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23/02/2014: "amor divino"

Comentário ao Evangelho da 7ª Semana do Tempo Comum; Mt 5, 38-48

Proponho uma questão espinhosa.

O nazismo impetrado por Hitler foi um momento de nossa história, do qual certamente jamais nos orgulharemos e que nos mostrou a quais baixezas podem chegar os homens. Por conta de uma ideologia, inúmeros judeus foram torturados e exterminados. Muitos deles resistiram, mas ao serem descobertos, experimentavam mais pesadamente os castigos por sua oposição. E a resistência ao nazismo também veio de outros cantos, como da França, por exemplo. Não é desconhecida a história de Maïti Girtanner, uma jovem de dezoito anos que ajudou numa rede clandestina quando muitos grupos franceses lutavam contra a ocupação alemã. Essa jovem ajudava soldados em fuga. Quando descoberta e presa em 1943 foi enviada para um campo de torturas, onde sofreu nas mãos de seu algoz, um médico alemão que a deixou à beira da morte. Só depois de anos, presa a uma cadeira de rodas, é que ela voltou a andar…

Aqui, fariam sentido as palavras de Jesus: ‘não enfrenteis quem é mal, pelo contrário, se alguém te dá um tapa na face direita, oferece-lhe também a esquerda’? As palavras do mestre em humanidade, ouvidas por quantos sofreram no nazismo, não seriam minimamente cínicas? Naquele caso, estamos totalmente inseridos na lógica do absurdo e, por causa disso, é impossível tolerar a intolerância, ou não lutar contra a injustiça, oferecendo a própria vida para defender outras. Dietrich Bonhoeffer, um dos teólogos luteranos, mártires do nazismo, cunhou uma vez uma frase, da qual lanço mão, de livre memória; se um maluco, em um carro, sai a matar gente e ferir outras, não bastará simplesmente amparar os feridos ou recolher os mortos, é preciso parar o insano! Dou-lhe razão, mas… Como será possível, depois, construir a paz?

cruz mundo

Ontem e hoje são duas as posturas diante do mal: olhando para as teias macabras de crueldade e para as atrocidades que somos capazes de fazer com os outros, desiludimos, perdemos a esperança na vida, o sonho de que podemos ser mais do que temos sido.  A outra postura é a de quem ignora, finge estar tudo bem, mesmo constantemente assolado pelas notícias, trancafiado pelo medo. Mas quando a própria violência nos atinge, aí sim, desperta em nós o pior; o desejo de compensar os danos, a vontade de ver sofrer, igualmente ou mais, aqueles que nos causaram danos. A lei de Talião, que postula “olho por olho, dente por dente” (Mt 5, 38) seria justa dentro da lógica ‘dano-vingança’, porque impede que a represália seja assimétrica, injusta, postulando a equanimidade. Mas e quando o dano é irreparável? Quando o mal feito a nós ou a quem amamos destruiu nosso horizonte, nosso sentimento de mundo e fez desmoronar nossa confiança na humanidade? Bastaria, então, a vingança? E depois de realizada, o que restaria?

Algumas vezes o mal procede dos dominadores, que oprimem e esmagam; outras vezes é só repetição e outras tantas, nasce do desejo de fusão. Pois assim funciona o mal e a violência, mesmo sob o véu enigmático que o encobre; numa ciranda trágica ele vai formando cadeia, perdurando no ressentimento que leva à vingança, que por sua vez, leva a mais ressentimento e de novo à vingança e assim sucessivamente. Só uma força é capaz de parar tal ciranda e, finalmente, é aqui que descobrimos o valor desse evangelho a nós apresentado.

Jesus, verdadeiro mestre em humanidade, desarticula o ódio e a violência na raiz, por uma resistência, sim, mas não violenta; pelo perdão. Só o perdão é capaz de interromper a ciranda de maldade e perversidade, abrindo de novo a esperança e o sonho de uma vida nova, baseada no amor. Esperança, sonho, mas também loucura, com diria Paulo, pois, que outra coisa é o amor aos inimigos, aos que nos fazem mal, senão loucura (1Cor 1, 18)? Mas uma loucura sadia, porque reconheceríamos os inimigos não como monstros, mas sim como homens (e mulheres) esquecidos de sua própria humanidade, pessoas que mesmo fazendo o mal conscientemente, ‘não sabem o que fazem’ (Lc 23, 34). E, assim, perdoando, jamais nos tornaríamos também nós, pessoas somente más, porque só isso nos restaria ao fim de qualquer vingança: o sentimento de que não somos nem um pouco diferente de quem nos feriu. Ao olharmos o outro que faz sofrer, como alguém que também sofre, talvez nós nos pudéssemos libertar do mal que esse alguém nos fez e quem sabe, nosso olhar mais humanizado conseguisse ‘enfiar-se’ por entre as brechas do coração perverso e arrancá-lo de seu esquecimento: o esquecimento do que é ser humano.

Jesus compreendia que Deus era paciente e compassivo (Sl 102) e por isso, conspirava com Ele. Nós mesmos já fomos, inúmeras vezes, atingidos pelo perdão e pelo amor irrenunciável que Deus tem por nós. O cristão deve também conspirar com Deus e Jesus, amando até mesmo os inimigos, indo mais longe do que se espera (Mt 4, 40-42), perdoando e não vingando-se; porque é assim que se é santo como Deus é santo (Lv 19,1). O perdão, entretanto, é dom e tarefa; ninguém entra por suas vias, se não for conduzido…

Um dia em 1984, Maïti Girtanner atendeu ao telefone. Era o médico que a torturara nos campos nazistas. À beira da morte quis falar com a mulher que sofrera em suas mãos. Quando era torturada certa vez, ela havia lhe falado de Deus e agora ele se recordava daquelas palavras, em seu leito. Encontraram-se e depois de duas horas, ele pediu-lhe perdão. Por muitas vezes, em sua vida, ela havia rezado  para que conseguisse perdoá-lo em seu coração. Maïti, entretanto, não respondeu com palavras, mas teve certeza de ter-lhe perdoado. Pediu, contudo, que ele vivesse em amor, os dias que lhe restavam… Com tal amor de contornos divinos, arrancou a vida dele, da dor e da desesperança. E também a própria vida… Talvez a de todos nós.

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