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22/11/2015: "Perigosa Realeza"

Comentário ao Evangelho da Solenidade de Cristo Rei: Jo 18, 33b-37

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A história de uma tradição religiosa é feita de seus erros e acertos, de suas fidelidades e infidelidades; de sua insistência de, em cada momento da história, oferecer o patrimônio de sua fé de uma maneira cada vez mais clara, mais honesta, mais credível e mais bela. Tem sido assim com a fé cristã. Em todas as épocas, desde nossa origem, haurimos da mesma mensagem de fé verdadeiras joias, de extraordinário valor teológico, capazes de oferecer esperança em tempos difíceis, segurança em tempos de dúvida, conforto em tempos de dor, alegria quando só se viam lágrimas. É preciso admitir: em muitos lugares, nos momentos mais dramáticos, a fé pode não ter sido uma luz clara e exuberante, mas foi a chama que, no breu das dores humanas mais invencíveis, bruxuleou e aqueceu, ajudou a não perder os sonhos e alimentou as buscas por dias melhores. Nesses momentos, a fé cristã foi, para muitos, absolutamente decisiva.

Porém, nos direitos e avessos de nossa história, é preciso admitir que o contrário também aconteceu, não poucas vezes. Nas encruzilhadas históricas de muitos povos, os mais pobres assistiram perplexos as instituições cristãs optarem pelo poder e a segurança dos impérios. Nosso ensino cristão se pôs como justificação de regimes tirânicos e ainda hoje não é raro que se preste ao reforço de ideologias funestas e unilaterais. A inviolabilidade da hegemonia cristã deixou cicatrizes profundas em muitas nações, que viram alguns de seus maiores heróis, anunciadores de verdadeira liberdade, desmentidos em nome de Deus. É tristemente verdade: em muitos momentos históricos, às vezes cruciais, a fé obscureceu em vez de clarificar, amedrontou em vez de encorajar, amordaçou em vez de libertar.

E das muitas distorções da fé cristã, ainda hoje possíveis, uma que corre sério risco de anacrônica perversão é a festa de Cristo Rei. Afinal, para o ocidente que ainda carrega a herança de séculos do absolutismo europeu, com todas as suas consequências imperialistas na África e na América Latina; para quem ainda vive sob a tirania de governos autoritários – mesmo que disfarçados com os véus do democratismo –, comandados por soberanos populistas e demagógicos; para os povos que sofrem a injustiça crescente produzida pelos impérios financeiros, com seus reis e papas do capital; para nossa gente ocidental do séc. XXI, seria ainda possível distinguir o sentido dessa festa? Seria justificável ostentar o título de Rei do Universo para Jesus de Nazaré, a quem chamamos Cristo de Deus?

Vejamos. De um lado do mar, o lado de lá, a nação francesa foi atingida covardemente e com violência brutal, dirigida sim aos centros de seu poder, mas tomando como reféns cidadãos indefesos. Como resposta, as nações ocidentais, unidas por ardilosa “solidariedade”, se lançaram contra os sírios com barbárie e brutalidade ainda maiores. E, entre respiros aliviados, há quem no “ocidente cristão” veja nessa investida a restauração da ordem estabelecida, a necessária luta contra o avanço do Islã. Em última instância, para muitos, na ponta das armas francesas ou estadunidenses, avança a afirmação do poderio de Cristo…

Do lado de cá do mar, milhões de metros cúbicos de lama tóxica já terão, no domingo, chegado ao litoral. Em seu caminho, um rastro de envenenamento que tirou a vida de alguns, apagou a história de centenas e mudou a vida de milhares – seres humanos, terra, águas, plantas e animais. Governos inoperantes, conglomerados econômicos inamovíveis, poderes inquestionáveis… e vítimas que se consolam ao encontrar, no tabernáculo de uma igreja, uma âmbula com eucaristia intocada pela lama. É admirável a experiência religiosa que desse pequenino evento infere a certeza de que Deus nunca nos abandona, nem mesmo nas piores tragédias. Mas parece pelo menos estranho à bondade de Deus que, em meio a tamanha destruição e ao lado de tantas vidas interrompidas, a realeza de Cristo se mostre milagrosamente, de maneira quase mesquinha, na preservação de espécies eucarísticas…

Parece que, de fato, estamos longe de compreender em que consiste a realeza de Cristo – se é que se pode chamar assim. Afinal, identificar o Reinado de Cristo com os reinos deste mundo e seus mecanismos de violência, ou mesmo esperá-lo através de pretensos milagres, como flores que enfeitam as correntes de nossas prisões – isso seria mesmo um louvor a Cristo? Não seria, antes, uma ofensa? Talvez, devêssemos tomar a sério as palavras do evangelho de hoje: “o meu reino não é deste mundo”. Pois não há nada (nem uma ordem política, nem um regime econômico, nem um poder estatal, nem uma verdade institucional, nada!) que possa ser simplesmente identificado com o Reinado de Cristo. As sementes de seu reino se espalham entre nós, muitas vezes nos surpreendem de onde menos se espera, mas delas não brota nada que partilhe das estratégias deste mundo para se afirmar: nem violência e nem descaso; nem vingança e nem ganância; nem ódio e nem morte.

No evangelho, Jesus fala pouco diante de Pilatos. Ele, que sempre teve uma palavra a todos, do sumo sacerdote ao cego de nascença, diante de Pilatos não se pronuncia. Com insistência, o representante do Imperador Romano consegue arrancar de Jesus apenas uma palavra sobre seu reinado: “Sim, eu sou rei. Eu nasci e vim ao mundo para isto: para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz”. “E o que é a verdade?” – é a pergunta de Pilatos que também nós poderíamos fazer. Afinal, do lado de cá do mar, o que é a verdade para quem viu a vida de seus amados sucumbir sob uma onda de lama e de cobiça?  Que verdade anunciar para quem agora necessita de quase tudo, pois sua história foi enterrada entre lamentos, incompetências e apatias? O que restou da verdade para quem tinha nas mãos a chance de ter evitado uma tragédia e não o fez? O que permanece verdade para quem deve assumir o lugar de legítima autoridade, protegendo o mais fraco, mas se vê agora refém dos do dinheiro que financiou campanhas políticas? E, do lado de lá, o que é a verdade para quem vive sob estúpida tirania ou sofre a violência desmedida? O que fica de verdade para quem recusa o diálogo e recorre às armas para afirmação dos próprios interesses? Que verdade ainda jaz entre os destroços de uma guerra que não hesita em vitimar inocentes, enquanto seus patronos calculam sossegados seus lucros? Um Reinado da Verdade – somente esse, e em sentido muito figurado – se pode atribuir a Cristo: lá onde já não haja mais dor, nem abandono, nem mentira, nem prepotência. Um reino em que ninguém mais precise fugir para proteger sua vida ou se submeter, à espera de uma esmola plebeia daqueles que já possuem tudo, menos a verdade.

Que, na festa de hoje, nos recordemos que, definitivamente, nos moldes deste mundo, Jesus nunca será um rei, por mais que às vezes o queiramos transformar nisso. Que o reino de Cristo só é um reino no sentido de não se parecer com nenhum reino e suas artimanhas de poder; assim como Cristo só é um “rei” no sentido de não se equiparar a nenhum rei da terra. Em todo caso, se for nosso desejo chamá-lo rei, que seja no sentido de ser Ele quem cuida de nós e nos guarda. Nesse caso, que a fé nos convença de que devemos nos lançar com todas as forças em atitudes obedientes ao seu Reinado da Verdade, mas sem nos esquecer de que a instalação desse reino só estará realizada entre nós no dia em que não houver mais reinos da mentira e da violência.

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Por, Frei João Júnior ofmcap

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