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20/04/2014: "No primeiro dia da semana…"

Domingo de Páscoa – Reflexão ao Evangelho: Jo 20, 1-9

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A morte de Jesus parecia ter representado para seus discípulos o fim do sonho mais lindo que eles sonharam, a saber: o de que há, para além de nossa pequenez, de nossas fraquezas e maldades, um mundo de beleza e de alegria, onde os homens poderão sentar-se ao redor de uma mesa e como convivas, companheiros, irmãos mesmo, comerem do mesmo pão e beberem do mesmo cálice. Era como se o sonho agora, fosse apenas e nada mais do que um pesadelo: tudo o que Jesus havia combatido, tudo aquilo que ele denunciara, havia se voltado contra ele, numa trama macabra.

Mas para quem viveu a vida com ternura e vigor, para quem amou e ensinou a amar; para quem traçou a vida em largueza de espírito e coração, as estreitezas de um túmulo não podem ser a última morada. É o que os discípulos de Jesus vão notando aos poucos, na lentidão que nos é própria. Porque a morte não pode vencer a presença que nos fez ser mais, aquilo que nós realmente somos: humanos.  E, ainda que nos sobrevenha a tristeza de uma dura saudade, a ausência jamais será realmente ausência, mas uma outra forma de presença.

Os homens que em sua trama de injustiças e impiedades, que por medo ou indiferença, lançaram no nada da morte os profetas, os mártires, todos aqueles que morreram defendendo a liberdade, o amor, a verdade e a fraternidade, jamais destruíram quem essas pessoas realmente foram, pois, não assassinaram a própria liberdade, o próprio amor, a própria verdade e a própria fraternidade. E, mesmo que tenham pregado na cruz o corpo de Jesus, não lhes foi possível retirar-lhe a vida, pois Ele bem o sabia: a vida está em Deus e só a Ele pertence.

O evangelho tirado de João, que meditamos nessa Páscoa, mostra-nos Maria Madalena indo ao túmulo chorar a ausência do Mestre, no primeiro dia da semana. A figura dessa mulher não é apenas a da discípula; não é simplesmente  a imagem da noiva, que pela noite procura o amado de sua alma, pelas ruas e praças (Ct 3, 1-13), mas é o retrato da alma humana (ânima) que mergulhada em suas noites, chora a saudade de um tempo de outrora. Era ainda madrugada quando Maria vai ao túmulo: não é que não tenha despontado o sol, apenas, mas trata-se de uma cifra para que saibamos que de dentro das noites mais tenras; das saudades mais densas; das lágrimas que caem fundo, segredadas em nosso coração… De dentro das noites mais tristes de nossas vidas, quando entre os mortos estão aqueles que amamos; das obscuras ideias de que a morte sabota tudo que ainda poderia ter sido mais; do medo sombrio que nos assalta dizendo que a vida é nada… Enfim de dentro de todas essas noites, silenciosa, uma força opera, germinando em nós potências ocultas de vida, fazendo rebrotar depois de toda lágrima, o sorriso; fustigando com o primeiro calor da manhã as sombras enregeladas da saudade; fazendo descobrir que aos olhos do amor, todos os túmulos estão vazios. Pois do mesmo modo que tudo nessa vida chega ao fim, é justo que o fim da vida, com sua pretensa palavra final, encontre também o seu próprio fim.

Enquanto Maria caminha em direção ao túmulo, ela mesma se identifica um pouco com aquele lugar, fechada em tristezas, um pouco morta. Ao chegar até ele, vendo-o aberto, ainda não descobre que também aberta sempre esteve sua alma, aberta de esperança, de desejo de que o Mestre não estivesse mais lá. Tal esperança estava sepultada até aquele instante… Por isso a caminhada de Maria nos ensina algo sobre a nossa caminhada de discípulos: não parar na dor, não sucumbir à maldade, mas esperar contra toda esperança. Deus, acaso, deixa sem resposta as esperanças que ele mesmo suscita?

Quando Maria avisa aos outros discípulos que o corpo de Jesus fora retirado do túmulo, o próprio texto trata de desmenti-la: o lenço da cabeça está cuidadosamente enrolado em um canto, bem como as faixas mortuárias também estão por ali. Um ladrão precisaria desembalar Jesus para roubar seu corpo? Dois discípulos, então, correm ao túmulo; a um, João o chama de discípulo amado, o outro é Pedro. O discípulo amado vai mais depressa. Quem é esse que dá vazão ao amor e corre veloz impulsionado apenas pelo coração, desejoso de encontrar o Mestre? O apóstolo por trás do evangelho de João? João, filho de Zebedeu? Lázaro? Sabemos apenas que ele é a testemunha por excelência; aquele que sabe que Jesus não se abalou com a traição de Judas (Jo 13, 25-25), o que ficou aos pés da cruz (19,35) e que agora vê e acredita (20, 8). Talvez seja um personagem de identificação, no qual possamos nos ver. Afinal, só seremos verdadeiras testemunhas de Jesus, quando formos capazes de não fugir às cruzes. Finalmente: quando, superando toda dor e tristeza, formos capazes, isso sim, de entrar no túmulo, mesmo entre o temor e o tremor e, crer que já não se encontra entre os mortos, o Senhor da Vida.

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Por, Diácono Eduardo César

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