimo domingo desse curioso tempo de Advento seja recebido com cores róseas. Inusitado? Talvez, mas ricamente simbólico. Pois até a quietude e o recolhimento, tão caros à espiritualidade cristã quando bem compreendidos, podem se perverter em rispidez, sisudez ou condenação. Convém, pois, recordar com alegria o sentido dessa espera, a melhor de todas as boas notícias: um Senhor que nos vem ao encontro com uma Palavra de consolo, de acolhida, de vida plena. Ao convite de sua Palavra, “os cegos recuperam a vista, os paralíticos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados” (Mt 11,5), cada qual segundo sua necessidade. Escandaloso, certamente (Mt 11,6), até para João Batista, que preferiria descrever a vinda do Senhor mais como fornalha abrasadora em vez de uma festa (cf. Mt 3,12). Daí a necessidade de converter-se para crer no Reino proposto por Jesus.

Portanto, que este Advento não nos deixe esquecer as razões mais profundas de nossa esperança; e que a necessária sobriedade não se oponha à alegria da boa notícia que nos modificou a vida. Pois o Advento não existe para si mesmo, como tampouco a expectativa encontraria em si mesma seu fim. Que vivamos este tempo na alegria de uma realização que já se dá a nós, embora não ainda.

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Por, Frei João Júnior, OFMCap

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