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25/08/2013 – “São poucos os que se salvam?”

Reflexão Dominical – 21º Domingo do Tempo Comum.

Desde que nossa natureza se levantou do pó da terra e se descobriu filha também do céu, ou melhor, do sopro criador de Deus, aberta às sumas alturas do sonho, à profundidade do amor e aos apelos da esperança, os homens e as mulheres de todos os tempos se perguntam pela razão última de sua vida. Afinal, se, por puro dom e na frágil efemeridade de nossa existência, somos seres assim tão infinitos, tão disponíveis à eternidade, nossa vida seria realmente apenas o breve intervalo de tempo que separa o nascimento e a morte, limitada às poucas experiências de erros e acertos que, em tão curto tempo, acumulamos? Ou será que, de algum modo, o mistério da existência não traria em si a chave de uma plenitude, ao mesmo tempo originária e definitiva que, mesmo escondida, nos encanta o coração pela simples possibilidade de um talvez? No fundo, todas as grandes religiões, a seu modo, se perguntam por esse derradeiro sentido. Também os discípulos de Jesus, segundo o testemunho das escrituras, o questionam sobre essa realidade: “são poucos os que se salvam?”.

Diversamente do que se esperaria (e frequentemente se espera, mesmo entre os cristãos), Jesus não descreve uma salvação encarcerada num futuro indizível ou reservada somente para após a morte, lá onde as enganosas experiências humanas dariam lugar a outra realidade, essa sim mais verdadeira e amável. Não. À questão pela salvação, Jesus responde com o Reino de Deus: uma presença de Deus entre nós e em nós, já latejante desde sempre e ansiosa à espera do momento em que, finalmente, nos demos conta dela; uma consciência capaz de transformar toda a vida, não por obscuridades mágicas, mas pela clareza da intimidade com Ele; um convite paciente de Deus, que se digna esperar por nós, a participar de sua vida divina – já aqui e agora, até o dia em que Ele mesmo nos assumirá (assunção, como celebrávamos na semana passada) completa e definitivamente; tal como a Abraão, Isaac, Jacó e tantos irmãos e irmãs nossos, que vieram antes de nós.

E, incrivelmente, a adesão a esse Reino, segundo Jesus, não se dá lá no supremo e final juízo, mas nos graves juízos de nossa vida, a mais cotidiana; nas pequeninas respostas, dadas a conta-gotas, a todos os que no-las pedem com a urgência de suas necessidades. Disto se constitui o acesso à eternidade: das centelhas do tempo vividas com a intensidade da vida feita dom; disto se constitui o eterno: do efêmero vivido na unicidade irrepetível de cada instante doado e favor do outro; e nisto se alcança a salvação: na busca sincera e responsável, autêntica e inadiável de viver, já agora, o Reino que é para sempre.

Essa oferta salvadora de Jesus é feita a todos, “do sul e do norte” e, por se tratar de uma realidade que se vive a partir de dentro, desaconselha a atrevida audácia de julgar depressa demais. Pois, no fim, quem sempre se acreditou dentro pode descobrir que nunca entrara, enquanto o mais credivelmente fora pode descobrir que estivera sempre dentro.

 

João Júnior ofmcap

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