Em Destaque Reflexões Dominicais

20/09/2015: "Maturidade do Reino"

Comentário ao Evangelho do 25º Domingo do Tempo Comum: Mc 9, 30-37

crianças-brincando

Seu nome é o mesmo do deus grego das florestas. Mas trata-se apenas de um menino que se negou a crescer. Entretanto, tinha algo de fascinante: podia voar, a partir de pensamentos felizes. Unindo-se a uma fada muito amistosa (às vezes), a três crianças que o ajudam a redescobrir sua sombra e aos meninos perdidos, todos vivem aventuras na Terra do Nunca, onde enfrentam um pirata perigoso e um crocodilo faminto. A história de Peter Pan foi criada por James Matthew Barrie, mas de onde teria nascido essa inspiração, para inventar um protagonista que tivesse horror a crescer? Os psicologizantes disseram que Barrie escrevia sobre seu irmão, David, que aos treze anos morreu patinando no gelo. A mãe dos rapazes jamais teria se recomposto, mas encontrou consolo na ideia de que tendo morrido jovem, seu filho permaneceria assim para sempre. Barrie teria, então, criado a imagem de um menino que nunca se tornava adulto e, também por isso, nunca se adulterava, baseando-se no irmão. Tornar-se adulto seria o mesmo que esquecer como voar…

Ainda assim é o processo natural da vida: crescer. A fase da primeira infância é a que reserva as mais profundas transformações ao ser humano e prepara aquilo que seremos: grandes, maduros, independentes. Nessa fase está em intenso desenvolvimento nosso corpo, nossa psique, nossa sociabilidade. É evidente: num mundo pensado e “inventado” por adultos, as crianças estão ainda em processo de maturação. Ora, é a ambição, por assim dizer, de todo infante: amadurecer, ter independência, poder “fazer a barba” ou “maquiar-se”, dizer autonomamente o que quer. Mas basta chegar à idade adulta e o alargamento biopsicossocial encerrar-se-ia? O que as crianças têm, a saber, o fato de ainda estarem abertas a um processo, à mudança, ao vir-a-ser de tudo – e que nunca cessa – não as difere de tantos adultos que já se acham prontos, acabados? Os crescidos não podem admitir fragilidades, inconstâncias, inseguranças, têm que possuir as respostas para todos os porquês, tudo saber, tudo poder. Isso é ser adulto? “No chão” da própria vida, esquecer-se do sonho, da fantasia, desencantaram o mundo; isso é ser adulto? Esquecer-se da própria sombra, perde-la para sempre e estar às voltas com “piratear” pelo mundo com suas cobiças, com seus egoísmos. Importa quem é o maior, o melhor. Isso é ser adulto?

Pois não nos enganemos também quanto às crianças. Elas já não são mais inocentes (se é que o foram algum dia). Nem são livres de competições e da matemática da natureza que desde os primeiros anos já está presente nas comparações, nos jogos, nas competições, brigas e brincadeiras maldosas. Não estão também “dessexualizadas”, como se a sexualidade fosse um mal da vida adulta e a inocência estivesse profundamente ligada à ausência de desejos. Não seriam marmanjos em miniatura, portanto? Só no jeito de ver dos adultos…

Jesus, no evangelho, ao ver os seus discípulos, todos bem crescidinhos, discutindo sobre quem é o maior, ensina-lhes que quem quiser ser o maior deve ser como o menor de todos. E tomando uma criança, faz dela referência e se identifica com ela; quem acolhe a um dos pequenos é ao maior que está acolhendo, a Jesus mesmo. Que teriam as crianças de especial para Jesus, finalmente?  Estaria ele propondo um caminho às avessas: da maturidade para a infantilização? Ou uma dependência total de Deus, a ponto de deixarmos nos guiar por Ele, sem termos de fazer nada, apenas chorar, resmungar, dar birra, vociferar quando queremos alguma coisa, assim como fazem as crianças e assim como sugerem alguns religiosos sem se darem conta do que propõem? Nada disso… Aliás, para os judeus, as crianças não tinham nada de puro. Legalmente eram consideradas impuras, porque não podiam cumprir com as obrigações religiosas. É a preferência de Jesus pelos que não podem ser justificados pela lei… Mas seria só isso?

Jesus identifica seu destino, pois sabe qual é o fim de todos os profetas. Anuncia, pois, pela segunda vez, sua paixão. Os discípulos ainda estão cegos (por isso, há curas de cegos intercaladas aos anúncios da paixão), porque não reconheceram que Jesus é um messias diferente. Têm em mente o poder, quem dentre eles é o maior, discutem e disputam. Mas, no fundo, dormem neles sonhos nutridos desde a infância: a libertação de seu povo. São meninos perdidos atrás de Jesus, acreditando que ele vencerá o império com sua força e domínio. Que esse homem tem, para agora, uma vez mais, lembrar que há morte, que há fracasso e que seu messianismo vai por esse caminho? Não entendem e ignoram; pensamentos tristes impedem o voo

Então, assumindo a postura de Mestre, Jesus lhes ensina: sim, é verdade que esta vida é um lugar de sonhos e fantasias, da liberdade do voo, mas nunca sonharemos os sonhos mais lindos e nem faremos essa vida mais humana apenas de olhos fechados, presos aos encantamentos e às ilusões; é preciso ter olhos bem abertos diante das dores desse mundo, diante da morte. Crianças ou adultos, jamais estaremos prontos, jamais estaremos definitivamente acabados e, por isso não há maiores ou melhores… Enquanto adultos é bom reaprender o encantamento de a tudo redescobrir, inclusive à vida que abraçando a morte, dissolve seus grilhões…  E, mesmo que haja cruzes que possam abater o nosso voo mais lindo, enquanto houver quem acolha os pequeninos, enquanto houver esse amor que se identifica com os desvalidos, desamparados, os sem mérito; enquanto houver serviço a esses que já estão esquecidos ou que nunca foram ensinados sobre sua dignidade, esse sonho possível, o de Jesus, jamais será sonhado apenas como se fora uma Terra do Nunca, algures, mas se fará concreto; verdadeiramente, um Reino de Deus…

________________

Por, Pe. Eduardo César

Assine a nossa newsletter

Junte-se à nossa lista de correspondência para receber as últimas notícias e atualizações de nossa equipe.

You have Successfully Subscribed!