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16/08/2015: "Derradeira Esperança"

Comentário ao Evangelho da Solenidade da Assunção de Maria: Lc 1, 39-56

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Nos limites simples da lógica, somos uma contradição irremediável. Aos olhos da fé, uma tensão e um dinamismo que nos tornam semelhantes ao próprio Deus. Afinal, somos infinitamente menores que as estrelas, muitíssimo mais breves que as eras, mais frágeis até mesmo que as pedras calcadas sob nossos pés. E, mesmo assim, trazemos em nós um coração que parece querer abarcar o universo inteiro, amar sem medida e sem limite, desconhecendo distâncias e transbordando de saudades. Um infinitude se equilibra sobre nossa fragilidade; um instante inteiro de eternidade lança raízes em nossa curta história; e, em seu desejo de profunda transcendência, nossa interioridade força os limites estreitos da existência. É como se trouxéssemos em nós os anseios do mundo e a ânsia de sua realização. Assim somos, assim nos fez o criador: pequeninos como a poeira da terra e portadores das nobres delicadezas da beleza e da verdade. Ou ainda, a síntese amorosa entre os vigores do mundo e ternura do céu.

E haveria um propósito para esse elaborado trabalho da natureza e da graça? Por que a vida, qual milagre de pequeninas providências, encontrou em nós tamanha abertura e largueza do espírito? Por que, na história de nossa pequenina Terra, fomos gestados entre tantas maravilhas, quais guardiães do cuidado, capazes de tomar a todos os seres como alteridade e de amá-los como o próprio o Criador os amaria? Acaso nossa vida foi gerada apenas para a brevidade de sua curteza, para enfim se apagar em permanente escuridão? É possível… pois assim gira a existência de tudo no universo. Até as estrelas aparentemente eternas, um dia, regressam à escuridão de seu nascedouro. A fugacidade parece realmente o único modo de ser neste mundo e nesta história. Mas seria apenas isto o nosso destino: desfazer-se no nada? Mergulhar no abismo da morte e afogar-se no mar do esquecimento? Acaso existimos apenas para uma solidão e um abandono definitivos?

Ao tocarmos esse temido limite, parecem haver mesmo muito mais perguntas que respostas. E se as perguntas são robustas e vigorosas, as respostas se mostram poucas e reticentes… com a humildade própria da fé. Uma luz, porém, pode resplandecer para nós a partir de Jesus de Nazaré.

Os evangelhos se lembram da morte de Jesus com uma dupla impressão. Por um lado, a solidão desoladora de quem se vê diante do precipício do fracasso e da morte. “Meu Deus, por que me abandonaste?” – Marcos nos diz ter sido a derradeira palavra de Jesus, pendente da cruz. Lucas, entretanto, recorda uma entrega confiante de Jesus, como gesto último: “Pai, em tuas mãos entrego meu espírito”. Cada qual a seu modo, os dois relatos expressam o paradoxo da morte do Filho de Deus, que pode ser também o dilema de nossa vida e de nossa morte: a solidão e o abandono de quem atravessa as paragens áridas do próprio coração terrivelmente só – pois somente cada um de nós sabe, sempre de modo parcial, os limites da própria alma; mas também o aconchego de uma Esperança que nos acolhe no último instante, pois nos espreitava desde o fundo das estreitezas do mundo e para além das maldades humanas. A partir de Jesus de Nazaré e de um encontro com o Cristo Ressuscitado, a fé nos assegura que é possível violentar a nossa dignidade, mas não arrancá-la de nós. É possível negar a alguém as condições de sua subsistência, mas não apagar sua nobreza e roubar sua liberdade. Enfim, que é possível encarar os grilhões da dor e da morte com rosto sereno e cabeça erguida, descobrindo a cada instante os alicerces da eternidade.

No fundo, talvez seja essa a esperança que celebramos na festa da Assunção de Maria. Nela, contemplamos o destino de todos nós – aquele mesmo que já tínhamos reconhecido em Cristo: a vida em sua plenitude. Em Maria, recordamos que todos partilham o destino do Filho de Deus, uma vez que a ressurreição de Jesus não foi um privilégio exclusivo, mas primícias de um futuro já disponível a nós na verdade da esperança. E, assim cremos, do mesmo modo como o Pai do Céu levantou seu Filho da morte e assumiu inteiramente Maria, também dará conosco. E nada do que somos ou amamos se perderá para sempre. Pelo contrário, será recolhido e guardado numa vida que não tem fim.

Que a Assunção de Maria nos fortaleça na fé e na esperança de sermos assumidos por Deus sempre e todos os dias, até o momento em que ele assumirá integralmente tudo o que somos e amamos. E que essa terna esperança nos convide a acolhermos nas pequeninas coisas o Mistério que nos acolhe inteiramente em seu seio.

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Por, Frei João Júnior ofmcap

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