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18/05/2014: "Caminho e Verdade para a Vida"

Comentário ao Evangelho do 5º Domingo da Páscoa: Jo 14, 1-12

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O Evangelho desse domingo está situado após o texto da última ceia, quando os discípulos começam a perceber que, de fato, o Mestre já não ficaria muito tempo entre eles. Entre o anúncio da negação de Pedro e a iminência de uma traição, a tristeza começava a insurgir; o que seria deles sem o Senhor? Jesus, quando nota a reação dos seus, põe-se a animá-los, pedindo-lhes que não se perturbassem e que tivessem fé Nele e no Pai, Aquele que não deixa ninguém desolado, sozinho ou sem-lugar. Pois é o próprio Pai que, permanecendo em Jesus, realiza suas obras (Jo 14, 10). Jesus é o caminho a verdade e a vida que levam a Deus; nosso lugar definitivo é à Sua direita, aonde Jesus foi sentar-se, preparando nosso derradeiro destino.

Na narrativa, Jesus ainda se encaminha para os seus momentos finais. No entanto, vivemos o tempo litúrgico da páscoa e é nesse contexto que ouvimos esse evangelho. Poderíamos, então, nos perguntar: de que modo aquilo que Jesus disse se realizou e continua se realizando?  Ora, nós sabemos que a morte arranca nosso chão. Talvez por conta de sua silenciosa aproximação, nunca sentimos que estamos no lugar em que deveríamos estar e, continuamente desejamos que a vida seja diferente de tudo que ela apresenta; que seja bela, livre de injustiças e maldades (u-topia= não lugar). Do mesmo modo, a morte desnorteia não só os que a enfrentam explicitamente, mas os que fogem dela, buscando qualquer caminho, geralmente caminhos que acabam por conduzir, ironicamente, a ela. Não há verdade que se sustente diante do poder da morte, que cala todas as vozes, que reduz tudo ao esquecimento… Seu irrevogável decreto faz-nos desacreditar da vida, que parece não ter sentido, afligindo-nos: é preciso viver o excesso de cada instante, sorvê-los sem deixar passar nada, pois a vida se esvai e escoa com a mesma fragilidade com que a água evapora.

A ressurreição de Jesus não suspende a morte, mas enuncia um cordato “não se perturbe”, proclama um corajoso “tende fé em mim” e desbanca com a mesma discrição com que a morte se aproxima, os poderes que a morte exibe. Como?

O lugar que Ele nos preparou.  Com sua ressurreição, Jesus nos mostra a nossa destinação final. Abre-nos o acesso a Deus carregando nossa humanidade para dentro do seio divino. Deus é o nosso lugar. A casa espaçosa e de muitas moradas. Mas, enquanto não vamos para a nossa derradeira morada, podemos viver essa vida encontrando no lugar em que estamos, as potências ocultas de vida e realização, que não estão adiadas para um futuro indefinido, simplesmente. Somos filhos do eterno, mas isso não nega essa vida, enquanto graça e tarefa. A ressurreição de Jesus nos leva a descobrir a própria vida como lugar de relação e fraternidade e nos conduz na construção do ‘aí’ de nosso ser, com afinco, enxergando na realidade não apenas suas limitações, mas também os acenos da presença do próprio Deus. A utopia, nesse sentido alimenta nossa topia e a nossa liberdade deixa de ser abstrata para ser encarnada. Que poder a morte tem contra quem se debruçar assim sobre a vida?

O caminho que Ele nos abriu. Pior do que estar desnorteado é não ter caminho algum. Por outro lado, grandes homens abriram grandes itinerários e seria triste que todo ser humano ao ser lançado na vida tivesse de recomeçar tal empreendimento. Podemos seguir por vias já abertas, sim, sem nos eximir de construirmos nossa própria trajetória. Jesus nos abriu o caminho; estrada larga, dentro da qual é possível abrir inúmeros outras. Por sua ressurreição, compreendemos que toda vida é um percurso a ser trilhado; um decurso que vamos construindo e abrindo a cada dia. Os ventos contrários podem até nos impedir de continuar a abrir nossa estrada, mas não podem destruir o que já foi feito. E uma trilha meio aberta, já é melhor do que nenhuma. A via de Jesus também não é nenhum método de iluminação, nenhuma escada interior, mas sua própria vida como sentido, como a possibilidade de abrir sendas entre nós. O caminho de Jesus nos leva a um Encontro conosco mesmos, com o outro, com Deus. Quem poderá dizer, então, que a via que abríamos foi interrompida pela morte, se a meta à qual a estrada levava já se antecipava no caminhar?

A verdade que Ele ensinou. Jesus não ensinou teorias. A verdade não é um conteúdo, mas Ele mesmo. Sua ressurreição nos mostra que sua Palavra e Ação eram autorizadas pelo próprio Deus e que a Verdade a seguir é deixar transparecer em nós a lógica divina. Que descrédito a morte poderá lançar contra uma verdade que não está no terreno da teoria, mas da vida que se dá, perdendo-se? No dar a própria vida, o terror da morte empalidece e perde o vigor… Se guardarmos a própria vida, a semente que somos não dará frutos e, assim, temeremos para sempre a morte e sua ameaça de roubar o que não é nosso.

A vida que Ele nos deu.  Há muitos motivos para desconfiar da vida, entretanto, será preciso trabalhar arduamente para desencravar, do medo e da perturbação, o júbilo que a ressurreição plantou em nós. Afinal, se essa vida receberá como paga, a palavra final da morte, convém, pois, dar àquela nossa atenção e cuidado, nosso zelo e responsabilidade, nosso carinho e nossa fraternidade. Se a vida será interrompida a qualquer instante, será preciso não protelar a própria felicidade nem tampouco deixar de construí-la conjuntamente. Mas a vida que Jesus nos deu faz-nos atentar para essa vida, a fim de que a outra possa se abrir não para compensar as tristezas desta nem para retribuir uma retidão que custa sangue, mas enquanto fruto do que construímos nesta. Onde estará a morte diante de uma vida totalmente ocupada com o viver?

Finalmente, enxergamos que Jesus não só consola os seus, mas nos oferece o caminho e a verdade para que a nossa vida seja realmente vivida. Marcados pela ressurreição de Cristo, não deixamos de morrer, nem de sentir saudades pelos que partiram, mas podemos descobrir uma nova coragem de viver, uma boa notícia que nos arranca o medo, que nos dá fé, confiança, que nos livra da perturbação. Tudo, porque, não morre quem já aprendeu a morrer. Melhor: vive para sempre quem não poupa a própria vida para que a Vida seja, para todos, abundante.

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Por, Diácono Eduardo César

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