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21/09/2014:"Quem és Tu?"

Comentário ao Evangelho da 25ª Semana do Tempo Comum: Mt 20, 1-16

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Basta uma olhadela mais demorada, para percebermos que há várias ‘pontas soltas’ em nós, difíceis de decifrar e de dizer. Quase como um ‘pane’ no sistema matemático sobre o qual vamos construindo nossa lógica e a nossa razão, descobrimos mais cedo do que pensamos, emoções ilógicas, complicadas de verbalizar. Dentro em nós também se escondem desejos sombrios, impulsos que insistem em fazer falhar até mesmo o nosso discurso encadeado. Nossa palavra, tão frágil, não parece dar conta do fluxo da vida que nos habita e nos conduz. Quem, então, poderá contrariar essa descoberta, às vezes amarga, de que somos um mistério, até para nós mesmos?

Parece haver um véu cobrindo as realidades. Véu que não nos cansamos de tentar suspender, para descobrir o que ele vela. Não obstante nossas tentativas, não para nos dissuadir da investigação, mas para nos dar certa sobriedade na busca, está a constatação de que nunca conseguiremos devassar todos os enigmas de nossa existência. Se mesmo o sol produz sombras, não será uma ilusão pensar que nossa racionalidade e sua lógica, dão conta de por tudo às claras?

Também Deus é Mistério. Seus caminhos não são os nossos, seus pensamentos tampouco. Sua conduta é diferente do que a nossa poderia prever, sua paciência maior do que o que a nossa poderia esperar (Is 55, 9). Talvez por isso, muitos padres, no início do cristianismo, fossem muito temperantes ao falarem de Deus, preferindo dizer o que Ele não era. Por via negativa, iam cercando a realidade. Mesmo assim, ansiavam por definir os limites do que se poderia dizer Dele. Muitos santos, igualmente, experimentaram uma ausência de palavras para falar do mistério divino.

Mas, não contradiz justamente um princípio lógico, o fato de que alguém querendo se revelar, mantenha sobre si, o véu que o encobre? Deus não deseja revelar-se e dar-se a conhecer? Não é a obscuridade uma maneira de manter-se sob defesa, como o polvo que para enganar o predador, esguicha tinta preta? Afinal, se quisermos saber algo sobre Deus, não deveríamos deixar Ele mesmo nos dizer?

Pois é o que Ele faz. Deus se dá a conhecer, suspendendo o seu véu. E Jesus usa mais uma parábola para falar do Pai. O evangelho não economiza ao dizer de um “negociante” que não se cansa de sair à procura de trabalhadores para sua vinha. Negocia com os da primeira hora um denário (valor de uma diária) e, aos que trabalham apenas uma hora, dá, no final, o mesmo valor que aos primeiros. Jesus por meio dessa parábola nos faz conhecer a bondade de Deus, que não age segundo critérios humanos, que não pensa como nós e nem tem os nossos caminhos. Dá-nos a compreender que Deus age graciosamente, não conforme um negociante, de fato, que calcula lucros e prejuízos e paga cada qual segundo seus méritos. O Pai de Jesus não é um contabilista de acertos e erros, mas é o próprio Mistério da Bondade.

A revelação de Deus, mesmo a realizada em Jesus, não apaga o que lhe constitui: Ele continua se revelando sempre e sendo mistério. Mais ainda: porque se revela, abre mais seu mistério, convidando-nos sempre mais a não investigá-lo de fora, mas de dentro. Seu enigmático convite a nos aproximarmos dele, não para conquistar nada, mas por simples gratuidade, é clarividente. Seu transparente convite a amá-lo e ser fiel a Ele, lança-nos na obscura luminosidade do amor. Como uma lareira ardendo no frescor da noite, nosso ser lateja perguntando e respondendo: quem és Tu, Altíssimo Senhor? (São Francisco).

O fato de Deus ser misterioso nos impede de querer manipulá-lo, de reduzi-lo aos nossos esquemas mentais, a uma meritocracia medíocre, aos nossos ídolos.  Afinal, Deus sempre pode nos surpreender, na primeira, ou na última hora de nossa vida, ou ainda no decurso dela, convidando-nos a uma relação que terá como paga, apenas o seu amor insondável. Revelando-se e escapando-se de nós, Deus incita o nosso desejo e nos impede de o convertermos numa marionete das nossas próprias vontades ou mesquinhezes.  No seu mistério, Deus foge de nossas mãos e de nossos estatutos lógicos, para habitar o único lugar onde Ele prefere residir: nosso coração.

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Por, Pe. Eduardo César

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