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21/06/2015: "Travessia"

Comentário ao Evangelho do Décimo Segundo Domingo do Tempo Comum: Mc 4, 34-41

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“É o que eu digo, se for… Existe é homem humano. Travessia”. É assim que o grande mestre da literatura, João Guimarães Rosa, encerra seu monumental “Grande Sertão: Veredas”. Como se, ao fim de tantas pelejas, aventuras e desventuras, a saga humana em cruzar o “grande sertão” de sua vida pudesse ser sucintamente descrita: travessia. O poeta, entendedor das dores fundas e dos escuros abismos da alma, há de ter razão. Pois poucas metáforas são tão adequadas à existência humana quanto a de uma travessia. Nessa imagem está contido o ímpeto do movimento que nos leva para frente e nos abre sempre horizontes novos, como também a permanente sensação de inacabamento e provisoriedade que nos devasta. Na travessia, reconhecemo-nos sobre o nada de nossas inseguranças, mas também guiados pela esperança que nos habita. Perdidos ou achados em nossos empreendimentos, certos ou duvidosos em nossas aspirações, abandonados ou confortados em nossos sentimentos, fato é que estamos sempre em travessia, nunca totalmente aquietados, nunca plenamente satisfeitos, sempre em busca de uma outra margem de nós mesmos… E é precisamente isso que nos torna humanos.

Nessa rica experiência antropológica, a mais humana de todas, as religiões também encontraram uma metáfora para a fé. Pois a fé é similar à travessia, quando nos lançamos à procura de um “lugar” em nosso próprio interior, sem nunca termos absoluta certeza de que ele realmente exista. A fé nos permite esperar contra toda esperança e ainda confiar quando só haveria motivos para o desespero. Esperança última, chegada derradeira, descanso definitivo das canseiras… tudo isso vislumbramos apenas pela fé.

A fé cristã soube se valer dessas experiências humanas significativas para expressar sua singularidade. Por isso, para os cristãos, a travessia de tornou imagem de sua mais radical experiência de Deus: o mistério pascal de Cristo. Morto pelos seres humanos e ressuscitado pelo Pai, Jesus abriu uma passagem, uma travessia por dentro do sofrimento humano para sua mais plena realização. Sua vida vivida para o outro, sua fidelidade sustentada até o fim e seu aniquilamento na cruz tornaram-se travessia para a completude de uma vida que não se acaba. Como ouvíamos no domingo passado, o mistério pascal é um caminho aberto a todos quantos descubram a proximidade de um Reino de Deus que germina dentro de nós; aos poucos, toma raízes em nosso coração e cresce vicejante, oferecendo sobra a nossos pés cansados e abrigo aos àqueles que amamos.

Para isso, porém, é preciso consentir na perigosa travessia da fé pascal – um desafio para os cristãos de todos os tempos. E, talvez, seja disso que fale o Evangelho de hoje. A tarde cai – tal como no dia da morte de Jesus. Se sua vida foi como um sol do meio-dia, que revelava claramente o rosto do Pai, sua morte lança agora sombras e dúvidas no coração dos discípulos. Muito prematuramente, a tarde caiu no horizonte das comunidades, que se viram incompreendidas e perseguidas. Ainda assim, Jesus convida a passar à outra margem. Pois não há tempo tão difícil que impeça de crer. Pelo contrário, avançar sobre águas duvidosas, no escuro da noite, em meio às incertezas de nosso conhecimento limitado, procurando caminho em meio aos perigos – não é isso mesmo a nossa vida? E é assim que o Evangelho descreve: a barquinha dos discípulos perdida em meio às ondas, no negrume da noite, abalada pelo vento contrário. E Jesus? A ironia do evangelista é cortante: dorme sobre um travesseiro. Para os primeiros, não foi simples compreender que Jesus Ressuscitado estava presente, mesmo em meio às tempestades da vida. Quase sempre, ele parecia dormir tranquilamente. Ou pior: parecia não ter ressuscitado, morto para sempre, abandonando os seus aos apuros da travessia… A pergunta desesperada dos discípulos bem poderia ser nossa: “Senhor, não te importa que pereçamos?”. Afinal, nos momentos decisivos de nossas angústias, quando nos vemos dilacerados pelo medo, perdidos e ameaçados, onde está Deus? Quando já esvaziamos nossa voz em preces e nossas lágrimas em súplicas, onde Ele está? Em que podemos sentir sua presença? Ele estaria mesmo dormindo, alheio a nossos perigos? Sequer está no mesmo barco, conosco?

O Evangelho diz que, na última vigília, quando o sol está para nascer, Jesus se levantou – e esse é mesmo verbo da ressurreição: foi “levantado” dentre os mortos. Nisso consiste o amanhecer vindouro: na manifestação de sua presença. De pé, ordenou ao vento e ao mar: “silêncio, cala-te”. E houve grande calmaria. E foi assim que os primeiros cristãos fizeram uma preciosa descoberta sobre o Ressuscitado: Ele está sempre presente. Depositar nele a fé nunca será em vão, ainda que a barquinha de nossa vida se encontre sacudida pelo vento e as ondas. A companhia do ressuscitado não torna a noite menos escura, nem o mar menos profundo, nem as esperas menos sofridas… mas acalenta nossos medos e lança para longe nossos temores. Por isso, com ele, o vento nunca será forte demais e nem as ondas intransponíveis. Ao som de sua voz, a tempestade se acalma mora dentro de nós. De modo que a ordem “silêncio, cala-te” dada à tempestade se completa com a exortação “por que tendes medo? não tendes fé?”.

Sim, a “travessia do homem humano” de Guimarães Rosa pode agora sossegar quieta e encarar com mais coragem os perigos das profundezas e das perdiduras. Pois encontrou, finalmente, aquele que a realizou inteira e atingiu, de modo irrepetível, a outra margem de nossa humanidade: o coração de Deus. A nós, cabe aprender a arriscar, pela fé, a mesma travessia pascal, na certeza de nunca a fazemos sozinhos.

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Por, Frei João Júnior ofmcap

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