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17/05/2015: "Ascensão ou Realização?"

Comentário ao Evangelho da Ascensão do Senhor: Mc 16,15-20

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Não é fácil desligar-se do pensamento dualista. Trabalhamos constantemente com oposições que, se olharmos bem, não são tão irreconciliáveis quanto pretendemos em nossos discursos. Conhecemos de longa data os malefícios do dualismo corpo-alma, por exemplo, que legou à nossa história de fé um capítulo verdadeiramente sombrio, sobretudo no tratamento da nossa corporeidade e nossa sexualidade. Ainda hoje, colhemos as consequências desse dualismo. Não é diferente quando falamos de Deus e homem, apresentando um como transcendente, outro como imanente; ou quando opomos céus e terras e seus mistérios; ou ainda a Igreja e o mundo; a poesia e o conceito; a ciência e a fé; o dentro e o fora. Ora, há que se distinguir, pois a análise só trabalha de forma geométrica. Mas convenhamos: estamos realmente falando de realidades opostas?

Que o corpo, por exemplo, seja a visualidade do nosso mistério e a alma o segredo de nossa corporeidade; não seria isso possível? E que transcendência e imanência sejam duas realidade que se interpenetram naquilo que o homem realmente é; transparência (L. Boff), isso também não seria possível? Ou que céus e terras tenham intercambiado seus dons; não é nisso que cremos? E que a Igreja está no mundo e é irmã do mundo, mesmo da parcela que nega e despreza a Deus; não é isso verdade? Não seria a poesia, uma espécie de conceito aberto ao extremo e em movimento, enquanto o conceito seria a poesia cristalizada? O que está dentro e o que está fora não têm certa correspondência?

Nesse sentido, é também provável que a subida de Jesus aos céus não seja oposta à sua encarnação em nosso meio, embora constituam momentos distintos. Porque a ascensão, a subida de Jesus aos céus, não é nada senão a realização, o cumprimento daquilo que ele desceu para fazer: incluir-nos no seio da Trindade, carregar nossa humanidade e colocá-la à direita de Deus (Ef 1, 20). Superar as dualidades aqui seria o mesmo que deixar de opor ‘alto’ e ‘baixo’, ‘céus e terra’, ‘Deus e homem’, ‘subida e descida’. “Nem precisamos ficar olhando paro o céu” (At 1, 11), dir-nos-á a escritura, já que Cristo nos envia para a missão e continua conosco por seu Espírito. Sua subida não é a nossa orfandade, mas a nossa realização e, enquanto caminhamos assumindo-a, aguardamos abraçá-la um dia, definitivamente. Com efeito, esperamos a segunda vinda de Cristo, enquanto nós mesmos caminhamos ao seu encontro, ou: ele volta, à medida que vamos até ele, conformando nossa vida à dele, expulsando o mal, comunicando a todos uma boa-notícia, desenvenenando as pessoas e evitando as peçonhas desse mundo, curando as enfermidades do egoísmo e da indiferença (Mc 16,17-18). Ou melhor: ele volta, em nós. Sua ida, portanto, aos céus, é o mesmo que sua descida à nossa gesta e palavra, pela força do Espírito.

Descendência (ou encarnação) e Ascensão, descida e subida são movimentos distintos, enfim, mas não dualismos, porque há uma interpenetração que os conecta: a humanidade de Deus desce, para que a humanidade do homem suba na humanidade do homem-Deus; ou nas palavras do teólogo russo Paul Evdokimov: “A humanização de Deus e a deificação do ser humano são eventos correlativos. […] Decifra-se a verdade do ser humano, falando não apenas de Deus ou apenas do homem, mas do Deus-Homem”.

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Por, Pe. Eduardo César

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