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21/02/2015: “Ao despertarem, viram…”

Comentário ao II Domingo da Quaresma: Lucas 9,28-36

Domingo II da Quaresma, ano B

De um lado, Moisés. Retirado das águas, como nos conta a narrativa bíblica (Ex 2, 10), ele exerceu a missão de libertar o povo da escravidão do Egito, acompanhando-o em sua caminhada pelo deserto, onde se forjou a tão difícil liberdade – aquela que não nasce simplesmente de emancipações territoriais ou conjunturais, mas que brota, sobretudo, desde dentro. A bíblia chega a dizer que Moisés é “mais humilde do que todos os homens da face da terra” (Nm 12,3). Sua figura conjuga a firmeza do profetismo (Ex 5,11ss) e o exercício sagrado dos sacerdotes (Nm 7,89). Temos aqui um interlocutor entre Deus e os homens, a fim de lhes dar a conhecer e discernir o que, entre os percalços e distrações, muitos não viam.

De outro lado, Elias. Segundo a tradição judaica, profeta fiel a Deus e avesso, com todas as suas forças, a cultos idolátricos. Seu próprio nome o prova (Elias: “Meu Deus é Javé!”). Exerceu com coragem sua profecia, anunciando que a injustiça do Rei Acab não tinha passado despercebida aos olhos de Deus (1Rs 21,19ss). Na casa da viúva de Sarepta, fala de um Deus capaz de alimentar seus filhos, em meio à carestia (1Rs 17,10ss). Também é capaz de defender a vida do filho da mesma viúva (1Rs 17,20), orando para que ele ressuscite. Sua figura conjuga a coragem, a sensibilidade e a força reanimadora de Deus.

Entre um e outro está Jesus. Entre dois profetas, o profeta por excelência. Libertador da escravidão definitiva, do “último faraó” (1Cor 15,26), ele forja nossa liberdade mais radical; aquela que nasce no encontro responsável com o outro. A humildade de Deus (cf. Fl 2,6-11), a própria autocomunicação do Pai (Rahner), Jesus nos carrega uma vez mais para a relação com Deus, religando tudo o que estava separado dele. Fazendo-nos redescobrir o essencial, com a coragem de sua profecia, denuncia as injustiças e tudo aquilo que impede o Reino de irromper. Alimenta famintos, cura doentes, ressuscita mortos; ele é a Ressurreição e a vida (Jo 11,25). Finalmente: a coragem intrépida frente aos desmandos da religião e do Império; a sensibilidade diante dos mais sofridos e a força reanimadora de Deus para todos. Realmente, a narrativa acerta ao colocar Jesus entre aquelas duas figuras, pois a partir das imagens antigas, os que estavam próximos de Jesus viam descortinar-se o novo; a plenitude do antigo. Aparecia diante deles, o autorizado do Pai, o mediador definitivo; não um novo Moisés nem um novo Elias, mas o próprio Filho de Deus.

Entretanto, há um último segredo para Jesus estar entre estas duas figuras. De Moisés diz-se que “não se lhe escureceram seus olhos, nem se lhe abateu o vigor” (Dt 34,7) e de Elias diz-se que desapareceu aos olhos do que o viam, arrebatado pelos céus (2Rs 2,11). Depois de toda luta, decepção, entre as alegrias e tristezas dessa vida, as Escrituras não sabem muito sobre o derradeiro fim desses homens. Deixam entrever, porém, a esperança de que Deus é a última morada para os eternamente viventes. Também a morte que Jesus sofrerá em Jerusalém, não será capaz de arrancar a força de sua Palavra, a vivacidade de seus feitos. Enfim, não será capaz de destruir sua vida.

Pois também isto fica claro para todos os que seguem Jesus de perto (Pedro, Tiago e João), a saber: na intimidade com Ele (montanha/perto do céu), não dormindo, mas de olhos bem abertos, é possível recobrar toda esperança.  Em seu profetismo terapêutico acompanhá-lo, surpreender-se com ele e ver definitivamente que não há morte que possa silenciar a força e a intrepidez de seu Espírito. Não é tanto um sonho cristão, mas uma “abertura de consciência” essa descoberta: Jesus é de fato o Filho escolhido do Pai; é bom escutá-lo. Nele se descortina a vida verdadeira, que brilha como luz… Essa esperança nos motiva não a armarmos tendas a seu redor, sinal de estagnação e morbidez; ao contrário, anima para a lida diária, com suas cruzes e risos. Mas, desde já, o que habita nosso coração não é a angústia de que seremos lançados na escuridão e no silêncio definitivo. Ao contrário, o que nos motiva é aquela “visão”, calada como nos diz o texto, pois ninguém ousava falar do que viu. Para mistérios não há muitas explicações… Mesmo silenciada, contudo, tal ‘visão’ era certamente uma “chama acesa” no coração, uma “brasa fumegante” para o testemunho…

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Por, Pe. Eduardo César

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