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24/08/2014: "Além da aparência"

Comentário ao Evangelho da 21ª Semana do Tempo Comum: Mt 16,13-20

Aparencias-Preconceitos-e-Ilusoes

Ultrapassar o visto, o imediatamente percebido e escutar o silêncio que envolve cada palavra… Superar toda feição e ouvir a pergunta que somos uns para os outros… Uma proposta curiosa, provocativa, mas suscetível de frustração…

Sim, porque nem todos estão dispostos a cruzar o limiar do superficial, além de toda exterioridade, em direção ao coração do mistério de outrem, para não terem de se responsabilizar nem encontrar latente, na relação, a pergunta por si mesmo. Sim, porque nem todos que ousam descer às funduras de nossa realidade interior, compreendem o emaranhado de nossas teias, nem a confusão de nossa simplicidade.

Parece ser essa a cena que temos diante dos olhos, nesse evangelho. Jesus pergunta aos seus, quem ele é para os homens, quem ele é para eles. Questionamento arriscado, mas corajoso, porque pode ouvir por resposta até mesmo um assustador; ‘nada’. Quase sempre, entretanto, as pessoas têm algo a dizer sobre nós. Quase nunca, porém, estão certas, porque é costume parar na superficialidade, categorizar as pessoas a partir de nossas pobres definições e, sem criatividade, fazer tudo e todos redundarem sob os mesmos rótulos com que vamos distinguindo a realidade que nos circula. Não é para menos; só temos nossos pobres conceitos, nossas limitadas percepções e nossas expectativas rasas – por maiores que sejam. Com Jesus também: entendem-no ainda como alguém que segue João Batista, sem compreenderem nele, o alegre advento do Reino. Compreendem-no por Elias e Jeremias, sem perceberem que ele é mais que um simples profeta, mas a plenitude das profecias.

Uma decepção para Jesus? Ser entendido como aquele que dá o pão, mas não como o pão mesmo; ser desejado como aquele que dá a água e não como o poço; ser procurado como aquele que faz milagres e expulsa demônios, mas não como Milagre Vivo, como a Vitória sobre o mal? O Evangelho não nos fala de decepção. Jesus aceitou ser depositário da fé de tantos, sem nunca cobrar-lhes nenhum reconhecimento. Mas sua preocupação parece dirigir-se ao menos para aqueles que lhe são próximos. É sempre assim no evangelho de Mateus; o olhar parte das multidões para os discípulos, quase que para mostrar que na esteira do discipulado, temos mais condições de entender o mistério do Cristo.

Pedro responde imediatamente. Sua resposta não é analítica, não é racional. Afinal, a análise dá conta do que é substancial? Outra coisa parece nos indicar Jesus: só envolvidos no Mistério do Amor somos capazes de dar a resposta mais burilada e acertada sobre quem é verdadeiramente alguém. Só a experiência envolvente, a partir do coração, pode nos dar o “conhecimento preciso e precioso sobre outra pessoa”. Uma revelação, por certo.

A fé de Pedro é que sustenta a comunidade, como uma pedra de construção, justamente por compreender que antes de palavras, proposições, importa nossa experiência real de Cristo. Como dizia Tomás de Aquino; a fé está in res (na realidade mesma). Essa fé, porque compreenderá o que é central no messianismo de Jesus – a misericórdia – tem poder de desligar e ligar, ou seja: de reter e perdoar.

A fé petrina e da comunidade nascente, chega até nós, hoje, pela pregação. Mas, não fica, ainda mais, o convite para ouvirmos além das palavras; a proposta de respondermos, ainda outra vez, “quem é Jesus para nós?” Pergunta essa que não se resolve com tratados de cristologia, nem com proposições dogmáticas, se antes não for experimentada como questão radicalmente dirigida ao coração: quem é Jesus para mim?

Como uma vez mais superar as aparências, senão superando nossas imagens apressadas e idolátricas de Deus e de Cristo? Como uma vez mais atravessar o que nos dizem dele, muito acertadamente, às vezes, para encontrar o que ele significa para nós, senão procurando-o nos vestígios com os quais Ele nos seduz?

Está aí a proposta mais repetida na liturgia católica – dar uma resposta viva à pergunta de Jesus (“Quem vocês dizem que eu sou?”). Uma pergunta também sobre nós, porque assim direcionada acaba por questionar: quem sou eu, que posso dizer quem é Jesus? Em quem eu creio, crido como alguém capaz de responder? Talvez, porque o maior risco que nós corremos, depois de dois mil anos do evento Cristo, seja o de esquecer, como aquela comunidade nascente, o centro de nossa vida: Jesus, o Filho do Deus vivo.

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Por, Pe. Eduardo César

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