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19/04/2015: "Aquelas marcas"

Todos nós possuímos alguma cicatriz. Alguma marca bastante visível, ou que tentamos esconder a todo custo. Alguma ferida estancada pelo processo de renovação biológico, mas que deixou seu rastro, ali. Há cicatrizes na alma também; aquilo de que nos lembramos com frequência, mas já não dói mais, pois o tempo tratou de sanar. São aquelas marcas que o impulso de vida que nos habita tratou de estancar, igualmente. Nem sempre, porém. Há feridas que não cicatrizaram e que não deixamos sarar, sempre às voltas com elas, remexendo-as com algum comprazimento. E não é só em nossa história pessoal que encontramos cortes latejando ou cicatrizados, mas também na história da humanidade, das instituições, dos lugares. Como visitar, por exemplo, um campo de concentração em Auschwitz, sem se sensibilizar com as dores que um dia ocorreram naquele espaço? E será que o tempo poderá curar todas as feridas, afinal? Há quem diga que basta esbarrar numa ferida fechada pelo tempo, para que ela comece a sangrar novamente…

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Os evangelhos nos mostram, de forma bastante catequética (entenda-se aqui: humana), que os discípulos que seguiam Jesus de perto também tiveram de enfrentar suas próprias feridas. Com os olhos marejados de lágrimas, procuravam entre os mortos o Ressuscitado. Alguns fizeram a experiência do Redivivo, de sua presença sanante, capaz de estagnar a decepção e curar as chagas que sua morte causou. Mas alguns só ouviam dizer, sem terem feito experiência eles mesmos. As cicatrizes não se tinham fechado por inteiro.

Eis, pois, que os discípulos estão reunidos mais uma vez. Ouvem de dois outros discípulos sobre o encontro que tiveram com o Cristo, a caminho de Emaús, quando retornavam para a casa do desapontamento. Os outros só podiam ouvir aturdidos. Até que Jesus se coloca novamente no meio deles. Uma aparição assim não extirpa todas as dúvidas, mas causa confusão e medo… De fato, são necessários outros olhos para ver Jesus realmente Vivo em nosso meio. É quando abandonamos nossas buscas por “retalhos mortuários” ou por fantasmagorias; quando permitimos que a paz expulse de nós a tristeza que nos açoita e crucifica.

E, então, Jesus diz: “vede minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo!”. Que ele traz em suas mãos e seus pés, senão suas chagas? Cicatrizes da violência e da maldade humana, de sua rejeição radical, lembrança de que seu amor derramado até a última gota foi ignorado… Marcas do abandono de Deus… Marcas que agora o identificam. Deus se revela também nas cicatrizes que ousamos ignorar, mas que Jesus, com a honestidade do coração (coragem), mostra como provas da vulnerabilidade de seu amor e da sua força de Vida inestancável. Deus se revela transformando as feridas; as marcas da morte são transubstanciadas em marcas de Vida. Nossas feridas e fragilidades também nos constituem e nos identificam. Mais: Deus se escreve em nós, transformando-as em dom. Contudo, ainda é possível ficar às voltas com as chagas e, por isso, talvez não sejam precisos apenas outros olhos para encontrar o Ressuscitado, mas também outro tato.

Os evangelhos são ágeis em nos dizer que os discípulos compreenderam que Jesus havia ressuscitado dos mortos. Mas o tempo não foi a única terapia para as chagas que se abriram na esperança que os movia. Aliás, o tempo não cura nada. O tempo pode fechar as feridas, mas é o amor quem realmente cura. Apenas quando os discípulos “veem” a razão de sua dor, “tocam” o motivo de sua saudade; mas, principalmente, quando guiados e restaurados pela Presença do Amor que eles acreditavam ter se ausentado para sempre de suas vidas, também eles ressuscitam. Então, podem anunciar para sempre não uma mensagem de ressentimentos, mas de perdão e paz. Não uma mensagem de dor e saudade, mas de alegria e júbilo. Não uma mensagem de superação psicológica da ausência, mas uma Boa-Notícia sempre viva, sempre presente, que abraçou o sofrimento e o transmutou em salvação.

Que essa, enfim, possa ser nossa esperança: ouvir de Cristo o que também nós lhe podemos falar: “Quando eu estiver contigo no fim do dia, poderás ver minhas cicatrizes, e então saberás que eu me feri e também me curei”. (Tagore)

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Por, Pe. Eduardo César

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