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24/04/2016: “De novo, o amor”

Comentário ao Evangelho do V Domingo da Páscoa: Jo 13,31-33a.34-35

Não o reto saber, por mais preciso que seja, como o dos teólogos, exegetas, filólogos, tão entendidos da tessitura, arqueologia e letra da Escritura… Não o muito fazer dos incansáveis missionários, apóstolos, presbíteros e religiosos… Tampouco a oração carismática, o louvor ininterrupto, a retórica bem utilizada… Nada disso nos identifica como cristãos. Por certo, pode distinguir nossa competência, nossa habilidade, nossa piedade, mas não é o sinal claro e evidente de que seguimos Jesus Cristo. Para isso, sem delongas, é preciso recorrer às palavras do próprio Jesus: “nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros” (Cf. Jo 13, 35).

De novo, o amor. Que há de novidade nesse mandamento de Jesus? Não é que seja necessário investir energias colossais para criar novidades; às vezes, precisamos mesmo é investir energia no óbvio que acaba sendo esquecido. Mas há sim uma novidade nesse mandamento de Jesus, já conhecido no Primeiro Testamento. Lá, se lê o seguinte: “ame o seu próximo como a si mesmo” (Lv 19, 18).

Isto já é difícil: amar ao próximo como a si mesmo. Porque nem sempre as pessoas se amam a si mesmas. Aprenderam da vida, ao contrário, o desamor próprio, a autodepreciação, a autocrítica desmesurada, o autoflagelo silencioso. Que amor pode ser projetado nas relações, para quem assim se encontra, senão o das exigências desmedidas; a crítica atroz a tudo e todos, a repreensão de todo defeito, o perfeccionismo, a extenuante mendicância por alguém que venha restituir o amor que um dia não receberam.  Há também os que se amam demais, supervalorizando tudo, superestimando cada traço, até os negativos. Receberam tanta atenção, só ouviram ‘sins’; esses só conseguirão amar quem os ama. Não viverão para amar o próximo, mas para amar o próximo que lhes dê amor.  Amar ao próximo como a si mesmo demanda, então, ao que parece, aprender a se amar e isso exige um trabalho contínuo: o de não subestimar e não superestimar nada, o de olhar para as coisas como são, integrando as dores, deixando cicatrizes fecharem, remediando outras, não se vitimando nem se ancorando na dor, fazendo-se autor da própria história, responsável pelas próprias escolhas. Às vezes, para tanto, leva-se uma vida.

E vem Jesus e ainda ousa mudar o mandamento: “como eu vos amei, vós deveis amar-vos uns aos outros” (cf. Jo 13, 34). Aparece, aqui, outra medida. Amar como Jesus amou. E ele amou os seus como a amigos. Não com superioridade, como muitas vezes os teólogos, do alto de suas cátedras, ou como os muito trabalhadores competindo quem planta mais a semente do Reino… Como amigos que se olham nos olhos. Ele amou os seus como servidor que lava os pés, não como os poderosos que competem pelos primeiros lugares, ou os que disputam quem é o maior. Amou-os, dando-lhes de comer a própria vida, não como os que guardam a própria vida só para si. Exigência mais radical, a de Jesus. Como alguém, de fora, pode nos pedir que sejamos capazes de amar como ele amou, entretanto? Ao amor não se dá ordens, de fora… Pedir-nos que sejamos amigos, que saibamos servir e dar a vida? Que motivação pode nos levar a tais ações?

Quase sempre deixamos tal mandamento pesar sobre nossos ombros e não como um fardo leve e suave, porque passa despercebido aquele ‘como eu vos amei’. O mandamento de Jesus não nasce de fora, portanto. Não vem de um imperativo exterior ao nosso coração, mas nasce da experiência radical, intransferível e terapêutica de sentir-se amado por Deus, que em Jesus deu-nos a vida. O imperativo nasce desse indicativo pessoal: sou amado. Entre as dores, cicatrizes, clamores, sedes e fomes, lá mesmo onde as tantas mortes pessoais doem, podemos encontrar um amor, que cura, alimenta, sacia e ressuscita. E que nos põe de pé, não obstante nossas cruzes. Que nos anima com coragem o suficiente para decidirmos se queremos ver esta vida e nossa história mais embrenhadas na competição, no envenenamento das relações, na insalubre luta pelo poder, na violência explícita e implícita ou se as preferimos ver brotar do cuidado e da ternura, da compaixão e do zelo, da delicadeza e da concórdia. Enfim, do amor que realmente nos pode salvar, do amor que nos identifica…

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Por, Pe. Eduardo Cesar

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