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22/02/2015: "Amor incorrespondido?"

Comentário ao Evangelho do I Domingo da Quaresma: Mc 1,12-15

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Com alguma frequência, escutamos de alguns filhos uma queixa: a de que seus pais não lhes amam tanto como deveriam, ou que dão mais atenção a outro filho. Talvez estejam certos. Não raro, encontramos parceiros de determinado namoro reclamando a distância, a falta de carinho, ou o descuido do companheiro. Talvez não estejam sendo injustos. Nada diferente com muitas amizades, em que se percebe certa dissemelhança na confiança de um para com o outro, no modo de se relacionarem em comparação a outros amigos. Mas, e se todo amor for, de fato isto: incorrespondido? Pois, quase sempre, nossos apelos e desejos são frustrados e irrealizáveis; afinal, os outros não vivem a serviço de nosso querer. Mas, não só por isso; talvez todo amor seja incorrespondido, porque em todos os casos é assimétrico, desigual, já que os pares que se amam, são também desiguais e distintos. Ou ainda, porque o amor não admite réguas, ou comparações e, toda vez que queremos colocá-lo sob medida, ele escapa e se distorce.

Não parece muito diferente quando falamos de nossa relação com Deus. Também ela é marcada por uma distinção gravíssima: de um lado está Ele; uma mãe que ao colo carrega os seus filhos e os afaga com carícias (Is 66, 12s). Um Deus que conforta os corações despedaçados, enfaixa suas feridas e as cura (Sl 146 3s). A Ele agrada que lhe respeitem e que confiem esperando em seu amor (Sl 146, 11). Entretanto, do outro lado da relação, está o homem, um fugitivo de Deus. Por que Deus pode elevá-lo, ou por que teme ser amado? Ou ainda, por que é só o que consegue, no limite de sua contingência?

Uma assimetria incontornável, não fosse a paciência amorosa de Deus que não se cansa de propor e repropor sua fidelidade, entre “aparições” e “escondimentos”. Uma distinção intransponível não fosse o coração do homem “como terra sedenta e sem água” ( Sl 142, 6). Caso o homem não fosse totalmente capaz de Deus, graças ao Deus que se fez capaz do homem. Um amor, possível, portanto, entre diferenças. Nem esmagador, nem obsessivo ou possessivo; livre, mas marcado pelo compromisso.

É o que Deus propõe ao seu povo e a cada um, em particular, se percebermos o quanto nossa história pessoal está marcada por quedas e novos desafios: aliança.  Após o dilúvio (1ª leitura), sinal do caos e das forças do mal, Deus traça no céu um arco que o une ao homem; arco que se pretende inquebrantável e traçado no céu para que o homem se saiba sempre convidado a dirigir o seu olhar ao infinito que lhe habita. Dilúvio pelo qual todo cristão passa, mas não por “castigo”, mas pela salvação que se opera em Jesus Cristo, quando somos mergulhados com ele na morte e ressuscitamos com ele para a Vida definitiva (2ª leitura); é a graça de nosso batismo. Quase como num arco, a primeira leitura mostra a aliança firmada e refirmada muitas vezes por Deus, quase sempre quebrada pelo homem, até que em Jesus ela seja estabelecida definitivamente. Nele se encontra o sim ao amor de Deus, como mostra a segunda leitura. Amor de Deus dirigido a Deus? Não seria antes amor de um homem, submetido às fragilidades humanas, a Deus? Não está nele a nossa chance de corresponder ao Pai?

Talvez por isso, precisássemos acompanhar sempre mais, no início de toda quaresma, Jesus indo ao deserto. Para provar com ele, que também nosso coração “é terra deserta e sem água” e que está, justamente por isso, suscetível a tantas tentações. Elas podem nos dispersar da Boa Notícia que somos e que podemos descobrir, advinda do Deus que se faz irmão.

É depois de seu batismo, quando Jesus escuta seu Pai lhe dizer; “este é meu Filho…” (Mc 1, 11), que o Espírito o impulsiona ao deserto. Ele não terá sido tentado, ali, a esquecer-se disso e encontrar outros caminhos, opostos à vontade de Deus? Não serão essas as feras e os demônios do Evangelho: adversários da Boa-Notícia? Boa-nova que depois será ouvida da boca de alguém que se entende por Filho, e não outra coisa. Pois, talvez seja também no deserto, entre a aridez e o desespero, entre demônios e feras, que também somos tentados a esquecer de uma boa-notícia para nós: somos filhos amados. No deserto, certamente, nosso amor é provado; é quando temos todas as chances de duvidar do Reinado de Deus, que está demasiadamente próximo. Para descobri-lo, entretanto, precisamos de conversão, a fim de que nos deparemos com o Deus que nos ama com amor infinito e que aceita até mesmo as migalhas do nosso amor, tendo-nos ainda por filhos queridos.

Que nessa quaresma, possamos “progredir no conhecimento de Jesus e corresponder, pois, ao seu amor” (oração do dia).

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Por, Pe. Eduardo César

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