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20/10/2013: "oração inoportuna"

Seria possível que, depois de conhecer os meandros da ciência e da técnica, do conhecimento e da sabedoria, alguém ainda preferisse a ignorância e o erro? Seria imaginável alguém que perscrutasse os grandes princípios da ética e os imperativos da moral, e ainda assim se entregasse às más ações e prejudicasse seu próximo? Ou ainda alguém que praticasse piamente a religião, com todas as exigências rituais, as práticas morais e os atos de piedosa devoção e, mesmo assim, não temesse a Deus e desconhecesse seu mistério? O início da parábola de Jesus parece admitir essas perigosas possibilidades, pois nos coloca diante de um “juiz injusto”, incapaz de fazer aquilo para o qual foi designado e confiado – a promoção da justiça – e que se mantém resoluto por lhe faltar simultaneamente respeito às pessoas e a Deus.

Dou outro lado do contraste novelístico, típico das parábolas de Jesus em Lucas, uma viúva. Desamparada primariamente por sua condição de viuvez, desde algum tempo peleja às voltas com um adversário, contra o qual pede justiça. A busca insistente dessa mulher, que não tem mais ninguém por ela, e a recusa pertinaz desse homem, que não precisa de ninguém, pois basta-lhe a própria injustiça, os colocarão frente a frente. Finalmente, “por muito importunar”, a mulher lhe arranca a justiça devida. E o evangelista emoldura a parábola, informando que Jesus a conta para que os discípulos “compreendam a necessidade de orar sempre”.

A primeira leitura concluiria: é necessário, pois, rezar sempre para, tal qual a mulher ao juiz, cansar Deus com nosso palavrório e conseguir dele os favores necessários. O que reforçaria, agora no capítulo 18, uma similar interpretação do capítulo 11, em que uma parábola semelhante adverte a necessidade da constância de quem reza (o amigo importuno e insistente que pede pão no meio da noite; o pai que não oferece ao filho uma pedra em vez de pão ou um escorpião em vez de ovo – cf. Lc 11,5-13).

Seria mesmo isso? Pois, se assim for, um olhar atento a nossa volta revelará uma realidade perturbadora: os males e as maldades, as doenças e os sofrimentos diversos, a sedição e injustiça, a mentira e a perdição, os desastres e as desgraças, a morte – tudo por falta de oração insistente e fervorosa de muitos? Ou da recusa teimosa de Deus em atender as preces suplicantes de seus fieis? Ou ainda, como postulam alguns, efeitos de um plano criterioso de um Deus que espera salvar o mundo por meio de incontáveis suplícios?

Contudo, se inafiançável é a morte, ainda que tentemos adiá-la, e inevitáveis são os sofrimentos desta vida, mesmo que os evitemos tanto quanto possível, por que ainda orar? Talvez, exatamente por essas mesmas razões. Como exercício sincero de fé, a oração não possui poderes mágicos de transformar o mundo, mas pode tocar os corações e produzir neles as mudanças necessárias às urgentes transformações que o mundo espera de nós. Incapaz de reverter pragmaticamente uma tragédia, a oração pode fazer ver com os olhos de Deus e reconhecer, para além das realidades mais trágicas, a oportunidade do exercício da solidariedade com os que sofrem ou da “paciência que gera constância, prova a fidelidade e faz nascer a esperança, que não engana” (cf. Rm 5,1-5).

É válido lembrar que, no capítulo 11, Jesus concluía a parábola dizendo: “tanto mais o Pai enviará o Espírito àqueles que o pedirem” (Lc 11,13). Desta vez, termina com uma advertência: “quando vier o Filho do Homem, encontrará ainda sobre a terra?” (Lc 18,8). Quem sabe, seja para isto mesmo que rezamos: para nos mantermos abertos ao Espírito, disponíveis a seus apelos, fieis a sua inspiração; dispostos a dirigir nossa vida, em seus sofrimentos e alegrias, guiados sempre pela luz da ; insistentes em amar; desejosos de perdoar; dispostos a agradecer; para nos tornarmos sempre mais incansáveis em buscar o bem e mais teimosos em manter viva a esperança.

oracao-do-bem

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Por, Frei João Júnior, OFMCap

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