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24/11/2013: "“… teu trono será firme para sempre.” (2 Sm 7, 16)"

Solenidade de Cristo Rei

E Deus disse a Samuel: “… não rejeitaram a ti, mas a mim, já não me querendo para rei. Exatamente como procederam comigo desde o dia em que os tirei do Egito, até o dia de hoje…”. (1Sm 8, 7s).

O movimento bíblico que mostra a passagem do governo dos juízes para o governo dos reis é marcado por uma ambiguidade. De um lado, Deus se incomoda com o povo que quer reis, pois somente Ele é o Senhor de Israel. Precisamente por isso Deus os libertou do Faraó; para livrá-los de todo poder absoluto, de toda escravidão. O “regime monárquico” guarda o grave risco de retornar à idolatria. Por outro lado, a complexificação crescente do grupo social acabou por exigir um rei e será o próprio Deus, que pelas mãos do profeta, o ungirá.

Contudo, todo rei deve representar um lugar-tenente de Deus diante de seu povo; é para servir e não para tiranizar, que eles são constituídos. Mas a sede de poder sempre corrompe e, é o próprio Deus quem avisa o que pode um rei depois de ser constituído; a que escravidões ele pode submeter as pessoas (1Sm 8, 10-18). Por amor e fidelidade a seu povo, entretanto, mesmo prometendo não ouvi-lo, quando esse pedir por socorro, o próprio Senhor não permitirá que reinados atrozes perpetuem-se. Afinal, todos os ‘impérios’ – reunidos na imagem da besta – ruem diante do trono do Cordeiro (o Apocalipse versa sobre isso).

Mas, ao celebrarmos a festa de Cristo Rei, descobrimos um rei diferente de todos, em um homem que conspira radicalmente com Deus; Jesus, o Cristo. Os reis são ungidos, mas O Ungido (=Cristo), só ele é O Rei.

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Mas Jesus viveu como rei? Certamente não. Quis poder? Tampouco. Ele mesmo alertou seus discípulos: “Vós sabeis que os chefes das nações as oprimem e os grandes as tiranizam. Mas, entre vós, não deve ser assim; quem quiser ser grande, seja vosso servo; e quem quiser ser o primeiro, seja o escravo de todos. Porque o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate para muitos”. (Mc 10 42-45). Por isso, seu reinado foi o de alguém que se faz escravo, para nos livrar de toda escravidão; para nos chamar de amigos (Jo 15, 15), para que nos redescobríssemos filhos. O Reinado de Jesus é da ordem do serviço; não o da busca do poder, aliás, há que se abrir mão da busca por altos postos, por títulos, por ser grandioso diminuindo os outros.

Por isso, brilhantemente, o texto do evangelho dessa solenidade de Cristo Rei é o da crucifixão de Jesus, dessa vez narrado por Lucas. Em Lucas o Reino de Deus chega na cruz. Durante todo seu evangelho, o autor nos mostra o Reino da reconciliação que Jesus está inaugurando e tal reconciliação encontra seu ápice, lá. O Reino está na doação, na entrega que se vê em toda a vida do Cristo e, especialmente, em seus momentos finais quando ele se entrega definitivamente e perdoa, mesmo os que o crucificam.

O evangelista mostra ainda Jesus dizendo a um dos ladrões: Hoje estarás comigo no paraíso! Esse hoje do Evangelho é inaugural. Quer dizer que hoje ainda pode começar o paraíso para todos, hoje ainda, em cada gesto de resgate e de perdão pode iniciar o Reinado de Cristo. Hoje, mesmo entre fragilidades e infidelidades, pode despontar uma nova vida. Hoje, ainda, cegos talvez vejam; surdos talvez ouçam; mudos talvez falem; mortos talvez ressuscitem… Hoje, o paraíso? Sim, se a vida não fosse competição pelos maiores cargos, opressão dos mais fracos, tirania dos mais intelectuais, manipulação e alienação de massas… Guerras e conflitos bélicos, vontade de poder sobre o outro, despotismo mascarado, intolerância religiosa, moralismo obsessivo, fundamentalismos… Enfim, se não continuássemos a nos curvar diante dos reis deste mundo.

 Hoje… Sem esquecer o amanhã que sempre caminha a nossa frente, sem medo do ainda-não sempre presente, mas já.

O Reinado de Jesus é um reinado de promoção de fracos, de valorização dos frágeis, que desperta no coração de todos quantos se descobrem não mais escravos, mas verdadeiramente filhos, uma nova dignidade: somos não só profetas e sacerdotes, mas também reis. E como tais, ao modo de Jesus, devemos reinar. O Reinado de Jesus é doação e, como professamos, não terá fim…

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Por, Diácono Eduardo César

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